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Compreendendo as Inquisições

março 15, 2014

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O herege, para a mentalidade medieval, era uma espécie de terrorista. Assim como o terrorismo de hoje, a heresia espalhava o caos e a morte e se tinha como necessário combatê-la com grande rigor.

Falsificar a fé era o mesmo que solapar as bases da sociedade e do Estado e corromper a vida espiritual, infinitamente mais importante do que o bem-estar físico.

Podemos até achar injustificável condenar um herege obstinado à morte, mas isto não nos impede de compreender a lógica que levava as pessoas naquela época a puni-los tão severamente.

As inquisições foram formas institucionais criadas para garantir aos hereges um julgamento justo (e até misericordioso para os padrões daqueles tempos). Sua existência impediu linchamentos sumários e limitou abusos dos tribunais seculares, que não tinham competência para julgar sobre questões de doutrina e teologia. O número de condenados à morte foi bem menor do que se pensa (cerca de 2000 entre 1231 e 1400), especialmente se considerarmos que crimes tidos hoje como de pouca gravidade eram cominados com a pena capital.

Mesmo a Inquisição espanhola, tida como a mais terrível (e, note-se, sua fundação ocorreu após o final da Idade Média!), em cerca de 350 anos de existência sentenciou à fogueira no máximo umas 5000 pessoas, o que corresponde a cerca de uma execução por mês. Sim, uma morte injusta já seria muito, mas se não tivermos algum senso das proporções, formaremos uma imagem bastante distorcida do que as inquisições realmente foram: não um reinado de tortura, repressão e execuções sádicas, mas uma corte especial e relativamente benevolente inserida em um sistema judiciário secular que aplicava rotineiramente penas cruéis.

Enquanto a inquisição impunha na maior parte das vezes penitências, centenas de pessoas eram executadas todos os meses nos tribunais seculares até mesmo por crimes de pouca monta.

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Os instrumentos de tortura usados para ilustrar as atividades dos inquisidores em livros e documentários, na verdade, foram quase sempre empregados apenas nos tribunais seculares. Havia regras durante os processos inquisitoriais que restringiam os métodos de tortura (basicamente três na inquisição espanhola: a garrucha, a toca e o potro, o primeiro e o último envolvendo o deslocamento de membros sem mutilação e o segundo uma simulação de afogamento), bem como sua frequência (máximo de duas vezes) e duração (máximo de quinze minutos).

Deveras, somente uma fração muito pequena dos julgamentos envolveram o uso de tortura, mais uma vez em franco contraste com o uso das cortes comuns daquela época. Além do mais, a tortura era usada para obter uma confissão de culpa ou extrair alguma informação, nunca como forma de punição.

Dizer estas coisas, contudo, não justifica moralmente o emprego de tortura pelos tribunais eclesiásticos. Compreender não significa legitimar. 

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No Brasil, em 2012, 50000 homicídios foram registrados. Todas as inquisições levaram à morte, em 600 anos, umas 10000 pessoas no máximo. O Brasil mata, portanto, 3000 vezes mais gente do que os infames tribunais eclesiásticos. Os regimes comunistas ateus, por outro lado, mataram milhões de pessoas em poucas décadas… 

Historicamente, as inquisições correspondem a uma parcela ínfima da violência (justa ou, na esmagadora maioria das vezes, injusta) empregada pelo homem contra seus semelhantes. Dentro do contexto social, político e religioso no qual surgiram, pode-se dizer que a maior parte das pessoas nelas envolvidas agiram de boa-fé, buscando o melhor para o bem comum e o bem das almas.

SE (daqui até o fim do parágrafo tudo é condicional), do ponto de vista moral, os envolvidos nas inquisições agiram objetivamente de um modo errado, do ponto de vista subjetivo não se pode crer que tivessem consciência do seu erro, ou mesmo que fossem capazes de atingir tal consciência. Sua ignorância da (suposta) ilicitude do emprego de meios violentos para defender a fé era invencível.

Por outro lado, mesmo que as inquisições e a aplicação da pena de morte a hereges tenham sido moralmente legítimas, como pensam alguns, isto não significa que estas sejam os instrumentos mais adequados para se lidar com o problema da dissensão religiosa. Algo pode ser lícito e, ao mesmo tempo, não ser a melhor opção.

Cosmos e anticatolicismo

março 14, 2014

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Giordano Bruno, apresentado como mártir da ciência na nova versão da série Cosmos, nunca foi cientista e foi condenado por várias heresias, como negar a Santíssima Trindade, a divindade de Cristo e a transubstanciação.

Bruno professava um animismo cósmico que fazia do Universo um ser eterno e consubstancial com a divindade (panteísmo).

Sua tese defendendo a existência de uma INFINIDADE de sistemas solares copernicanos não tinha, não tem e jamais terá qualquer base empírica quantificável (como se pode medir o infinito?). O heliocentrismo que defendia estava em conflito com a física da época (Aristóteles) e não melhorava em absolutamente nada as previsões do sistema geocêntrico de Ptolomeu.

Bruno era um ocultista, adepto do hermetismo e tinha um temperamento difícil. Seu sarcasmo, espírito polêmico e vulgaridade alienavam todos os que lhe deram uma chance de se estabelecer como professor. Alcançou a proeza de ser rechaçado por católicos, luteranos, calvinistas e anglicanos.

Não é de se espantar que tenha se metido em uma grande encrenca com a Inquisição romana.

O cartoon usado no primeiro episódio da série Cosmos para ilustrar sua biografia deixa uma impressão parcial ou mesmo falsa do que aconteceu de fato, especialmente na apresentação de seu julgamento pelo Santo Ofício, retratando as autoridades eclesiásticas com traços impiedosos e cores sombrias.

Ora, a Igreja nunca teve, em nenhum tempo, nada contra a ciência empírica autêntica. A ideia de um conflito irremediável entre ciência e fé é apenas peça de propaganda de certo tipo de ateísmo.

É lastimável que um terço do primeiro episódio da série Cosmos seja pura panfletagem anticatólica, digna de um libelo voltairiano.

Apenas as partes inicial e final valem à pena pela qualidade e impacto visual das animações que descrevem as escalas de espaço e tempo do Universo. Há nelas apenas uma referência, dispensável, à noção absurda e anticientífica de um multiverso infinito.

Notas breves sobre a Nouvelle Théologie

fevereiro 15, 2014

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As diferenças de ênfase e terminologias distintas das teologias orientais não implicam numa oposição ou contradição em relação à teologia latina.

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Do fato de eu não desejar que alguém se condene não se pode deduzir que ninguém será condenado. A minha esperança pela salvação de uma pessoa não implica em que eu possa ou deva esperar que todos se salvem.

Uma analogia: não quero que ninguém morra de câncer, mas isto não significa que eu acredite que esta maldita doença nunca mais irá matar ninguém.

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A recepção de teólogos como de Lubac, Congar e Balthasar pelos últimos Pontífices não empenhou a autoridade magisterial.

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A verdade, venha de onde vier, é a verdade e devemos acatá-la. Ainda que venha de ateus, pagãos, hereges, cismáticos ou até mesmo de (ó, infâmia)… tradicionalistas. Penso que a “Nouvelle Théologie”, o ressourcement, o retorno aos Padres Antigos, desenrolou-se de um modo lamentavelmente hostil ao pensamento tomista tradicional, jogando fora muita coisa preciosa. A clareza de Santo Tomás e seus seguidores ao expor a fé foi trocada por um linguajar nebuloso que afetou profunda e negativamente a vida espiritual da Igreja. Precisamos urgentemente resgatar a tradição escolástica do limbo em que foi jogada, pois ela encerra uma grande riqueza.

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A escolástica foi renegada e substituída por filosofias da moda de caráter pernicioso.

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É preciso acolher com o mesmo amor tanto o primeiro milênio como o segundo milênio da vida Igreja, pois a Igreja é uma só e o desenvolvimento da doutrina é orgânico, não artificial. A Igreja não pode retornar aos seus primórdios históricos e tornar-se novamente um bebê, negando ou escondendo envergonhada tudo o que ocorreu depois do ano 1000.

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Alguns trechos de Balthasar que me deixaram com uma pulga(!) atrás da orelha:

“… a visio immediata Dei [substituto da visão beatífica de Nosso Senhor na teologia balthasariana]… pode oscilar entre o modo manifesto (que convém ao Filho como sua “glória”) e o modo de “ocultamento” que convém ao Servo de Yahweh em sua Paixão… O segundo modo aqui é derivado do primeiro: uma fé viva se contenta em ficar diante da face do Deus que vê, quer Deus seja visto ou não por ele.” (The Glory of the Lord, Vol. 1, p. 329).

“Jesus tem consciência de um elemento do divino sua autoconsciência indivisível mais profunda… mas esta consciência é limitada e definida pela consciência de sua missão. É desta que, e somente desta, que ele possui uma visio immediata” (The Theo-Drama, Vol. 3, pg. 166).

“[A consciência de Sua divindade] somente vem a Ele [Cristo] através de Sua missão, comunicada pelo Espírito, que excluiria a Visão Beatífica de Deus… Jesus não vê o Pai em uma visio beatifica mas recebe do Espírito Santo a comissão do Pai, isto é, a consciência de Sua missão é apenas indireta” (The Theo-Drama, Vol. 3, pg. 195-200).

Nosso Senhor tinha fé?

Nosso Senhor sabia apenas do que era necessário para sua missão?

A ciência infusa de Cristo não ia além de uma convicção profunda de que estava fazendo a vontade do Pai?

As palavras e mandamentos do Pai lhe eram revelados aos poucos?

Nosso Senhor não via o Pai, mas apenas intuía, por meio do Espírito Santo, o que o Pai desejava lhe comunicar?

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Não é preciso jogar Balthasar fora por inteiro mas, como escreveu São Paulo, devemos “examinar tudo e ficar apenas com aquilo que é bom” (1Ts 5,21).

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A síntese, ou melhor, o reconhecimento mútuo da verdade das teologias do Oriente e do Ocidente, é importante, mas mais importante é a clareza e fidelidade ao Depositum Fidei que, infelizmente, parece faltar aqui e ali mesmo em alguns teólogos brilhantes, e digo isso sem ranço “tradicionalista”, já que não sou propriamente desse tipo.

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Os Padres do primeiro milênio são, sem dúvida, testemunhas da Tradição Apostólica, mas não são, é forçoso dizer, a própria Tradição. Por serem mais antigos, devem ser sempre consultados e reverenciados. Contudo, Santo Tomás e seus melhores comentadores são até hoje insuperáveis em coerência, clareza e concisão na sistematização da teologia e da doutrina.

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O retorno às fontes patrísticas promovido pela Nouvelle Théologie é digno do mais alto louvor. Só que tal retorno não deveria ter privado a Igreja das luzes da tradição escolástica que, frise-se, jamais foi hostil aos Padres… Basta ler a Suma Teológica para constatá-lo.

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Os teólogos da Nouvelle Théologie – que pertenceriam no futuro às correntes Communio e Concilium, conservadores e progressistas – irmanaram-se, infelizmente, na rejeição do neotomismo incentivado pelo Papa Leão XIII, colaborando intensamente nos bastidores do Concílio Vaticano II para remover sua influência. Os esquemas de preparação dos documentos conciliares, de caráter fortemente escolástico, foram rejeitados, e os textos finais dos documentos conciliares ficaram repletos de ambiguidades, permitindo interpretações espúrias. Foi uma reação precipitada, até brutal, na qual muita coisa boa se perdeu. Lamentável.

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O ostracismo da neoescolástica não foi também uma rejeição do tomismo? Creio que o tipo de formação dominante nos seminários católicos durante as décadas que se seguiram ao fim do Concílio é evidência suficiente para dar uma resposta afirmativa.

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Por mais que a neoescolástica (estimulada fortemente pelo Papa Leão XIII na Aeterni Patris, não podemos esquecer!) não tenha aprofundado o estudo das fontes patrísticas, ela permaneceu sempre segura e fiel à sã doutrina (e, por conseguinte, fiel aos Padres). Isto é o mais importante. Limitação no quesito “ressourcement” não justifica rejeição e esquecimento.

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A aridez dos manuais de filosofia e teologia neoescolásticos também não vale como crítica. Livros de física e química, por exemplo, são herméticos para a maioria dos leitores por conta da alta densidade de informação apresentada em linguagem matemática. Substituí-los por uma literatura mais leve, como a dos livros de divulgação científica, atrairia mais leitores, mas os conhecimentos assimilados desta forma seriam superficiais e a propensão ao erro seria maior. Um corpus teórico profundo não pode ser assimilado apenas olhando para figuras, analogias e exemplos. É necessário árduo esforço intelectual.

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Creio que precisamos de bons “divulgadores” da teologia, e bons teólogos que articulem insights novos, que inaugurem novos caminhos, mas se estes caminhos precisam ser percorridos com seriedade e rigor, não se pode prescindir da linguagem e dos princípios da “matemática” teológica, ou seja, da “escolástica”, que evitam erros os quais, mesmo se pequenos (e especialmente quando são pequenos), podem levar para bem longe da verdade contida no Depositum Fidei.

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Resumindo, a Escritura e a Tradição constituem o conteúdo revelado que o Magistério interpreta e atualiza, enquanto a escolástica tomista provê uma estrutura formal e postulados que asseguram a fidelidade na sua transmissão.

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Não se exclui aqui, de nenhum modo, que outras estruturas formais válidas possam ser desenvolvidas com sucesso no futuro, e consigam até ser mais ricas que o tomismo. Entretanto, não há qualquer indício de seu aparecimento no estado atual da teologia.

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Não existe na neoescolástica uma intransigência injustificada para com novas formas ou terminologias, mas tão somente uma incompatibilidade fundamental com a ambiguidade e falta de rigor características na teologia católica após a superação(?) da crise modernista.

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Os teólogos do ressourcement me parecem, em diversos momentos, admirar e citar Santo Tomás apenas para jogá-lo contra os neoescolásticos, tirando proveito de que sua autoridade foi e é reconhecida como doutrinalmente segura pelo Magistério eclesiástico.

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Repito o que escreveu São Paulo: deve-se testar tudo e ficar com o que é bom. Gosto do modo como Balthasar escreve, do seu estilo, e ele dá, sem dúvida, valiosas contribuições, mas sua Cristologia e, especialmente, sua tese sobre o que aconteceu no Sábado Santo, na medida em que são centrais na sua obra, provocam em mim sérias reservas. Sempre lerei seus escritos com cuidado para não tropeçar.

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Ao comentar que precisamos acolher com o mesmo amor tanto o primeiro milênio quanto o segundo milênio da história da Igreja, não tinha em mente contradizer a hierarquia natural, metaforicamente falando, entre os alicerces, as paredes e a cobertura de um edifício.

Devemos acolher e reconhecer a contribuição de cada século na unidade e organicidade do desenvolvimento da doutrina. A semente, o broto, a plantinha, a árvore, são o mesmo ser em diferentes estágios de crescimento. Seria estranho que disséssemos que a semente vale mais do que a plantinha ou a árvore mais do que o broto, ou ainda negar a árvore em favor da semente. Noutra perspectiva, sim, devemos fazer uma distinção de valor entre o testemunho da Tradição e seu comentário, mas essa não era nem nunca foi a intenção por trás de minha assertiva original.

Física não é metafísica

novembro 18, 2013

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Se as histórias do universo no tempo imaginário forem realmente superfícies fechadas, como Hartle e eu propusemos, isso teria consequências fundamentais para a filosofia e para nossas concepções sobre de onde viemos. O universo seria inteiramente autocontido e não necessitaria de nada fora dele para dar corda na máquina e colocá-lo em movimento.” (Stephen Hawking, O Universo em uma Casca de Noz)

O primeiro problema com a afirmação do célebre físico inglês está na ideia de que um princípio da física pode ter repercussões “fundamentais” sobre a filosofia. Ora, este é um erro clássico do cientificismo, a saber, que as ciências experimentais são superiores à filosofia ou podem determinar como a filosofia deve ser. A verdade é que a física e todas as ciências experimentais partem da aceitação de certas premissas metodológicas que não podem ser justificadas cientificamente (*), mas que são aceitas, antes, a partir de uma análise eminentemente filosófica. Precedendo a ciência temos a filosofia da ciência, que visa justamente embasar o método científico com uma justificativa racional que não é nem pode ser a da própria ciência experimental (isto seria equivalente a acreditar na lorota do barão de Münchhausen, que dizia ter saído de um pântano puxando a si mesmo pelos cabelos). A própria física moderna nasceu da chamada “filosofia natural” (basta lembrar o título da obra-prima de Newton). Mesmo a crença segundo a qual a ciência experimental é a única forma válida de se obter conhecimento – o cientificismo – é uma crença filosófica, já que nenhum laboratório do mundo consegue “medir” tal unicidade (**). Na verdade, a história demonstra que os pressupostos filosóficos, juntamente com as medidas empíricas, são essenciais para o avanço da ciência. Por exemplo, Newton construiu sua mecânica alicerçada nas noções filosóficas de espaço e tempo absolutos, enquanto Einstein partiu de um princípio estético para chegar na teoria da relatividade, qual seja o da invariância de todas as leis da física quando se mudam as coordenadas de observação. Já a mecânica quântica só pôde florescer quando se rejeitou o princípio filosófico do determinismo, de acordo com o qual o estado físico de um sistema físico em um dado instante determina completamente sua evolução temporal. Em outras palavras, a física mais atual mostra que a matéria contém algo além do que se pode medir, e que este algo imensurável governa o mundo subatômico e, por conseguinte, os constituintes fundamentais de tudo o que existe.

Daí brota outro erro de Hawking, que consiste na crença de que a matemática (“tempo imaginário”) esgota tudo o que se pode dizer do Universo. Se é verdade que Deus criou o mundo com ordem e proporção, também é verdade que existem aspectos fundamentais da realidade que não podem ser quantificados. De fato, a ciência experimental (vejam como a filosofia é importante) é uma abstração do real em que todos os acidentes fora da quantidade SÃO DELIBERADAMENTE IGNORADOS. Um físico não tem como medir, em princípio, a cor, odor, sabor e textura de um objeto. O que ele mede são comprimentos de onda, pesos moleculares, cargas elétricas transferidas, constantes de elasticidade e cisalhamento, etc. Ou seja, tudo o que percebemos pelos sentidos é filtrado pela física e despojado de suas qualidades acidentais, restando apenas números que se relacionam entre si de acordo com algum padrão que é justamente uma nova lei física a descobrir, e esta lei é óbvia e necessariamente matemática ou geométrica. A física, além disso, não responde e nem pode responder questões metafísicas como a natureza da matemática, a natureza do movimento, o que é a causalidade, o que é o conhecimento, o que é o certo e o errado, o que é o bom, o que é o belo, ou qual o propósito da existência.

Santo Tomás: um universo infinito não é problema para a existência de Deus.

Santo Tomás: um universo infinito não é problema para a existência de Deus.

Ainda outro equívoco de Hawking é sua concepção deísta da criação, que não é a concepção do teísmo clássico (o qual abrange tradições filosóficas tanto do Ocidente cristão como do pensamento judaico e islâmico). Segundo Santo Tomás de Aquino, por exemplo (cuja filosofia é reconhecida como referência segura pela Igreja), Deus não criou o Universo em algum momento do passado e este, a partir de então, continuou a existir por conta própria. Antes, diz o Aquinate, o Universo é sempre criatura, ou seja, o Universo é criado agora, neste instante. A criação não é um evento do passado, mas algo sempre atual (ainda segundo Santo Tomás, é impossível demonstrar filosoficamente que o Universo teve um princípio. Sabemos que ele começou a existir apenas por causa da Revelação divina). Se Deus deixasse de criar o Universo AGORA, o Universo deixaria de existir AGORA. Criar não é só dar a existência ao ser contingente de uma vez por todas, mas sustentar continuamente o ser contingente na existência. Mesmo que o tempo fosse cíclico, Deus sustentaria na existência o Universo a cada instante desse ciclo. O Universo não pode ser fechado ou autocontido, no sentido de ser totalmente independente para existir, pois o fato de ser contingente, quer dizer, de não ser necessário em si mesmo, de poder ser deste modo ou de outro (não é o mesmo Hawking quem fala de “multiversos”, universos com leis físicas diferentes das nossas?), de ter em si partes heterogêneas e seres que são gerados e se corrompem, torna-o necessariamente dependente de uma realidade que é necessária em si mesma, que não pode ser de outro modo e que não tem em si nem geração ou corrupção: o Ipsum Esse Subsistens que conhecemos melhor pelo nome de “Deus”. A outra alternativa é admitir que o Universo é um fato bruto irracional o que é, para um cientista, para um físico particularmente, equivaleria a confessar que sua ciência é ilusória e que o Universo não é Cosmos, mas puro Caos, sem unidade, sem integridade, sem ordem real.

(*) Para esta exposição empregarei o termo “científico” no sentido estreito proposto pelos “cientificista”. Na verdade, ciência é qualquer tipo de conhecimento sistemático e não apenas a inferência de relações matemáticas entre acidentes quantitativos de entes naturais.

(**) O que prova que o cientificismo refuta a si mesmo.

Purgatório: chama viva de amor

novembro 1, 2013

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Oh! Chama de amor viva que ternamente feres
De minha alma no mais profundo centro!
Pois não és mais esquiva,
Acaba já, se queres,
Ah! Rompe a tela deste doce encontro.
Oh! Cautério suave!
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão! Oh! Toque delicado
Que a vida eterna sabe,
E paga toda dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.
Oh! Lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
que estava escuro e cego,
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto a seu Querido!
Oh! Quão manso e amoroso
Despertas em meu seio
Onde tu só secretamente moras:
Nesse aspirar gostoso,
De bens e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!
(São João da Cruz, 1542-1591)

É triste em nossos dias constatar que pouco nos preocupamos com as almas separadas dos nossos entes queridos que já se foram. Nos ritos fúnebres que celebramos, tornou-se rotineiro presumir que a alma do morto já está no Céu usufruindo da bem-aventurança. Isto é particularmente verdadeiro entre os protestantes, que creem erroneamente na salvação automática dos seus irmãos que “aceitaram Jesus” antes de morrer (*). Mesmo muitos padres católicos parecem negar a doutrina do purgatório, solenemente definida pela Igreja (**). Ora, é costume antiquíssimo e bíblico o rezar pelos mortos, e é incompreensível a coexistência de tal costume com a afirmação de que as almas dos mortos estão sempre plenamente felizes no Céu:

No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte. Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas” (2Mc 12,39-46).

Para entender a razão desse costume de rezar pelas almas dos mortos é preciso entender primeiro o que é o Céu. O que significa para a alma “ir para o Céu”? Ora, estar no Céu é ver Deus face a face, coisa que nenhum de nós pode conceber, pois é algo infinitamente acima de nossa capacidade natural de compreensão. “Nenhum olho viu” o que Deus reservou para os eleitos (1Cor 2,9). Mesmo assim, a Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja dão-nos indicações seguras sobre a natureza da santidade de Deus. A carta aos Hebreus mostra que estar diante do Senhor não é para qualquer um:

Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloqüência que o sangue de Abel. Guardai-vos, pois, de recusar ouvir aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que dele se desviaram, quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós, se o repelirmos, quando nos fala desde o céu. Depois de ter outrora abalado a terra pela sua voz, ele hoje nos faz esta solene declaração: Ainda uma vez por todas moverei, não só a terra, mas também o céu (Ag 2,6). As palavras ainda uma vez indicam o desaparecimento do que é caduco, do que foi criado, para que só subsista o que é imutável. Sim, possuindo nós um reino inabalável, dediquemos a Deus um reconhecimento que lhe torne agradável o nosso culto com temor e respeito. Porque nosso Deus é um fogo devorador (Dt 4,24)” (Hb 12,22-28).

Deus é como o fogo e, para estarmos diante de Deus, precisamos passar pela prova do fogo do amor divino:

Um crisol para a prata, um forno para o ouro; é o Senhor, porém, quem prova os corações” (Pr 17,3).

Ai de mim, gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos! Porém, um dos serafins voou em minha direção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Aplicou-a na minha boca e disse: Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada” (Is 6,5-7).

Em toda a terra – oráculo do Senhor – dois terços dos habitantes serão exterminados e um terço subsistirá. Mas farei passar este terço pelo fogo; purificá-lo-ei como se purifica a prata, prová-lo-ei como se prova o ouro. Então ele invocará o meu nome, eu o ouvirei, e direi: Este é o meu povo; e ele responderá: O Senhor é o meu Deus” (Zc 13,8s).

Quem estará seguro no dia de sua vinda? Quem poderá resistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros. Sentar-se-á para fundir e purificar a prata; purificará os filhos de Levi e os refinará, como se refinam o ouro e a prata; então eles serão para o Senhor aqueles que apresentarão as ofertas como convêm. E a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora” (Ml 3,2-4).

Quando morremos, a alma separada retorna para Deus, que a criou. Se a alma, contudo, não estiver completamente pura, completamente santa, ela não poderá se apresentar imediatamente diante de Deus. Para tornar-se semelhante ao fogo, deve-se remover toda a escória, toda a disposição que a prende às coisas transitórias. Todo o apego desordenado aos bens do mundo, aos parentes, às criaturas, precisa dar lugar ao amor puríssimo de Deus. Todas as penas temporais devidas pelos pecados cometidos devem ser expiadas e resgatadas:

O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lc 12,47s).

Nada de impuro pode entrar na Jerusalém Celeste, nada de imperfeito pode subsistir diante d’Aquele que é o Sumo Bem, a Suprema Perfeição:

Nela [na Jerusalém Celeste] não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras, mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21,27).

Há um perdão póstumo para aqueles que não ofenderam gravemente Nosso Senhor e morreram na amizade de Deus, em estado de graça:

Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro” (Mt 12,32).

Mas é preciso reparar o mal que foi feito, pagar “até o último centavo” o que ficou devido à justiça de Deus:

Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo? Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele te não arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo” (Lc 12,57-59).

Sendo, portanto, Deus como o fogo abrasador, Ele descobrirá nossas faltas diante de nossos olhos quando nos apresentarmos diante de seu tribunal de amor. Nossas obras serão testadas e, mesmo que elas sejam insuficientes, ainda assim alcançaremos misericórdia, completando pelo sofrimento o que falta à caridade. A purificação do amor divino, em verdade, não toca apenas a superfície do ser, mas queima até o núcleo mais profundo da alma, salvando-a:

Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo” (1Cor 3,11-15).

O próprio Apóstolo São Paulo rezou por Onesíforo, já falecido, para que ele pudesse ser recebido pelo Justo Juiz com misericórdia, ao invés de dar como certa a sua entrada no Céu:

O Senhor conceda sua misericórdia à casa de Onesíforo, que muitas vezes me reconfortou e não se envergonhou das minhas cadeias! Pelo contrário, quando veio a Roma, procurou-me com solicitude e me encontrou. O Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia junto do Senhor naquele dia. Sabes melhor que ninguém quantos bons serviços ele prestou em Éfeso” (2Tm 1,16-18).

Nos Santos Padres há inúmeras referências ao purgatório que demonstram não ser o mesmo uma “invenção medieval tardia” (***), mas um legítimo desenvolvimento da doutrina recebida de Cristo e dos Apóstolos. A oração dos primeiros cristãos suplicando refrigério para as almas que partiram já sugere a idéia de “esfriamento”, ou seja, de atenuação do calor que as purifica. Elenco aqui algumas citações, uma pequena amostra da coerência e continuidade da fé da Igreja ao longo dos séculos:

Oferecemos sacrifícios pelos mortos no aniversário de seus nascimentos [para a vida eterna]” (Tertuliano, 155-220 d.C., De Corona 3,3)

Eu, Abércio, ditei este texto
E o fiz gravar na minha presença
Aos setenta e dois anos.
O irmão que o ler por acaso
Ore por Abércio” (Epitáfio de Abércio, bispo de Hierápolis, Século II d.C.).

Naquela mesma noite isto me foi mostrado em uma visão: Eu [Perpétua] vi Dinócrates indo para um lugar escuro, onde também havia vários outros, e ele estava ressecado e muito sedento, com o rosto sujo e pálido, e o ferimento em sua face que ele tinha antes de morrer. Este Dinócrates tinha sido meu irmão segundo a carne, com sete anos de idade, o qual morrera miseravelmente por causa de uma doença… Por ele eu fiz minha oração, e entre ele e eu havia um grande espaço, de modo que um não podia se aproximar do outro… E eu sabia que meu irmão estava sofrendo. Mas eu confiei que minha oração o ajudaria em seu sofrimento; e Eu orei por ele todos os dias até o dia em que fomos para a prisão do campo… Então… eu orei dia e noite por meu irmão, gemendo e chorando… No dia em que ficamos presos com correntes, isto me foi mostrado: Eu vi o lugar que anteriormente estava na escuridão, e ele estava iluminado; e Dinócrates, com um corpo limpo e bem guarnecido… saiu da água brincando alegremente, como fazem as crianças, e eu acordei. E então eu entendi que ele tinha saído do lugar de castigo” (O Martírio de Perpétua e Felicidade 2,3-4, 202 d.C.).

Através de grande disciplina o crente se despoja das suas paixões e passa a mansão melhor que a anterior; passa pelo maior dos tormentos, tomando sobre si o arrependimento das faltas que possa ter cometido após o seu batismo. Então, é torturado mais ao ver que não conseguiu o que os outros já conseguiram. Os maiores tormentos são atribuídos ao crente porque a justiça de Deus é boa e sua bondade é justa; e estes castigos completam o curso da expiação e purificação de cada um” (Clemente de Alexandria, 150-215 d.C., Stromata 4,14).

Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa, receber simultaneamente o valor e o salário da fé. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purificado pelo fogo; outra coisa é ter sido purificado de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser coroado pelo Senhor” (São Cipriano de Cartago, 200-258 d.C., Epístola 51,20).

Porém, quando julgar os justos, Ele também os provará com fogo. Então aqueles cujos pecados excederem em peso ou número, serão chamuscados pelo fogo e queimados; mas aqueles a quem imbuiu a justiça e plena maturidade da virtude não perceberão esse fogo porque eles têm algo de Deus neles mesmos, que repele e rejeita a violência da chama” (Lactâncio, 240-320 d.C., Instituições Divinas 7,21).

Quando se cumprir o trigésimo dia [da minha morte], lembrai-vos de mim, irmãos. Os falecidos, com efeito, recebem ajuda graças a oferenda que fazem os vivos (…) Se como está escrito, os homens de Matatias encarregados do culto em favor do exército expiaram, pelas oferendas, as culpas daqueles que tinham perecido e eram ímpios por seus costumes, quanto mais os sacerdotes de Cristo, com suas santas oferendas e orações, expiarão os pecados dos falecidos” (Santo Efrém o Sírio, 306-373 d.C., Testamento, 72,28).

Recordamos também de todos os que já dormiram; em primeiro lugar, os patriarcas, os profetas, os apóstolos, os mártires, para que, por suas preces e intercessão, Deus acolha a nossa oração. Depois, também pelos santos padres, bispos falecidos e, em geral, por todos cuja vida transcorreu entre nós, crendo que isso será da maior ajuda para aqueles por quem se reza. Quero vos esclarecer isso com um exemplo: visto que muitos ouviram dizer: para que serve a uma alma sair deste mundo com ou sem pecados se depois faz-se menção dela na oração? Suponhamos, por exemplo, que um rei envia ao desterro alguém que o ofendeu; porém, depois, os seus parentes, afligidos pela pena, lhe oferecem uma coroa. Por acaso não ficarão agradecidos pelo relaxamento dos castigos? Do mesmo modo, também nós apresentamos súplicas a Deus pelos falecidos, ainda que sejam pecadores. E não oferecemos uma coroa, mas sim Cristo morto por nossos pecados, pretendendo que o Deus misericordioso se compadeça e seja propício tanto com eles quanto conosco” (São Cirilo de Jerusalém, 313-386 d.C., Catequese 13,9-10)

Vamos ajudá-los e comemorá-los. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (Jó 1,5), por que duvidamos que nossas oferendas pelos mortos lhes trarão algum consolo?” (São João Crisóstomo, 349-307 d.C., Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios 41,5).

Castigos temporais são inflingidos a alguns nesta vida apenas, a outros após a morte, e a outros nesta vida e após a morte, mas todos antes daquele último e rigoroso julgamento. Mas nem todos que sofrem castigos temporais após a morte receberão o castigo eterno, que se seguirá após aquele julgamento” (Santo Agostinho, 354-430 d.C., A Cidade de Deus 21,13).

Não se pode negar que as almas dos falecidos são aliviadas pela piedade dos parentes vivos, quando oferecem por elas o sacrifício do Mediador ou quando praticam esmolas na Igreja. Porém, estas coisas aproveitam aquelas [almas] que, quando viviam, mereceram que se lhes pudessem aproveitar depois. Pois há um certo modo de viver, nem tão bom que aproveite destas coisas depois da morte, nem tão mal que não lhes aproveitem; há tal grau no bem que o que possui não aproveita de menos; ao contrário, há tal [grau] no mal que não pode ser ajudado por elas quando passar desta vida. Portanto, aqui o homem adquire todo o mérito com que pode ser aliviado ou oprimido após a morte. Ninguém espere merecer diante de Deus, quando tiver falecido, o que durante a vida desprezou” (Santo Agostinho, 354-430 d.C., Das Oito Questões de Dulcício 2, 4).

Tal como alguém sai deste mundo, assim se apresenta no Juízo. Porém, deve-se crer que exista um fogo purificador para expiar as culpas leves antes do Juízo. A razão para isso é que a Verdade afirma que se alguém disser uma blasfêmia contra o Espírito Santo, isto não lhe será perdoado nem neste século nem no vindouro. Com esta sentença se dá a entender que algumas culpas podem ser perdoadas neste mundo e algumas no outro, pois o que se nega em relação a alguns deve-se compreender que se afirma em relação a outros (…) No entanto, tal como já disse, deve-se crer que isto se refere a pecados leves e de menor importância” (São Gregório Magno, 540-604 d.C., Diálogos 4,39).

O purgatório é imensamente doloroso para as almas que ali estão, mas é uma dor temperada pela certeza de ir para o Céu, pois elas sabem que verão a Deus após ficarem puras. “Estando, por isso, essas almas em caridade e dela não mais podendo sair com defeito atual, não podem mais querer nem desejar a não ser o puro querer da pura caridade; e estando naquele fogo purgatório estão na ordenação divina. Ela é pura caridade; em por qualquer coisa delas não podem se desviar, porque agora estão privadas tanto da capacidade de pecar como também de atualmente merecer” (Santa Catarina de Gênova, 1447-1510, Tratado do Purgatório, n. 3). A Igreja ensina que podemos ajudar sua dor a diminuir e passar mais rápido através de nossas orações e, especialmente, através do oferecimento do Sacrifício Eucarístico em sua intenção:

E como neste divino sacrifício, que se realiza na Missa, se encerra e é sacrificado incruentamente aquele mesmo Cristo que uma só vez cruentamente no altar da cruz se ofereceu a si mesmo (Heb 9, 27), ensina o santo Concilio que este sacrifício é verdadeiramente propiciatório [cân. 3], e que, se com coração sincero e fé verdadeira, com temor e reverência, contritos e penitentes nos achegarmos a Deus, conseguiremos misericórdia e acharemos graça no auxilio oportuno (Heb 14, 16). Porquanto, aplacado o Senhor com a oblação dele e concedendo o dom da graça e da penitência, perdoa os maiores delitos e pecados. Pois uma e mesma é a vítima: e aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que, outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo, apenas, o modo de oferecer. Os frutos da oblação cruenta se recebem abundantemente por meio desta oblação incruenta, nem tão pouco esta derroga aquela [cân. 4]. Por isso, com razão se oferece, consoante a Tradição apostólica, este sacrifício incruento, não só pelos pecados, pelas penas, pelas satisfações e por outras necessidades dos fiéis vivos, mas também pelos que morreram em Cristo, e que não estão plenamente purificados [cân. 3]” (Concílio de Trento, Sessão XXII, n. 940).

Se alguém disser que o sacrifício da Missa é somente de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício consumado na cruz, mas que não é propiciatório, ou que só aproveita ao que comunga, e que não se deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades — seja excomungado [cfr. n° 940]” (Concílio de Trento, Sessão XXII, n. 950 – Cânone 3).

Já que a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, apoiada nas Sagradas Letras e na antiga Tradição dos Padres, ensinou nos sagrados Concílios e recentemente também neste Concílio Ecumênico, que existe purgatório [cfr. n° 840], e que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do altar [cfr. n° 940, 950], prescreve o santo Concílio aos bispos que façam com que os fiéis mantenham e creiam a sã doutrina sobre o purgatório, aliás transmitida pelos santos Padres e pelos Sagrados Concílios, e que a mesma doutrina seja pregada com diligência por toda parte” (Concílio de Trento, Sessão XXV, n. 983).

Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1032).

Neste dia de finados, em que faremos memória dos entes queridos que se foram, meditemos sobre a transitoriedade das coisas deste mundo e sobre como não vale a pena apegar-se a elas. Pensemos em como o mais leve pecado, se não for expiado nesta vida, terá de ser dolorosamente eliminado de nossas almas no purgatório se tivermos a felicidade de morrer em estado de graça. E rezemos com fervor e caridade pelas almas de nossos mortos, para que encontrem o refrigério, para que não tenham mais impurezas a ser queimadas pelo fogo amoroso de Deus e descansem em paz.

(*) Os protestantes via de regra não acreditam que a graça divina opere uma transformação real do pecador. Para eles a santidade é sempre algo extrínseco, um manto de justiça que encobre o homem essencialmente mau sem fazer com que este se converta de fato. O protestantismo nega a necessidade de qualquer processo de purificação da alma após a morte pois o crente está exteriormente revestido da justiça de Cristo e tem certeza de ir para o Céu, mesmo que carregue consigo inúmeras imperfeições.

(**) “Se alguém disser que a todo pecador penitente, que recebeu a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação à pena eterna, que não lhe fica obrigação alguma de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus — seja excomungado” (Concílio de Trento, Seção VI, Cânones sobre a justificação, n. 840 – Cânone 30).

(***) O que os medievais fizeram (conferir o livro “O nascimento do purgatório”, do historiador Jacques Le Goff) e que, talvez, possamos considerar um excesso de imaginação, foi conceber o purgatório também como lugar, no contexto mais amplo de uma cartografia do mundo póstumo (ver, por exemplo, a Divina Comédia de Dante). O essencial na doutrina do purgatório, contudo, é a crença num perdão depois da morte, não sendo absolutamente relevante que tal perdão se dê em um lugar delimitado. Nesse sentido, o purgatório não foi de nenhum modo concebido na Idade Média, mas é uma crença que remonta seguramente ao judaísmo próximo aos tempos de Cristo, como mostra o sacrifício de Judas Macabeu em sufrágio pelos mortos (2Mc 12,39-46) e o ensinamento de Jesus sobre o perdão na vida futura (Mt 12,32).

Sola Scriptura, Nulla Scriptura

outubro 31, 2013

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Neste dia em que se recorda o fatídico episódio da apresentação pública das teses de Lutero, que marca o início da lamentável revolta protestante, proponho-me a analisar aquela que é a doutrina mais essencial do protestantismo, ou seja, a doutrina que define de modo mais nítido os seus confusos contornos. Trata-se da Sola Scriptura (que em latim significa “Somente a Escritura”), a qual pode-se formular nos termos seguintes:

“A Santa Bíblia, por ser a Palavra de Deus, é a ÚNICA REGRA infalível DA FÉ E DA PRÁTICA para os cristãos após a era pós-apostólica”.

Como definir o conceito de regra infalível da fé e da prática cristãs? Basicamente, os ensinamentos que devemos professar e o modo como devemos viver para alcançar a salvação estão na Escritura, que não possui nenhum erro, é absolutamente verdadeira e não pode enganar, por ser a Palavra de Deus.

Qual a reação católica diante de tal doutrina? Primeiramente, concordamos absolutamente com nossos irmãos separados que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita. “Inspirados pelo Espírito Divino, escreveram os sagrados autores aqueles livros que Deus, no seu paterno amor para com o gênero humano, se dignou dar-nos ‘para ensinar, para convencer, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e bem apetrechado para toda a obra boa’ (2Tm 3,16)” (Carta Encíclica Divino Afflante Spiritu – DAS, n.1, Papa Pio XII, 1943). Também afirmamos a inerrância da Sagrada Escritura: “…a divina inspiração ‘de sua natureza não só exclui todo erro, mas exclui-o e repele-o com a mesma necessidade com que Deus, suma verdade, não pode ser autor de nenhum erro. Esta é a fé antiga e constante da Igreja’” (DAS n.3). “E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras” (Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina – DV, n. 11, Concílio Vaticano II, 1965). Por fim, também defendemos que não se pode crer em nada que seja contrário ao sentido verdadeiro das Sagradas Escrituras, subsistindo uma diferença fundamental na compreensão de QUEM possui autoridade do Alto para alcançar tal sentido, dado que existem muitas interpretações humanamente possíveis para um conjunto tão vasto, complexo e interconectado de textos como é a Bíblia Sagrada.

Esclarecidos os pontos em comum, passemos para o erro na doutrina da Sola Scriptura, que está destacado com palavras em caixa-alta: a Bíblia ser reconhecida como ÚNICA REGRA DA FÉ E DA PRÁTICA para os cristãos após a morte de todos os Apóstolos (*). Onde achamos tal doutrina na própria Sagrada Escritura? Os protestantes apontam para uma série de versículos bíblicos como prova. Vejamos alguns deles para avaliar se são ou não cogentes:

Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2Tm 3,16s).

Aqui São Paulo afirma a inspiração da Escritura, sua utilidade, seu papel na santificação do fiel e também como guia de conduta. O texto afirma a “Scriptura” com clareza. Não existe contudo, a menor sombra do termo qualificador que é o núcleo da tese protestante. Não existem nas palavras de São Paulo quaisquer traços de que somente, apenas, unicamente, nada além das Sagradas Letras merece ser acolhido como norma dogmática ou norma de práxis para a Igreja. Pelo contrário. Na mesma epístola a São Timóteo lemos:

Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste DE MIM sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o precioso depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1,13-14).

O que DE MIM OUVISTE em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros” (2Tm 2,2).

Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes DE QUEM aprendeste” (2Tm 3,14).

São Paulo, portanto, não ordenou a São Timóteo que tomasse por modelo APENAS os ensinamentos salutares da Bíblia, mas TAMBÉM os ensinamentos salutares que ele, São Paulo, transmitira ORALMENTE (Magistério, Tradição Apostólica (**)), e que São Timóteo por sua vez transmitisse a doutrina recebida para outros, em um processo contínuo e permanente. São Timóteo deve perseverar nas coisas que aprendeu diretamente de São Paulo (e não somente de leituras individuais da Bíblia Sagrada).

Como, portanto, conciliar essas declarações paulinas com a tese protestante da Sola Scriptura? Não deveria São Paulo, ao invés, ter ordenado a São Timóteo que guardasse apenas as palavras da Bíblia resistindo aos seus contraditores?

Além do mais, a que Escrituras São Paulo se refere em 2Tm 3,16s? Na época em que escrevia, não haviam sido definidos os livros inspirados do Novo Testamento. O que os primeiros cristãos entendiam, a princípio, como Escrituras Sagradas, eram apenas os livros do Antigo Testamento, os livros aceitos como sagrados pelos judeus. Estes, entretanto, não possuíam ainda uma lista definitiva de livros divinamente inspirados. Os saduceus, por exemplo, aceitavam apenas os cinco livros de Moisés (o Pentateuco), enquanto os fariseus incluíam livros históricos, salmos e profecias. Os manuscritos do Mar Morto contém livros que seriam posteriormente rejeitados pelos judeus da Palestina (descendentes espirituais dos fariseus da época de Nosso Senhor), incluindo o Eclesiástico e Tobias. Já os judeus dispersos no mundo grego adotavam a tradução conhecida como Septuaginta, que é também bastante empregada pelos hagiógrafos do Novo Testamento e usada até hoje na liturgia das Igrejas orientais. Em resumo, na época em que São Paulo escreveu a segunda epístola a São Timóteo (cerca de 67 d.C.), não existia ainda a Bíblia Sagrada como a conhecemos hoje: o cânone do Antigo Testamento não estava determinado entre os próprios judeus (que tinham rejeitado Nosso Senhor) e o Novo Testamento ainda não estava pronto. Logo, interpretar as palavras do Apóstolo como uma afirmação da doutrina protestante da Sola Scriptura é, além de contrário ao sentido do texto bíblico, um crasso anacronismo.

Outro texto invocado pelos defensores da Sola Scriptura é Ap 22,18s:

Eu declaro a todos aqueles que ouvirem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhes ajuntar alguma coisa, Deus ajuntará sobre ele as pragas descritas neste livro; e se alguém dele tirar qualquer coisa, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, descritas neste livro“.

Este livro, de acordo com os protestantes, seria a Bíblia Sagrada em sua totalidade. No entanto, quando São João escreveu estes versículos (final do século I d.C.), ele se referia apenas ao Apocalipse: “pragas descritas neste livro” = pragas do Apocalipse (Ap 18), “árvore da vida e da Cidade Santa, descritas neste livro” = árvore da vida e Cidade Santa descritas no Apocalipse (Ap 21-22). Não haveria nem como São João ter em mente a Bíblia completa, dado que o cânone não tinha sido ainda fechado, mesmo entre os judeus.

Voltando a São Paulo, os protestantes insistem: 1Cor 4,6:

Se apliquei tudo isso a mim e a Apolo foi por vossa causa, para que, por meio de nós, APRENDAIS A NÃO ULTRAPASSAR O QUE ESTÁ ESCRITO e para que vos não ensoberbeçais tomando partido a favor de um e com prejuízo de outrem“.

Qual a interpretação correta deste versículo? Se São Paulo estivesse se referindo aqui à Escritura, ou seja, se ele estivesse dizendo que não se deve ir além do que está escrito na Bíblia, cairíamos novamente no problema do anacronismo, pois o fato é que a Primeira Epístola aos Coríntios, onde lemos tal passagem, não foi o último livro do Novo Testamento a ser redigido. Por exemplo, o Apocalipse é certamente posterior. Logo, se São Paulo estivesse afirmando a Sola Scriptura em 1Cor 4,6, estaria rejeitando automaticamente todos os livros do Novo Testamento que AINDA NÃO TINHAM SIDO ESCRITOS naquela ocasião. De resto, talvez os saduceus usassem uma passagem parecida (Dt 4,1s) para rejeitar todos os livros fora do Pentateuco: “E agora, ó Israel, ouve as leis e os preceitos que hoje vou ensinar-vos. Ponde-os em prática para que vivais e entreis na posse da terra que o Senhor, Deus de vossos pais, vos dá. Não ajuntareis nada a tudo o que vos prescrevo, nem tirareis nada daí, mas guardareis os mandamentos do Senhor, vosso Deus, exatamente como vos prescrevi”. Será que, por causa dessa passagem, vamos deixar de lado a maior parte do Antigo Testamento e todo o Novo? Se a lógica protestante é consistente, sim, pois devemos interpretar Dt 4,1s do mesmo modo que 1Cor 4,6.

Nos Atos dos Apóstolos, os protestantes julgam encontrar uma prova da Sola Scriptura na atitude dos judeus de Beréia:

Logo que se fez noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia. Quando ali chegaram, entraram na sinagoga dos judeus. Estes eram mais nobres do que os de Tessalônica e receberam a palavra com ansioso desejo, indagando todos os dias, nas Escrituras, se essas coisas eram de fato assim” (At 17,10s).

De fato, muitas “denominações” protestantes adotam o termo “bereano” a seus “ministérios” por causa desses versos. Supostamente os judeus bereanos seriam melhores que judeus de Tessalônica porque “checavam” em suas Bíblias (na verdade, apenas o Antigo Testamento, provavelmente na versão Septuaginta, por serem judeus helenizados) os ensinamentos de São Paulo. Mas qual era, realmente, o problema com os judeus de Tessalônica? Será que eles eram crédulos demais e não comparavam o que o Apóstolo dizia com as Escrituras? De modo algum. Voltemos um pouco, para o início do capítulo 17, versículos de 1 a 9:

Passaram por Anfípolis e Apolônia e chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo dirigiu-se a eles, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles. Explicava e demonstrava, à base das Escrituras, que era necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dos mortos. E este Cristo é Jesus que eu vos anuncio. Alguns deles creram e associaram-se a Paulo e Silas, como também uma grande multidão de prosélitos gentios, e não poucas mulheres de destaque. Os judeus, tomados de inveja, ajuntaram alguns homens da plebe e com esta gente amotinaram a cidade. Assaltaram a casa de Jasão, procurando-os para os entregar ao povo. Mas como não os achassem, arrastaram Jasão e alguns irmãos à presença dos magistrados, clamando: Estes homens amotinam todo o mundo. Estão agora aqui! E Jasão os acolheu! Todos eles contrariam os decretos de César, proclamando outro rei: Jesus. Assim excitavam o povo e os magistrados. E só depois de receberem uma caução de Jasão e dos outros é que os deixaram ir“.

Logo o contraste entre os judeus de Tessalônica e Beréia não reside no uso, por parte desses últimos, de um crivo bíblico rígido para averiguar a validade da pregação de São Paulo, mas na abertura dos bereanos ao Evangelho, que estavam dispostos a ouvir o Apóstolo e sua pregação e a examinar as antigas profecias escriturísticas para ver se Nosso Senhor Jesus Cristo, de fato, as cumpria. Essa postura era bastante diferente do fechamento de mente dos judeus tessalonicenses, que rejeitaram a Boa-Nova. Note-se também que, se os bereanos praticavam a Sola Scriptura, então eles não podiam jamais aceitar a fé cristã, pois esta agrega diversas doutrinas ausentes do texto veterotestamentário.

A iniciativa de Nosso Senhor ou dos Apóstolos de citar as Sagradas Escrituras para demonstrar alguma proposição teológica tampouco implica na consideração da Bíblia como única regra de fé. Se percorrermos os escritos dos Padres da Igreja e todos os documentos dos Concílios e dos Papas acharemos inúmeras citações bíblicas sem que isto, obviamente, implique no reconhecimento, por parte da Igreja Católica, da doutrina da Sola Scriptura. Os protestantes, no entanto, muitas vezes confundem a utilidade da Bíblia e seu emprego como fonte da Revelação em debates religiosos com o reconhecimento de sua normatividade exclusiva e absoluta. Isto é um non sequitur, um erro lógico básico. O fato de um professor usar um certo livro de matemática não significa que este seja a única fonte segura e confiável, ou mesmo suficiente, de conhecimento sobre tão vasta ciência. Se isso fosse verdade, bastaria entregá-lo ao estudante para que este se convertesse em um grande matemático.

Ora, a Bíblia é muito mais profunda, muito mais rica e muito mais sutil do que qualquer livro meramente humano. Nela existem passagens difíceis que os exegetas mais experientes e sábios até hoje não conseguiram compreender. De fato, o próprio Senhor precisou interpretar as profecias do Antigo Testamento para que os que o escutam alcancem seu significado: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)?” (Mt 21,42). “Respondeu-lhes Jesus: Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22,29). “E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lc 24,27). “Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras…” (Lc 24,45). “Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a vida eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de mim” (Jo 5,39). Os próprios discípulos muitas vezes não entendiam o que havia nas Escrituras: “Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos” (Jo 20,9). São Filipe o Diácono teve de explicar o sentido de uma passagem bíblica para o ministro da rainha da Etiópia:

O Espírito disse a Filipe: Aproxima-te para bem perto deste carro. Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías, e perguntou-lhe: Porventura entendes o que estás lendo? Respondeu-lhe: Como é que posso, se não há alguém que mo explique? E rogou a Filipe que subisse e se sentasse junto dele. A passagem da Escritura, que ia lendo, era esta: Como ovelha, foi levado ao matadouro; e como cordeiro mudo diante do que o tosquia, ele não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi consumado o seu julgamento. Quem poderá contar a sua descendência? Pois a sua vida foi tirada da terra (Is 53,7s.). O eunuco disse a Filipe: Rogo-te que me digas de quem disse isto o profeta: de si mesmo ou de outrem? Começou então Filipe a falar, e, principiando por essa passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus” (At 8,29-35).

Somente quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, em Pentecostes, a Igreja tornou-se capaz de exercer, através do Magistério dos Apóstolos e de seus sucessores, em comunhão com São Pedro e os bispos que o sucederam em Roma, o poder de interpretar a Bíblia de modo infalível: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão” (Jo 16,13). São Pedro pregou aos judeus após a descida do Espírito, mostrando para eles o sentido de várias passagens das Escrituras judaicas que apontavam para a vinda e a missão de Cristo (ver At 2,14-39). Com autoridade apostólica, São Paulo “explicava e demonstrava [aos judeus], à base das Escrituras [o Antigo Testamento apenas], que era necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dos mortos” (At 17,3). O mesmo São Pedro advertiu que a Escritura não deve ser interpretada por qualquer um, mas por aqueles que receberam do Espírito a autoridade para pregar em nome de Deus: “Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2Pd 1,20). E também condenou os que deturpavam o sentido dos escritos paulinos, já reconhecidos como parte de um Corpus inspirado de textos além do Antigo Testamento:

Reconhecei que a longa paciência de nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes homens ímpios” (2Pd 3,16).

De fato, a Escritura deve sempre ser entendida com a Igreja. Se podemos e devemos conhecer a Escritura desde a infância (2Tm 3,15), devemos conhecê-la dentro do contexto eclesial, reconhecendo que apenas a Igreja, no seu Magistério, possui autoridade para definir o significado verdadeiro do Texto Sagrado. A compreensão correta da Bíblia passa pelo filtro do ensinamento autêntico e constante da autoridade eclesiástica que recebeu de Cristo a missão e a graça de guardar fielmente o Depósito da Fé. “O encargo de interpretar autênticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado” (DV n. 10). No protestantismo não há Magistério, mas “livre” exame da Bíblia por parte de cada crente que se acredita diretamente iluminado pelo Paráclito e capaz de assimilar perfeitamente o que a Escritura quer comunicar. Não é preciso refletir muito para concluir que tal linha de pensamento é o que conduz inevitavelmente à divisão do protestantismo em milhares de seitas, cada um se julgando portadora da autêntica doutrina bíblica. Sem intérpretes autorizados, a Bíblia torna-se um instrumento de discórdia e afirmação do orgulho humano.

Como leigos, podemos estudar a Bíblia e tirar enorme proveito de sua leitura se nos mantivermos sempre obedientes à Igreja que, segundo a própria Bíblia, é a “coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15). Quem ouve a Igreja, ouve a voz do Salvador: “Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10,16). O mesmo vale para os exegetas e comentaristas do texto Bíblico que procuram aprofundar, usando as mais diferentes ferramentas de interpretação e contextualização histórica, a nossa compreensão do sentido das palavras inspiradas. O católico, portanto, ao contrário do que pensam os protestantes, não está “proibido” de ler e conhecer a Bíblia Sagrada, mas a penas de instrumentalizá-la para instituir seu magistério particular. Como ensina o Papa Pio XII:

Considerando as imensas fadigas abraçadas pela exegese católica durante quase dois mil anos, para que a palavra de Deus, comunicada aos homens nas Sagradas Letras, se compreenda cada dia mais perfeitamente e mais ardentemente se ame, surge espontânea a convicção de que os fiéis e particularmente os sacerdotes têm o grave dever de aproveitar larga e santamente aquele tesouro acumulado durante tantos séculos pelos maiores talentos. Deus não deu aos homens os Livros Santos para satisfazer a sua curiosidade, ou para lhes fornecer matéria de estudo e investigação, mas, como adverte o Apóstolo, para que estes divinos oráculos nos pudessem ‘instruir para a salvação pela fé em Jesus Cristo’ e para que ‘seja perfeito o homem de Deus, bem armado para toda a obra boa’. Portanto os sacerdotes que por oficio devem procurar a eterna salvação dos fiéis, depois de terem estudado diligentemente as sagradas páginas, e de as terem assimilado com a oração e meditação, distribuam com o devido zelo nos sermões, homilias e práticas as celestes riquezas da divina palavra; confirmem a doutrina cristã com sentenças dos Livros Santos, ilustrem-na com os preclaros exemplos da história sagrada, nomeadamente do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; e tudo isto, evitando diligente e escrupulosamente as acomodações arbitrárias e estiradas, verdadeiro abuso e não uso da divina Palavra, – exponham-no com tal facúndia e clareza, que os fiéis não só se movam e afervorem a melhorar a própria vida, mas concebam suma veneração para com a Sagrada Escritura. A mesma veneração procurem os sagrados pastores instilar e aperfeiçoar cada vez mais nos fiéis comados ao seu zelo pastoral, fomentando todas as empresas de homens apostólicos que louvavelmente se esforçam por excitar e fomentar entre os católicos o conhecimento e amor dos Livros Santos. Favoreçam pois e auxiliem as associações que têm por fim difundir entre os fiéis exemplares da Sagrada Escritura, particularmente dos Evangelhos, e procurar que nas famílias cristãs se leiam regularmente todos os dias com piedade e devoção; recomendem eficazmente com palavra e exemplo, onde o consente a Liturgia, a Sagrada Escritura traduzida nas línguas modernas com a aprovação da autoridade eclesiástica; façam eles próprios conferências ou lições públicas de assuntos bíblicos, ou encarreguem de as fazer a outros oradores bem versados na matéria. As revistas que com tanto louvor e fruto se publicam nas várias partes do mundo para versar cientificamente as questões bíblicas, para adaptar os resultados daquelas investigações ao sagrado ministério e ao espiritual aproveitamento dos fiéis, procurem todos os ordinários, quanto lhes for possível, ampará-las e difundi-las nas diversas classes dos seus rebanhos. E persuadam-se que tudo isto e o mais que um zelo apostólico e um sincero amor da divina Palavra saberá encontrar para obter tão sublime fim, será para eles um auxílio eficaz na cura das almas” (DAS n. 26).

E, ainda, o Concílio Vaticano II:

…o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam ‘a sublime ciência de Jesus Cristo’ (Fl 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque ‘a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo’. Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque ‘a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos’” (DV n. 25).

Por fim, neste dia triste em que Lutero iniciou um processo que culminou na destruição da Cristandade e no nascimento do mundo moderno, cada vez mais distante de Deus, cada vez mais imerso em formas terríveis de idolatria e corrupção espiritual, resta-nos lamentar que tantos católicos tíbios se deixem seduzir pela heresia da Sola Scriptura, esquecendo que a Bíblia não estaria disponível se a Igreja Católica não a tivesse preservado e não tivesse discernido, em sua liturgia, quais livros deviam formar o Antigo e o Novo Testamento. Os protestantes receberam a Bíblia da Igreja Católica e, simultaneamente, rejeitaram esta em favor daquela. Tal contradição, para um observador sereno e imparcial, não deixa de ser espantosa, ao mesmo tempo em que aponta para a impossibilidade de qualquer consistência lógica dos irmãos separados.

(*) A crença de que a revelação pública se encerrou com a morte do último Apóstolo, embora seja razoável, não é afirmada explicitamente em nenhum ponto da Bíblia.

(**) A propósito do trinômio Bíblia, Tradição e Magistério eclesiástico, encontrei uma interessante reflexão fazendo um paralelo com o mistério da Santíssima Trindade. Ei-la:

Tradição, Escritura, Magistério refletem a Santíssima Trindade. A Tradição é maior do que a Escritura, do mesmo modo que o Pai é maior do que o Filho. A Escritura procede da Tradição, como o Filho procede do Pai. A Escritura é uma obra escrita, que surge da Tradição. O Filho é a Palavra de Deus, que surge do Pai. Se não houvesse o Pai, não haveria o Filho. Se não houvesse a Tradição, não haveria a Escritura. O Magistério procede da Tradição e da Escritura, assim como o Espírito procede do Pai e do Filho. O Magistério é vivificado pelo Espírito. O Magistério procede em primeiro lugar da Tradição e em segundo lugar da Escritura, assim como o Espírito procede em primeiro lugar do Pai e em segundo lugar do Filho. O Magistério ensina primeiramente a partir da Tradição e secundariamente a partir da Escritura, assim como o Espírito ensina primeiramente a partir do Pai e e secundariamente a partir do Filho. O Espírito ensina secundariamente a partir do Filho, porque o Filho conhece apenas aquilo que o Pai lhe ensinou e somente aquilo que recebeu do Pai. O Filho é segundo em relação ao Pai e, portanto, o Espírito procede primeiramente do Pai e secundariamente do Filho. A Escritura é secundária em relação à Tradição e, portanto, o Magistério ensina primariamente a partir da Tradição e secundariamente a partir da Escritura. Tradição-Escritura-Magistério é um dom santo com três aspectos, assim como o Pai-Filho-Espírito Santo é um único Deus santo em Três Pessoas. Não poderia ser de outro modo. ‘Aquele que tem ouvido, ouça o que o Espírito diz para as igrejas’ (Ap 2,7)” (Ronald L. Conte Jr.).

Unus et mediator Dei et hominum

outubro 30, 2013

The Forerunners of Christ with Saints and Martyrs

 

É claro que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, e que não temos outro Mediador igual ou paralelo a Cristo. Nenhum católico de bom senso nega esta verdade. De fato, é uma dedução lógica, dadas as premissas: o pecado abriu um abismo infinito entre a santidade de Deus e a humanidade. Nenhuma criatura humana, por conseguinte, pode cruzar tal abismo usando apenas sua própria virtude: somente Deus pode vencer o pecado. E Ele, deveras, fez isto do modo mais maravilhoso e espantoso possível: assumindo a nossa natureza, fazendo-se Carne, habitando neste mundo e morrendo por nós. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou” (Jo 13,1). “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6,51). Em Jesus, e em Jesus somente, “manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). Isto é ensinamento perspícuo da Igreja Católica, como lemos no Catecismo: “Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na unidade da sua Pessoa divina; por essa razão, Ele É O ÚNICO MEDIADOR entre Deus e os homens” (Catecismo da Igreja Católica, n. 480). Logo, não há fundamento para a acusação de que os católicos rejeitam a unicidade da mediação de Cristo.

O problema, no entanto, é que os protestantes enxergam os santos católicos e, especialmente, a Virgem Maria, como usurpadores da mediação de Cristo. No entendimento protestante, ou Jesus apenas é o mediador, ou os santos também são mediadores no mesmo nível de Jesus. É uma alternativa de extremos que destoa do que a própria Escritura afirma. O que a Igreja defende é uma mediação participada dos santos na mediação do Senhor. A mediação dos santos e a mediação de Maria não existem, portanto, em concorrência com a mediação de Cristo, em paralelo ao múnus de Sumo Pontífice do Salvador. Muito pelo contrário, a ação dos santos em favor da salvação dos homens depende intrinsecamente da mediação de Cristo. “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). É por estarem firmemente enxertados em Cristo que os santos podem fazer coisas grandiosas, até maiores do que as coisas que Nosso Senhor fez na Terra: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai” (Jo 14,12). Se Nosso Senhor, na glória, conhece as nossas necessidades e intercede por nós junto ao Pai, Ele o faz não só, digamos assim, em sua pessoa física, mas também por meio de sua pessoa mística, ou seja, a Igreja, mormente nos seus santos e, em particular, a sua Mãe Santíssima que foi escolhida como intercessora por excelência em favor dos homens. Quando Nosso Senhor fez o seu primeiro milagre público, em Caná da Galiléia (e isto apesar da resistência inicial de Nosso Senhor!), foi graças à intervenção de Maria:

“Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2,4-11).

Christianus alter Christus, “o cristão é outro Cristo”, ensinava São Cipriano de Cartago. “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). A alma do santo na glória ou a Virgem Santíssima já não vivem em si e por si mesmas, mas é o próprio Senhor quem nelas vive e reina. Suas vontades são a mesmíssima vontade de Cristo, seus desejos são exclusivamente os desejos de Cristo, sua caridade é idêntica à caridade de Cristo, e seu zelo pela salvação dos homens na Terra é o mesmo zelo de Cristo. Tornaram-se, portanto, perfeitos instrumentos de santificação e salvação nas mãos do único Mediador. A Igreja é o Corpo de Cristo, e todos os seus membros, especialmente os que estão na glória, contribuem para a reconciliação do mundo com Deus e a manifestação da santidade divina sobre a Terra. “Com efeito, a vida daqueles que fielmente seguiram a Cristo, é um novo motivo que nos entusiasma a buscar a cidade futura (cf. Hb 14,14; 11,10) e, ao mesmo tempo, nos ensina um caminho seguro, pelo qual, por entre as efêmeras realidades deste mundo e segundo o estado e condição próprios de cada um, podemos chegar à união perfeita com Cristo, na qual consiste a santidade. É sobretudo na vida daqueles que, participando conosco da natureza humana, se transformam, porém, mais perfeitamente à imagem de Cristo (cf. 2Cor 3,18) que Deus revela aos homens, de maneira mais viva, a Sua presença e a Sua face. Neles nos fala, e nos dá um sinal do Seu reino, para o qual, rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12,1) e tendo uma tal afirmação da verdade do Evangelho, somos fortemente atraídos” (Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 50, Concílio Vaticano II).

Ainda a Igreja, em seu ensino oficial, afirma: “É, portanto, muito justo que amemos estes amigos e co-herdeiros de Jesus Cristo, nossos irmãos e grandes benfeitores, que demos a Deus, por eles, as devidas graças, ‘lhes dirijamos as nossas súplicas e recorramos às suas orações, ajuda e patrocínio, para obter de Deus os benefícios, por Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor e Redentor e Salvador único’. Porque todo o genuíno testemunho de veneração que prestamos aos santos, tende e leva, por sua mesma natureza, a Cristo, que é a ‘coroa de todos os santos’ e, por Ele, a Deus, que é admirável nos seus santos e neles é glorificado. “Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10,40).” (Lumen Gentium, n. 50).

Mas, dirão os protestantes, os santos católicos e Maria estão mortos! Os saduceus assim pensavam também, mas estavam redondamente enganados… “Não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Ex 3, 6)? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12,26b-27). “E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (Jo 11,26). “De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis” (Rm 8,13). “Eis uma verdade absolutamente certa: Se morrermos com ele, com ele viveremos” (2Tm 2,11). “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver no corpo é útil para o meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo – o que seria imensamente melhor; mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós…” (Fl 1,21-24)

Pela santificação de nossas almas, pela vida da graça recebida no batismo, tornamo-nos participantes da natureza divina. O que Deus é por natureza, tornamo-nos por graça. “O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2Pd 1,3-4). Os santos julgarão os homens no dia do Juízo! “Não sabeis que os santos julgarão o mundo? E, se o mundo há de ser julgado por vós, seríeis indignos de julgar os processos de mínima importância?” (1Cor 6,2). Usurpação do papel de Cristo como Juiz? De jeito nenhum. Apenas a consequência do fato de que, em Cristo, realmente nos tornamos filhos de Deus, e não escravos: “…pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). “E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8,17). “A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4,6).

Tendo, portanto, alcançado a perfeição na glória, os santos podem sim, em Deus, pela Mediação de Cristo, ter conhecimento de nossas súplicas e atender nossas orações. Não é pelo poder humano natural que eles fazem isto, frise-se. Mas por uma ação divina que os capacita a ser muito mais do que o que são por suas próprias forças. Se hoje o homem, com a ajuda da ciência e da tecnologia, já fala em expandir o poder de processamento do cérebro humano, quanto mais não pode Deus iluminar as almas de seus santos no Céu para que sejam capazes de compreender e apreender muito mais coisas do que seus corpos podiam assimilar enquanto vivos? “É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2,9). “Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3,2). Seremos semelhantes a Deus, senhores protestantes. Absorvam bem o que a Escritura diz: seremos semelhantes a Deus. Deus é onipotente, é onisciente, é onipresente. Os santos, que vêem Deus face a face, participam da onipotência, da onisciência e da onipresença divinas. Participam porque Deus, que é onipotente, QUER que participem. Dizer que Deus não pode fazer isso é limitar arbitrariamente a onipotência divina, é querer dizer a Deus que Ele não pode fazer o que Ele pode fazer.

Se os santos receberão tal prêmio, quanto mais a Virgem Maria Mãe de Deus! Foi a ela que Nosso Senhor crucificado confiou, na figura do discípulo amado, toda a Igreja: “Eis aí tua mãe” (Jo 19,27). Mais uma vez a Igreja ensina, prestem atenção: “O NOSSO MEDIADOR É SÓ UM, segundo a palavra do Apóstolo: ‘não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos (1 Tm 2,5s). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece” (Lumen Gentium, n. 60). “Efetivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde vàriamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte. Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu mediador e salvador” (Lumen Gentium, 62).

Portanto, amados protestantes, não existe qualquer fundamento na acusação que vocês fazem contra os católicos, de que nós adoramos os santos ou de que nós colocamos outros mediadores no lugar do Único Mediador Cristo Jesus. Antes, o que a Igreja Católica prega é que a Mediação de Cristo é muito mais poderosa e ampla do que pode alcançar a teologia que vocês defendem. Nosso Senhor é o Mediador não só em seu corpo físico, mas através de todo o seu Corpo Místico, através de todos aqueles que n´Ele são enxertados pela fé. A mediação de Maria diminui a mediação de Cristo? Não. Ela manifesta a mediação de Cristo! Deus é tão poderoso que se serve de instrumentos humanos livres para comunicar sua graça, e isto só é possível porque a natureza humana está irreversivelmente unida à natureza divina no Verbo Encarnado. A nossa humanidade, em união com a humanidade de Cristo, jamais separada d’Ele, pode alcançar a vida divina e comunicá-la aos homens. O Espírito que nos foi dado não nos santifica apenas por fora, mas por dentro também, de modo que realmente nos tornamos filhos de Deus, e não apenas “encobertos” com o manto da justiça enquanto nossos corações continuam essencialmente corrompidos. A graça de Deus é real, o amor de Deus é real, e Ele realmente nos transforma, nos assimila, nos torna semelhantes ao que Ele é. “E, quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28). “Aí [no Céu] não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos” (Cl 3,11). “O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho” (Ap 21,7).

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