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As divisões de Darwin – Parte I

junho 15, 2006

Adaptei o texto a seguir a partir do original em inglês publicado em http://www.touchstonemag.com/archives/article.php?id=19-05-028-f.

As divisões de Darwin

O Papa, o cardeal, o jesuíta, e o debate em torno das origens

por Martin Hilbert

Não faz diferença para nossa salvação se a geometria do universo é euclideana, se a mecânica quântica é a última palavra em física atômica ou se o Big Bang é o modelo correto para descrever a origem do universo. Essas teorias revelam o poder do intelecto humano, mas não possuem repercussões morais ou religiosas.

A teoria geral da evolução, por outro lado, diz algo sobre a origem do homem e desta forma, ao menos em princípio, pode entrar em conflito com o dogma. Embora raramente se pronuncie sobre teorias científicas, de tempos em tempos a Igreja quebra seu silêncio para abordar o tema da evolução biológica. A Igreja procede desta forma quando percebe que alguns fiéis aceitam como verdadeira uma teoria científica que nega algum dado fundamental de sua doutrina sobre a natureza e a origem do homem.

O darwinismo tornou-se, é notório, um relato alternativo à criação divina. Tanto a teoria clássica como a síntese neodarwiniana (que inclui dados novos da genética, estatística e biologia molecular) alegam que o design pode ser apenas aparente, resultando da ação de forças cegas. Embora alguns digam que suas explicações não excluem necessariamente a divindade, a maioria dos biólogos evolucionistas, de modo consciente ou não, é materialista.

Ambos, darwinistas e neodarwinistas (a distinção não faz diferença para o que vai ser dito a seguir) propõem uma explicação reducionista para os relatos da criação e da queda. Assumem que a inteligência, a vontade e a moralidade humanas podem ser completamente explicadas em termos de causas materiais. A evolução fornece o porquê de o homem ser violento e voluptuoso, e mesmo a razão de sua mortalidade.

A Igreja não pretende dar respostas científicas às questões biológicas, mas contesta algumas das alegações darwinistas por se tratarem de metafísica materialista travestida de ciência. Quebra seu silêncio porque sabe que calar sobre uma verdade que lhe foi confiada pelo próprio Deus – a natureza do homem – faria com que esta verdade se perdesse nas consciências, sendo substituída pelos dogmas mutantes de uma ciência materialista.

Ainda assim, a Igreja vem sendo surpreendentemente cuidadosa em seus pronunciamentos sobre o tema, ainda mais se se considerar que a teoria de Darwin foi usada para sustentar certas visões de mundo, como o nazismo e o comunismo, que produziram ruína e destruição sem precedentes. A Igreja nunca esteve confortável com o evolucionismo mas, talvez por receio de passar mais uma impressão negativa, na linha daquela que obteve por causa da condenação de Galileu, preferiu usar de discrição com os teólogos entusiastas do evolucionismo.

Permissão Papal

Houve exceções, contudo. A primeira foi uma breve seção da encíclica Humani Generis, de 1950, na qual o Papa Pio XII deu permissão aos teólogos e cientistas católicos para considerarem a possibilidade de o corpo humano ter se desenvolvido a partir de formas de vida preexistentes, desde que se mantivessem dispostos a pesar todas as evidências contra e a favor.

Ao mesmo tempo, o Pontífice insistiu que cada alma humana é imediatamente criada por Deus. A evolução pode ou não explicar a origem do corpo, mas certamente não pode explicar a origem da alma.

O Papa Pio XII também excluiu o poligenismo – a teoria segundo a qual a raça humana possui múltiplos protoparentes – pois “não se vê como tal opinião pode ser reconciliada com o que as fontes da verdade revelada e os documentos da autoridade magisterial da Igreja propõem a respeito do pecado original, que procede de um pecado realmente cometido por um indivíduo, Adão, e o qual, através da geração, passa a todos e está em cada um como próprio”.

Os fiéis precisaram esperar quase cinqüenta anos, até 1996, para uma nova intervenção papal sobre a evolução, que tomou a forma de uma mensagem do Papa João Paulo II à Academia Pontifícia de Ciências. Esta mensagem foi amplamente publicada principalmente por causa da seguinte frase: “Hoje, mais de meio século [sic] após o aparecimento daquela encíclica [Humani Generis], alguns novos achados levam-nos a reconhecer que a evolução é mais do que uma hipótese”. Os noticiários deram a entender que “o Papa aceitou o darwinismo”, sugerindo que a Igreja finalmente tinha abraçado o pensamento moderno.

Mais recentemente, o tópico evolução e Igreja tornou-se novamente notícia. Primeiro, o Papa Bento XVI decidiu mencionar a evolução na homilia de sua missa inaugural: “Somente quando encontramos o Deus vivo em Cristo descobrimos o que é a vida. Não somos algum produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós foi desejado, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário”.

É como se o Pontífice estivesse respondendo diretamente ao darwinismo metafísico do livro “The Meaning of Evolution” [Robert J. Richards, The Meaning of Evolution : The Morphological Construction and Ideological Reconstruction of Darwin’s Theory (Science and Its Conceptual Foundations series), University Of Chicago Press; Reprint edition (July 15, 1993)]: “O homem é o resultado de um processo natural e sem finalidade que não o tinha em mente”. O fato de o novo Papa mencionar a teoria em um contexto tão importante mostra uma percepção clara de sua enorme (e perniciosa) influência sobre como o homem compreende a si mesmo e sua relação com Deus.

A razão abdicada

Vários meses depois, no dia 7 de julho de 2005, o conhecido jornal “The New York Times” publicou um artigo de opinião do Cardeal Cristoph Schönborn, arcebispo de Viena. Schönborn, ex-aluno de Joseph Ratzinger e principal editor do Catecismo da Igreja Católica, escreveu que a mensagem de João Paulo II à Academia Pontifícia de Ciências tinha sido distorcida pela imprensa.

Os meios de comunicação se interessam por vender notícias, sem distinguir o nível de autoridade que se pode atribuir às diversas declarações eclesiásticas. Mesmo os teólogos católicos discutem entre si os graus de obrigatoriedade envolvidos nos vários modos de pronunciamento magisterial. Ainda assim, é seguro dizer que uma encíclica como a Humani Generis tem muito mais peso que as palavras ditas pelo Papa em uma audiência geral ou numa mensagem à Academia Pontifícia de Ciências.

Referências sobre evolução em homilias, mesmo em homilias papais importantes, ou artigos de opinião, ainda que escritos por cardeais, não são de modo algum um instrumento adequado para resolver questões doutrinais, mas podem dar pistas sobre como a Igreja compreende certos ensinamentos, podendo tornar-se inclusive meios efetivos para recordar aos fiéis o que a Igreja prega e sobre como dialogar com o mundo a respeito de questões relevantes.

No seu artigo “Finding Design in Nature” (“Encontrando design na natureza”), o cardeal Schönborn declara que aceitar o darwinismo equivale a abdicar da razão, como se depreende de um pronunciamento do Papa João Paulo II feito numa audiência geral onze anos antes da célebre mensagem à Academia Pontifícia de Ciências. “A evolução dos seres vivos, para a qual a ciência procura determinar os estágios e discernir o mecanismo, exibe uma finalidade intrínseca, que desperta admiração”, afirmara o Papa. Tal finalidade “dirige os seres em uma direção que não está sob seu controle ou responsabilidade”, o que “obriga a supor uma Mente, que é seu inventor, seu criador”.

Ante todas estas indicações da existência de Deus-Criador, alguns opõem o poder do acaso ou dos mecanismos próprios da matéria. Falar de acaso para um universo que apresenta uma organização tão complexa em seus elementos e tão maravilhosa finalidade em suas formas de vida seria equivalente a desistir da busca por uma explicação do mundo que conhecemos. De fato, seria o mesmo que admitir efeitos sem causa, renunciando à inteligência, que passaria então a negar a si mesma o direito de pensar e buscar respostas para suas perguntas.

Quando o Papa João Paulo II, um filósofo, usou o termo “finalidade”, ele o fez com plena clareza de que estava defendendo o design na natureza e um designer da natureza. O próprio Schönborn entrou na refrega enfatizando veementemente o grande perigo do neodarwinismo: degradar a razão humana negando absolutamente a capacidade do intelecto de enxergar design no mundo natural.

O cardeal ficou particularmente irritado pelas diversas tentativas de fazer do Papa Bento XVI um darwinista. O então cardeal Ratzinger era presidente da Comissão Teológica Internacional em 2004 quando esta publicou um documento entitulado: “Comunhão e serviço: a pessoa humana criada à imagem de Deus”, um relatório que analisava, entre muitas outras coisas, o impacto do evolucionismo biológico sobre a fé católica. Alguns interpretaram o relatório como favorável ao neodarwinismo, e o usaram para argumentar que o Papa Bento XVI não vê problema algum com a teoria. Schönborn citou a homilia inaugural do Papa Bento XVI para refutar tal leitura.

Continua…

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