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Uma resposta breve para Neil Degrasse Tyson

julho 5, 2015

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Transcrevo as respostas de Tyson em entrevista concedida à revista Veja de 8 de julho de 2015 e faço alguns comentários.

Neil Degrasse Tyson: “A religião de cada um tira conclusões precipitadas sobre o funcionamento do universo. A ciência, no entanto, realiza medições capazes de mostrar que essas impressões são falsas. Até hoje as pessoas dizem “God bless you” (Deus te abençoe, em inglês) quando alguém espirra. Por quê? No passado, acreditava-se, para valer, que, quando isso ocorria, a alma saía do corpo e deixava a pessoa vulnerável a demônios. Um religioso pode ver o mundo dessa maneira. A ciência verifica que há bactérias que causaram o espirro, e ponto. Um religioso pode aceitar as descobertas e passar a usar passagens de suas escrituras, a exemplo da Bíblia, como metáfora, fonte de inspiração. Ou entrar em conflito conosco. Há muitos, contudo, que souberam separar os tópicos, ver a religião como motivação moral, e a ciência como a forma de realmente explicar a natureza. Exemplo contemporâneo é o geneticista Francis Collins, cristão e um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Ele tira sua base moral da Bíblia, mas jamais responderá a uma pergunta sobre a origem do universo dizendo: “Bem, vamos verificar no Gênesis”.”

1. A religião não tem como objetivo descrever o funcionamento físico do universo. Ela não é um substituto para a ciência. Do mesmo modo, a ciência não tem como objetivo descobrir o sentido da vida ou a causa primeira de todas as coisas. Ela não é um substituto para a religião. Bem entendidas, ciência e religião devem ajudar-se e não entrar em conflito. A ciência ajuda a religião a evitar formas supersticiosas (como a aludida por Tyson) e a religião ajuda a ciência a reconhecer e respeitar suas limitações.

2. Não pode haver evidência empírico-matemática da existência de Deus por ser Deus imaterial e, portanto, sem acidentes quantitativos, ou seja, é impossível medir Deus com uma régua ou pesá-lo numa balança. Disto não decorre que não existam outros tipos de evidência, fundadas na experiência mas não de caráter empírico-matemático, que permitam a formulação de provas racionais da existência de Deus.

3. Evidência não é apenas o que é mensurável, pois o mensurável se fundamenta em coisas que não podemos medir (cores, sons, sabores e texturas, o fluxo subjetivo do tempo…), enquanto a ciência do mensurável depende de entes não mensuráveis (pensamento, lógica, inferências, deduções, induções, abstrações, imaginação…).

Neil Degrasse Tyson: “Sim, a natureza se repete, e por isso definimos regras, como a lei da gravidade. Mas é preciso tomar cuidado com essa abordagem. O.k., Deus então fez as leis da física, como já definia o filósofo Baruch Espinosa no século XVII. Só que isso quer dizer que Ele ouve suas preces? Ou que ajuda religiosos a vencer guerras contra outros religiosos? Ou que Ele tem barba? Foi esse Deus que falou com Moisés? Se tudo isso for tomado como verdade, então podemos dizer que Deus deixa pessoas inocentes ser atropeladas na rua. Ele permite, portanto, que uma criança morra de leucemia. Ou ainda faz vista grossa diante de furacões e vulcões que matam milhões, incluindo jovens e humanitários. Para acreditar em Deus, é preciso levar tudo em conta. Se Ele está por trás de tudo, é muito bom em matanças. Afinal, mais de 99,9% das espécies de seres vivos que passaram pela Terra foram extintas. Isso é o acaso da natureza? Ou é Deus? Seja qual for a resposta escolhida, é preciso assumi-la tanto para o lado belo como para o terrível.”

1. A oração não muda Deus, mas muda quem ora. A experiência registra seus efeitos benéficos: grandes santos, grandes obras de caridade, grandes sacrifícios, grandes milagres. Então, sim, Deus ouve nossas preces, embora isto não signifique que a resposta seja sempre aquilo que desejamos. Isto também faz parte da pedagogia divina para nos amadurecer interiormente.

2. A Providência não pode ser controlada. Devemos colocar tudo nas mãos de Deus e fazer tudo o que está ao alcance de nossos esforços naturais para alcançar o bem (aliás, o que é o bem para quem não acredita em nada além de átomos se movendo de acordo com leis matemáticas?). Numa guerra, como em qualquer conflito ou divergência entre duas partes, cada lado julga estar agindo corretamente e não é de estranhar que se peça, em cada lado, a ajuda de Deus que, no entanto, não é obrigado a atender essas orações de um modo que favoreça necessariamente a parte que está certa (ou menos errada). Os caminhos do Senhor não são os nossos.

3. Deus não é composto por partes. Logo, não faz sentido dizer que “tem barba”. Iconografia é uma coisa, símbolos são apenas metáforas. Não se deve interpretar uma imagem literalmente.

4. O mal é a ausência do bem, do ser. Logo, o mal depende do bem para poder se manifestar e não existe em si mesmo. Deus é a fonte de todo o ser e todo o bem. Se Deus permite o mal, é para dele tirar um bem maior. A existência de seres finitos envolve necessariamente aumentos às custas de diminuições. Numa leucemia, num furacão, num terremoto, num vulcão, o que ocorre é a manifestação de tendências naturais de certos seres que, para alcançarem seus fins, seu próprio bem, frustram as tendências naturais de outros seres gerando sofrimento e levando à extinção.

Além disso, todo sofrimento corpóreo natural é finito, enquanto Deus é o bem infinito. Certamente, Deus pode compensar infinitamente os sofrimentos passageiros desta vida. Uma única existência de felicidade sem fim é mais que o bastante para equilibrar milhões de existências infelizes e transitórias.

Deus não quer a morte do homem, mas quer que ele viva para sempre ao seu lado. Deus não se compraz com a morte, que não terá a última palavra sobre a história.

Neil Degrasse Tyson: “Dediquei tempo para pesquisar listas de deuses na internet. Demora muitos minutos só para passar com o mouse, sem ler, por um compilado de divindades nas quais a humanidade acredita. São milhares! Quer dizer que a escolha de um desses deuses pressupõe, sem escapatória, a ilegitimidade de todos os outros? Esse conflito de ideias não é tranquilo, levou a muitas guerras. Indo além, debrucei-­me sobre o Deus mais popular do Ocidente, o judaico-cristão. Quais são suas propriedades celebradas? A bondade, o poder absoluto e a onisciência. Visto quanto a natureza mata, quer dizer que Ele é assassino? Se sim, não é bondoso. Se não, Ele não é onisciente, ou todo-­poderoso. Para mim, essas escolhas parecem randômicas. Não vejo evidências que corroborem a existência de Deus. Se há um terremoto, não é fúria divina. Geólogos avisaram que a área era vulnerável. Não adiantava rezar pelo Haiti. O terremoto que abalou o país recentemente ocorreria de qualquer jeito. Não me importo se acreditam em deuses. Só acho que quem segue essa linha cega não pode distribuir culpas por aí.”

1. Não há inúmeros deuses. Deus é um só, porque só pode haver um “Ipsum Esse Subsistens”, um único ser cuja essência seja a própria existência. A razão refuta o politeísmo. Não é necessário escolher entre Thor, Shiva ou Zeus, pois é fácil demonstrar que tais seres, mesmo que existissem, não seriam divinos. O Deus judaico-cristão, por outro lado, apresenta-se como um Deus único, o criador de todas as coisas e que se revelou historicamente. Há fatos que indicam sua ação, especialmente a vida, morte e ressurreição de Cristo, e os milagres realizados ao longo dos séculos que justificam racionalmente a adesão à fé católica (e tão somente à fé católica, sorry).

2. A bondade, o poder e a ciência divinas não entram em contradição com a existência do mal, como explicado anteriormente. Mais: não faz sentido querer formular um julgamento moral contra Deus sendo o próprio Deus a fonte da moralidade. Se julgamos que Deus é mau, é porque usamos um critério de bondade, de dever ser, e tal critério não pode ter como fundamento último outra realidade que não a do próprio ser divino. Qualquer outro fundamento é insuficiente para fazer tal julgamento, porque seria relativo, uma convenção particular de seres particulares, incapaz de determinar qualquer coisa contra o absoluto.

3. O fato de um terremoto ter explicação científica ou uma doença, ou um efeito nefasto, é mais uma prova a favor da existência divina, pois indica que mesmo em coisas ruins existe uma ordem causal, uma ordem de movimento e natureza, e onde há ordem, causalidade, movimento, natureza, é necessário evocar uma causa última para a causalidade, um motor último para o movimento, uma origem última para aquilo que é natural, ou seja, Deus.

4. Se não existisse explicação científica para cada um dos fenômenos mencionados por Tyson, então teríamos um bom motivo para duvidar que Deus existe.

5. Só diz que não adianta rezar quem não reza. O Sr. Tyson deveria sair de sua armadura antirreligiosa e experimentar, como preza a boa ciência, conversar com Deus.

Neil Degrasse Tyson: “A ciência é inimiga da ‘polícia do pensamento'”.

Que o diga quem ousar discordar do neodarwinismo, do aquecimento global antropogênico ou de qualquer outro ‘dogma’ pseudocientífico que os cientistas em posição de autoridade abraçaram.

Matéria versus espírito

junho 6, 2015

Acho no mínimo pitoresco um ateu materialista falar em coisas como bondade e verdade. Afinal, se o sujeito acredita que somos apenas reações químicas acontecendo dentro do cérebro, reações absolutamente determinadas pelas leis da natureza, como então dizer que alguma coisa é boa? Ou verdadeira? Uma ligação covalente quebrada em uma molécula de açúcar ou um íon que passa por uma membrana não pode ser algo “melhor” ou “mais verdadeiro” simplesmente por estar no cérebro de um ateu ou de um crente. Chega a ser patético o espetáculo de moléculas em movimento fingindo tentar convencer outras moléculas em movimento de que alguma coisa ou conceito é “falso” ou “verdadeiro”. Existe uma molécula, ou conjunto de moléculas, ou algum processo químico, que possamos identificar com a “bondade” ou a “verdade”? Qual a sua fórmula? Qual a sua lei dinâmica? Como relacionar um simples arranjo de átomos com um conceito abstrato, imaterial? Essas são perguntas que um ateu materialista, EM PRINCÍPIO, jamais será capaz de responder. O método científico experimental não se presta a isso. Ele depende, antes, da existência desses conceitos fora ou além da matéria. Fala-se, por exemplo, em repetição de experimentos para corroborar a veracidade ou falsificar uma teoria. Diz-se que uma medida é boa ou ruim conforme ela se ajusta a um determinado padrão de qualidade (“bondade”). Enfim, o ateu materialista está condenado a ser prisioneiro de conceitos metafísicos que ele precisa negar em nome de sua ideologia. Pior: qualquer ideologia é inconciliável com o materialismo! Logo, o materialismo é contraditório até consigo mesmo na medida em que é apenas mais uma idéia, e não um arranjo de partes quantificáveis.

A propósito de algumas declarações do Pe. Fábio de Melo contra a devoção popular a Nossa Senhora

fevereiro 23, 2015

fmelopopemary

A doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo foi confiada à Igreja (Mt 28,19s; Lc 10,16), que é guardiã da Tradição recebida dos Apóstolos (At 2,42; Rm 16,17; 1Cor 11,23; Gl 1,9; 2Ts 3,6; Tt 1,8s; 2,1-10; Ap 3,3; 21,14) e única intérprete autorizada da Sagrada Escritura (2Pd 1,20; 3,16). De fato, não há unidade de fé fora da obediência à autoridade apostólica (Lc 10,16), especialmente a autoridade petrina (Mt 16,18; Lc 22,31-32; Jo 21,15-17). O protestantismo, que coloca a Escritura como regra única e suprema de fé, demonstra claramente a necessidade dessa obediência: não há uma Igreja protestante única na qual todos concordem quanto ao sentido das palavras inspiradas. Existem, em seu lugar, milhares de denominações com os mais diversos credos e que são incapazes de chegar a um acordo sobre a autêntica doutrina bíblica, o que contradiz expressamente a vontade de Nosso Senhor: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). E, ainda, São Paulo: “Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,5). O mesmo Apóstolo das Gentes ensina que a Igreja é “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15) e esposa/corpo de Cristo (Ef 5,25-30). Sei que um protestante dará a esses textos outras interpretações, mas isto só serve para confirmar que não pode haver consenso sobre o que a Bíblia diz se não houver uma autoridade divinamente instituída para estabelecer a doutrina correta. Pode-se debater horas e horas, dias e dias, sobre o que estas ou aquelas passagens da Escritura significam sem chegar a um acordo definitivo. Por isso, entre outras coisas, não sou protestante, mas católico, obediente ao que Nosso Senhor fala através da voz de sua esposa, a Igreja de todos os séculos.

Quanto ao fato de Nosso Senhor ser o único mediador de justiça entre Deus e os homens, esta é e sempre foi a doutrina ensinada pela Escritura, pela Tradição e pela Igreja Católica. Não existem mediadores fora de Cristo. Por outro lado, a Igreja também afirma que os santos vivem e reinam com Jesus, participando de sua glória: “Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17,22). “Por ele é que tivemos acesso a essa graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança de possuir um dia a glória de Deus” (Rm 5,2). Por esse motivo, os santos no Céu podem interceder por nós participando da mediação de Nosso Senhor: “A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos santos, diante de Deus” (Ap 8,4). Em particular, a Mãe de Jesus é tão unida ao seu Filho que sua intercessão é reconhecida como a mais eficaz e abrangente. Nosso Senhor na cruz a entregou ao discípulo amado, figura de todos os cristãos: “Eis aí tua mãe” (Jo 19,27). Maria é “A Mãe” da Igreja, aquela que, na ordem da graça, coopera com Cristo para o nascimento de novos filhos de Deus.

O Concílio Vaticano II ensina esta doutrina de modo claro nos números 60 a 62 da Constituição Dogmática Lumen Gentium: “O nosso mediador é só um, segundo a palavra do Apóstolo: ‘não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos’ (1 Tm 2,5-6). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece” (n. 60). “Efetivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde vàriamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte” (n. 62).

Padre Fábio de Melo me parece ser um devoto escrupuloso e crítico, que receia desonrar o Filho ao honrar a sua Mãe e que por orgulho critica os simples que rezam o terço ou fazem novenas em honra da Virgem Santa. O receio dele não se justifica, pois onde já se viu um filho se incomodar com os louvores prestados à sua mãe exclusivamente pelo fato de ela ser sua mãe? Não é o próprio Espírito Santo que coloca nos lábios de Santa Isabel primeiro o louvor a Maria e depois o louvor a Cristo (Lc 1,41-45)? Se o Espírito assim o faz, não é para diminuir Cristo, mas porque para mais perfeitamente bendizer o Senhor dos senhores cumpre bendizer antes aquela que o gerou pela fé: “Bem-aventurada és tu que creste!” (Lc 1,45). O que desagrada Jesus não é a verdadeira devoção à sua Mãe, mas a devoção falsa que tolhe o uso sob o pretexto de conter o abuso, a devoção exterior que não tem profundidade de alma, a devoção presunçosa que quer prescindir da necessidade de combater os vícios, a devoção inconstante, hipócrita ou interesseira de quem só quer benefícios neste mundo mas não busca as coisas de Deus.

Teodicéia: um resumo

fevereiro 10, 2015

epicurus

Se Deus existe, por que o mal?

Não existe uma resposta completamente satisfatória para essa pergunta. Há, contudo, alguns dados que podem nos ajudar a enfrentá-la com serenidade.

Podemos classificar o mal em dois tipos distintos: o mal físico e o mal moral.

Mal físico

O mal físico é a ausência de uma perfeição do ente corpóreo dada a sua essência (*).

De onde vem esse tipo de mal? Há vários elementos envolvidos em sua gênese. Pode-se dizer que ele vem da potência, ou seja, da capacidade de mudança, da diversidade e da interdependência causal dos entes.

Qual a origem última da mudança, da diversidade e da interdependência causal? A metafísica responde: Deus.

Devemos, então, atribuir a Deus a existência do mal físico?

A resposta parece ser afirmativa, mas ela o é apenas num sentido secundário, ou seja, no sentido de que Deus cria um Universo em que o mal físico É POSSÍVEL.

Deus, contudo, não é causa direta do mal, já que os poderes causais, a multiplicidade e a variabilidade dos entes, embora dependentes diretamente de Deus quanto ao ser, pertencem aos entes enquanto agentes.

Deus causa as perfeições nos entes, mas as imperfeições vêm dos entes mesmos, dadas as suas essências e os poderes causais que possuem. “Não podemos responsabilizar a Deus pelo mal, enquanto este implica uma defecção propriamente dita; Deus não causa senão o bem e o ser” (Santo Tomás de Aquino).

O mal é um parasita do ser. Ele não pode existir a não ser como limitação do ser, como corte abrupto que impede sua plenitude.

Ora, sendo Deus o Sumo Bem, a plenitude do ser, é impossível que em Deus exista o mal. Deus é a realidade suprema na qual não há defeito, diminuição ou limitação.

Sendo as essências definidas por seus limites, Deus não possui essência, por não ter limite nenhum.

Deus não é bom no sentido de que tenha a bondade moral como uma propriedade do seu ser. Deus é bom por ser a medida de todo o bem e perfeição, inclusive o bem moral.

O que é mais perfeito o é na medida em que reflete a perfeição divina. Há uma hierarquia no ser, além de uma multiplicidade.

Poderia Deus ter criado um Universo diferente e melhor? Certamente. Se Deus tivesse criado um Universo composto apenas de substâncias imateriais, não haveria mudança temporal. Logo, também não haveria morte ou sofrimento físico.

Deus também poderia ter criado um Universo material sem dor, apenas com formas inanimadas. Ou poderia ter criado um Universo como o nosso em que as substâncias animadas racionais não tivessem doenças e nem morressem (**).

Por que Deus cria este Universo, com as propriedades que observamos, com a “quantidade de mal” que experimentamos?

Não o sabemos, mas podemos afirmar que, apesar de todo o mal que se “alimenta” do ser contingente, apenas o bem possui consistência ontológica e, no cômputo total da existência, o Universo é “muito bom” (***).

Compreendemos apenas uma infinitesimal parcela da realidade, e o problema do mal só pode ser solucionado se conhecermos a realidade total da criação, ou seja, todas as causas e todos os efeitos naturais e sobrenaturais.

A fé cristã nos dá a certeza de um final no qual o bem sobrepujará infinitamente qualquer efeito do mal neste mundo: Deus “enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição” (Ap 21,4).

Mal moral

Parcela importante do mal que afeta o homem tem como causa não a contingência do mundo material, mas o livre arbítrio.

Como animal racional, o homem possui fins distintos dos outros viventes. Sua inteligência permite compreender a si mesmo e o mundo, e sua vontade livre o torna MORALMENTE RESPONSÁVEL por suas ações.

Quando o homem escolhe agir de um modo que contradiz a razão, ou seja, de um modo que contradiz aquilo que ele é (mormente seu fim último, que é a contemplação e o conhecimento de Deus) ele introduz no mundo um novo tipo de mal: o MAL MORAL, que projeta o mal físico para dentro da esfera espiritual.

De fato, no princípio, quando o primeiro homem e a primeira mulher foram criados por Deus, ambos receberam uma proteção especial contra os males físicos.

A humanidade perdeu os dons preternaturais da imunidade à dor e à morte, contudo, quando Adão e Eva desobedeceram a ordem divina, querendo ser independentes do Bem Supremo e buscando ser felizes sem o seu Criador.

A Queda nos deixou inteiramente sob o domínio da natureza e à mercê da causalidade ordinária do mundo físico. Pela Queda, o homem deixou de ser uma criatura privilegiada para tornar-se um pária cósmico.

Seu corpo ficou sujeito a defeitos de todo o tipo, incluindo doenças degenerativas, defeitos de nascença e outras contingências terríveis que tornaram a vida dolorosa e miserável.

Embora a descendência de Adão não seja responsável pela escolha do seu progenitor, ela sofre as consequências de sua escolha desastrosa de um modo análogo ao de uma família na qual os filhos inocentes perdem a herança quando o pai dissipa imprudentemente o seu patrimônio.

Tinha de ser assim? Não, não tinha. A Queda foi mais uma contingência, fruto de um ato livre de alguém responsável pelo futuro de toda uma espécie.

E essa responsabilidade decorre da causalidade, ou seja, do poder de produzir efeitos que Deus concedeu às suas criaturas, especialmente as criaturas racionais.

Meus filhos não são culpados por meus erros, mas ainda assim meus erros afetam suas vidas por suas consequências. E essas consequências produzem outros efeitos através do tempo.

O que fazemos aqui perdurará para sempre. Cada ação humana no tempo desencadeia uma reação em cadeia imprevisível de eventos.

Trilhões de decisões hoje ajudam a determinar o amanhã e quanto mais distante no futuro olharmos, maiores serão os efeitos de uma escolha aparentemente insignificante no presente.

O poder causal conjugado com a vontade da criatura racional traz em seu bojo uma responsabilidade quase incomensurável quando olhamos para a história como um todo.

Ao ateu que acusa Deus de ser moralmente responsável pelos males do mundo, deve-se responder:

Primeiro, Deus não está sob a lei moral, mas é o seu fundamento. Cobrar de Deus uma obrigação moral para com sua criação é algo inteiramente descabido.

Segundo, o mal só é mau porque Deus existe como bem absoluto.

O ateísmo e o sofrimento sem culpa

O protesto do ateu contra o sofrimento inocente é um protesto contra a própria estrutura da realidade. Mas é um protesto vazio se não existir uma base objetiva para afirmar que alguma coisa é boa ou ruim.

No ato mesmo de condenar Deus pelas injustiças e falhas da criação, o ateu apela implicitamente para o Deus que nega com veemência.

Em outras palavras: ao dizer que um Deus que permite o sofrimento é mau, o ateu invoca uma ordem superior de bondade que nada mais é do que o próprio Deus acusado e rejeitado.

“Como você ousa criar um mundo no qual exista tanta miséria que não seja nossa culpa? Isso não está certo. É algo completamente… completamente mau. Por que eu devo respeitar um Deus caprichoso, malévolo e estúpido que cria um mundo tão repleto de injustiça e dor?” (Stephen Fry).

Mas como dizer que algo é mau se não existe o bem absoluto? Como dizer que alguém é caprichoso, malévolo e estúpido se não existe ordem, bondade e inteligibilidade alguma na natureza?

Como falar de injustiça e dor se justiça e alegria são apenas nomes vazios inventados para suportar uma realidade absolutamente indiferente e irracional?

Como reclamar do mal contra Deus se sem Deus não há nem bem nem mal, nem beleza nem feiúra, nem cosmos nem caos?

Se existe o mal, ou melhor, se as coisas que conhecemos são boas, mas são finitas e vítimas do defeito ontológico que chamamos de mal, então Deus existe.

Se não existe o mal nem o bem, então tudo o que existe é ilusão e nada. A única escolha coerente para um ateu é ser indiferente e abraçar o niilismo.

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Crianças com câncer ósseo

Vários níveis de causalidade entrelaçam-se e explicam a ocorrência do câncer ósseo numa criança.

Essa doença existe, antes de tudo, porque a criança existe: foi uma célula sadia de seu corpo que sofreu mutação e originou a doença.

Em outro nível causal, a existência desse câncer é consequência da falta adâmica.

O câncer existe, ainda, porque Deus quis criar um mundo com agentes causais interdependentes, mutáveis e eventualmente racionais, um mundo bom que refletisse suas perfeições de diferentes maneiras, mas que de Deus se distingue em virtude de sua contingência, tornando-o vulnerável ao mal tanto físico como moral.

O câncer desta criança produzirá efeitos que não conhecemos, e que resultarão num bem maior.

O mal da doença não é absoluto. A dor dura um tempo. A morte não é o fim. A felicidade eterna, por outro lado, nunca acaba e ultrapassa infinitamente qualquer sofrimento passageiro. O mal não será justificado, mas vencido.

Isto não significa, contudo, que o sofrimento inocente é algo fácil de aceitar. A esperança do Céu e a confiança na bondade de Deus não eliminam completamente a nossa angústia.

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A resposta para o problema do mal não é um argumento ou raciocínio irrefutável, não são palavras humanas.

A solução divina para o problema do mal é a Palavra Eterna encarnada, Jesus Cristo.

A resposta de Deus ao mal é o dom de sua própria vida infinita oferecida a nós no sacrifício supremo da Cruz.


(*) Por exemplo, pertence à essência de um cachorro o ter quatro patas funcionais. A falta de uma delas é um mal físico.

(**) Ele o fez – local e provisoriamente – no Éden.

(***) Que o Universo é “muito bom” o sabemos pela Revelação (Gn 1,31), mas também temos a intuição disso pelo desejo de continuarmos vivos e pela beleza, ordem e bondade que percebemos e amamos nos entes à nossa volta. Se o Universo fosse mal ou só um “pouco bom”, ninguém quereria viver nele.

Verdadeira misericórdia

janeiro 30, 2015

Dore-THE-WOMAN-TAKEN-IN-ADULTERY Não há misericórdia onde não há verdade. Não há unidade na caridade onde não há unidade de fé. O amor pressupõe a justiça e a renúncia ao erro para salvar. Se achamos que a graça divina se alcança com bons sentimentos, fechando os olhos para o pecado e acolhendo o outro sem nos preocuparmos com suas chagas, enganamos e condenamos a nós mesmos. “Vai e não peques mais!” Eis a misericórdia de Cristo: a misericórdia que perdoa o pecador sem deixar de condenar o pecado. Quando os pastores da Igreja negam, minimizam ou esquecem isso, o Reino de Deus diminui e o Inferno avança sobre a Terra.

Medievo brilhante

janeiro 30, 2015

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Idade Média, Idade da Luz.

Luz que irrita os que amam as sombras, os que odeiam Cristo e sua Santa Igreja. O “Iluminismo” do século XVIII a atacou e caluniou, mas quem estudou sabe que os medievais lançaram os fundamentos da alta cultura, da ciência, da técnica, de tudo, enfim, que consideramos essencial para o desenvolvimento e progresso da civilização no Ocidente. Nossa decadência começou quando nos tornamos ingratos para com nossos ancestrais, quando nos tornamos escarnecedores de sua Fé e de sua Esperança.

Obrigado, Santo Tomás!

janeiro 30, 2015

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Recordando a passagem do dia de Santo Tomás de Aquino (28 de janeiro), dou graças a Deus por este grande santo que, mais do que qualquer outro (a meu ver), mostrou com sua obra e sua vida que a fé não destrói a razão e que a graça não anula a natureza, mas a eleva até a comunhão com a própria vida divina.

Santo Tomás, muito obrigado! Seus escritos filosóficos me ajudaram a SABER (não crer) QUE DEUS EXISTE E É BOM e que A ALMA HUMANA É IMORTAL. Seus escritos teológicos, por outro lado, me ajudaram a crer e a compreender com mais profundidade os mistérios da fé, especialmente A TRINDADE, A PREDESTINAÇÃO DOS SANTOS, A ENCARNAÇÃO DO VERBO, O SACRAMENTO DA EUCARISTIA E A REDENÇÃO DO GÊNERO HUMANO. Rogai por mim e por todos os que amo, para que possamos perseverar na FÉ CATÓLICA, na esperança e na caridade, alcançando um dia a visão do Deus Uno e Trino na glória eterna.

“Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar nossa vida inteira. Quem quiser viver na perfeição, nada mais tema fazer do que desprezar aquilo que Cristo desprezou na cruz e desejar o que ele desejou. Na cruz, pois, não falta nenhum exemplo de virtude.” (Santo Tomás de Aquino, Colatio 6 super Credo in Deum, retirado da Liturgia das Horas).

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