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As divisões de Darwin – Parte III (Final)

junho 25, 2006

Parte final da adaptação do artigo publicado em http://www.touchstonemag.com/archives/article.php?id=19-05-028-f.

As divisões de Darwin

O Papa, o cardeal, o jesuíta, e o debate em torno das origens

por Martin Hilbert

Continuação

O Universo fértil

A terceira categoria científica de Pe. Coyne pode parecer surpreendente para muitos cientistas: a fertilidade do Universo. Não se trata de acaso ou necessidade, nem dos conceitos de partículas e campos, mas sim de uma declaração de fé na capacidade do Universo engendrar toda a complexidade biológica sem qualquer intervenção divina direta. Esta é a maneira que Pe. Coyne encontrou para dar ao Cosmo um valor e dignidade intrínsecos, proposição da qual o jesuíta tira como corolário que Deus não conhece perfeitamente nem conduz o Universo para seus propósitos. Dificilmente tal categoria científica pode ser considerada filosófica e teologicamente neutra.

Intuições adicionais sobre a “fertilidade do Universo” podem ser recolhidas no final do seu artigo. A ciência moderna “apresenta um desafio, um desafio enriquecedor, às crenças tradicionais sobre a natureza de Deus”, aponta o chefe do Observatório do Vaticano.

“Deus deixa o mundo ser o que quiser ser em sua contínua evolução. Não intervém constantemente, mas permite, participa, ama. Tal modo de pensar é adequado para preservar o valor especial que a religião atribui à emergência não só da vida, mas também do espírito, evitando um criacionismo grosseiro? Somente um longo diálogo o dirá”.

Embora reconheça que os teólogos conhecem o conceito de “criação continuada”, a partir do qual se explora a relação do Criador com o Universo, este último parágrafo sugere que Pe. Coyne atribui poder e autonomia excessivos ao mundo natural. Pe. Coyne sustenta a possibilidade de que o mundo, em contínua evolução, é capaz de produzir realidades espirituais sem a intervenção de Deus.

Isto é precisamente o que os católicos rejeitam, como o Papa João Paulo II enunciou na mensagem que, segundo Pe. Coyne, é um modelo de sensibilidade para com a ciência: “É em virtude de sua alma eterna que a pessoa inteira, incluindo seu corpo, possui tão grande dignidade. Pio XII sublinhou o ponto essencial: se a origem do corpo humano procede de uma matéria preexistente, a alma espiritual é diretamente criada por Deus”.

No cenário imaginado por Pe. Coyne, a “fertilidade do Universo” toma o lugar de Deus. Uma força criativa impessoal – um caos criativo – explica as características mais sensacionais do Cosmo, eliminando simultaneamente a necessidade de um designer pessoal. Recusando-se a adotar a visão do Pe. Coyne sobre a “fertilidade do Universo”, a Igreja não deve preocupar-se com acusações de fechar as portas “ao melhor da ciência moderna”. Pelo contrário, com tal postura rejeita uma filosofia nebulosa que quer se cobrir com o manto da ciência.

Ortodoxia sábia

É intrigante que Pe. Coyne realize sua análise da relação entre ciência e religião para defender a evolução darwiniana, uma teoria que dificilmente pode ser considerada como “o melhor da ciência moderna”. Este não é o momento para se expor os problemas científicos com esta teoria, mas existem muitos bons livros disponíveis sobre o assunto, incluindo o de Phillip Johnson, “Darwin no tribunal” (“Darwin on Trial“), o de Michael Behe, “A caixa preta de Darwin” (“Darwin’s Black Box“) e o de Denise O’Leary, “Design ou acaso?” (“By Design or by Chance?“).

Como foi dito acima, o cardeal Schönborn argumentou contra um perigo grave: o modo como o neodarwinismo debilita a razão humana ao desprezar sua capacidade de enxergar planejamento na criação. Este ponto da crítica do príncipe da Igreja perderia muito de sua força se o registro fóssil exibisse evidências de continuidade, se não tivesse ocorrido a “explosão pré-Cambriana”, e se as formas de vida mais simples não fossem tão inacreditavelmente complexas. Estes e muitos outros fatos deixam clara a escassez de provas substanciais favoráveis às grandes alegações darwinianas.

Se houvesse tais provas, aqueles que demonstram a existência de Deus a partir do planejamento inteligente não poderiam citar o olho humano ou o flagelo das bactérias como estruturas além do poder criativo da natureza, mas deveriam enxergar provas de design no grande esquema cósmico. Esta é a possibilidade que pode ter despertado Pe. Coyne, levando-o a criticar o texto do cardeal Schönborn.

A Comissão Teológica Internacional considera aceitável uma linha de pensamento segundo a qual o planejamento pode estar como que oculto, mas não admite um processo que produziria um Universo com características que escapam à onisciência divina ou que excluem a inteligência divina como sua causa primeira. Deus pode moldar o Universo em pequenos passos aparentemente randômicos. Pe. Coyne não precisa ter receio de que a Igreja venha a apoiar a falácia do Deus tapa-buracos do conhecimento científico.

Em outras palavras, argumentos como os de Pe. Coyne não são necessários para proteger a Igreja, impedindo-a de adotar posições que parecem razoáveis agora mas que podem tornar-se embaraçosas caso a ciência faça grandes descobertas no futuro. Para criticar o darwinismo, não se é obrigado a aceitar que Deus criou cada espécie em seu estado presente, ou assegurar que não há causas segundas que Deus possa ter utilizado para criar os pássaros a partir dos dinossauros.

Morte darwiniana

É plausível que o contato constante de Pe. Coyne com cientistas possa tê-lo levado a considerar o darwinismo como “o melhor da ciência moderna”. Muitos cristãos sinceros já fizeram o mesmo. Mas, como sacerdote, Pe. Coyne deveria notar que existem questões teológicas básicas diante das quais um crente que pensa seriamente em abraçar o darwinismo não pode eximir-se de responder.

O darwinismo não apenas exclui uma alma distinta da matéria, mas também possui seu próprio relato sobre o pecado original. A morte, do ponto de vista neodarwiniano, não é o resultado da inveja do Diabo e de uma escolha humana, como ensinam as Escrituras. É, em vez disso, uma força impessoal, poderosa, criativa, que – combinada com as mutações aleatórias – faz de nós aquilo que somos.

Somos voluptuosos e violentos não porque decaímos de uma posição privilegiada em Adão, mas porque nossos ancestrais copularam e lutaram por seu espaço, brutalmente, com a intenção de sobreviver e triunfar. Os indivíduos que, por força do acaso, não buscavam o maior número possível de relações sexuais ou eram lentos para agir com fúria e esmagar seus concorrentes acabaram eliminados, não contribuindo para a formação de nossa espécie.

Se o darwinismo é verdadeiro, não temos escolha a não ser reconhecer que a compreensão cristã da natureza humana é apenas uma fábula piedosa, um mito inventado para atribuir características pessoais a um Universo impessoal. E se a natureza do homem é uma fábula, o mesmo deve-se dizer da Encarnação.

Houve poucas tentativas de católicos favoráveis ao evolucionismo para lidar diretamente com as verdades teológicas reveladas no relato sobre Adão e Eva. Os capítulos iniciais do Gênesis nos dizem, primeiramente, que os seres humanos são o ápice da criação. Deus nos fez à sua imagem, algo que não é dito de nenhum outro animal. A Bíblia também fala da inocência original de nossos protoparentes. Eles estão nus e não se envergonham.

Os teólogos (ortodoxos) diferem entre si sobre os detalhes deste estado de inocência original, mas concordam que o homem foi criado imortal. Foi somente pela desobediência de Adão e Eva que a morte tornou-se parte da condição humana.

O darwinismo funde as narrativas da criação e da queda numa só. A economia da explicação darwinista é em si mesma um poderoso argumento a favor da teoria, e não se deve subestimar o poder de sedução do darwinismo como desculpa para excluir Deus e a noção de pecado do mundo, o que torna o darwinismo atraente para ateus e agnósticos. Os cristãos, todavia, deveriam ter mais conhecimento de causa e não corresponder ao desejo de negar a existência do pecado. O Catecismo refere-se ao pecado original como uma “verdade essencial da fé” e, para os católicos, a censura feita ao poligenismo pelo Papa Pio XII ainda parece vigorar. O terceiro capítulo do Gênesis não precisa ser interpretado literalmente, mas qualquer exegese séria do texto deve reconhecer que nossos primeiros pais, quando e onde quer que tenham vivido, escolheram rebelar-se contra Deus, tornando-se conseqüentemente sujeitos ao pecado e à morte.

A Fé preservada

Muitas pessoas que não vêem problemas em reconciliar o darwinismo e a fé cristã enxergam na ciência um empreendimento racional e na religião uma catarse emotiva. Suas tentativas de estabelecer os domínios de competência da ciência e da fé religiosa, com efeito, levam a negar que esta última tenha proposições ou verdades objetivas. Mas dado que não existem definições universalmente aceitas do que seja ciência e, a fortiori, do que seja religião, como poderia ser efetuada tal separação de domínios de um modo que seja aceito por todos, por mais que consideremos uma distinção desta natureza desejável?

Pe. Coyne pode não negar explicitamente que a religião proponha verdades objetivas, mas sua insistência em que a Igreja deve dar à biologia o direito de determinar se a natureza espiritual do homem é fruto apenas de causas segundas leva necessariamente a considerar a teologia como uma espécie de reflexão sentimental sobre o mundo. Isto implica, entre outras coisas, em negar que o cristianismo oferece ao homem uma revelação de verdades que este não pode conhecer por suas próprias forças.

A Igreja prestaria um enorme desserviço aos crentes e à humanidade como um todo se permanecesse em silêncio quando os cientistas defendem como fato uma teoria sem fundamento sólido na realidade. Criticar o darwinismo, como fizeram três Papas e o cardeal Schönborn, não é intrometer-se em matéria científica neutra, mas preservar intacto o depósito da fé – que diz algumas coisas bem claras sobre a origem e a queda do homem – rejeitando proposições teológicas feitas em nome da ciência que a ciência mesma não garante.

O Cardeal Newmam, em seu livro “A idéia de uma Universidade”, advertiu sobre o perigo de se excluir qualquer ciência, e especialmente o discurso filosófico sobre Deus, de uma compreensão completa da realidade:

“Se qualquer ciência é deixada de fora do círculo do conhecimento, não se pode deixar seu lugar vazio; aquela ciência é esquecida; as outras ciências fecham o círculo, ou, em outras palavras, ultrapassam os limites que lhes são próprios, e invadem território sobre o qual não possuem direito… Não podemos ficar sem uma perspectiva, e terminamos com uma ilusão, quando não podemos alcançar a verdade”.

Se a posição de Pe. Coyne fosse aceita, os cientistas e os popularizadores da ciência seriam os únicos árbitros do conhecimento. O darwinismo substituiria a teologia como fonte da verdade última sobre Deus e o homem. Alguns cristãos podem enxergar aí uma aproximação mais ilustrada para a religião, mas o cristianismo sem um Deus onisciente e onipotente não seria verdadeiro. Aceitar a explanação darwiniana para a grandeza e depravação do homem é crer numa ilusão.

O artigo do cardeal Schönborn pode ser encontrado em www.catholiceducation.org/articles/science/sc0060.html; O artigo de Pe. Coyne encontra-se em www.thetablet.co.uk/cgi-bin/register.cgi/tablet-01063; A mensagem do Papa João Paulo II para a Academia Pontifícia de Ciências encontra-se em www.ewtn.com/library/PAPALDOC/JP961022.HTM; Por fim, o documento “Comunhão e serviço: a pessoa humana criada à imagem de Deus”, pode ser obtido no endereço academic.regis.edu/mghedott/communionstewardship.htm.

O Padrão de Gould

Pode ser útil citar uma passagem reveladora de um dos livros populares de Stephen Jay Gould sobre a teoria da evolução. Gould era paleontologista em Harvard e um talentoso escritor darwinista, apesar de declarar abertamente que os fósseis contam uma história diferente.

No livro “A galinha e seus dentes” (“Hen’s Teeth and Horse’s Toes”), Gould admitiu que os críticos do evolucionismo tinham um forte argumento no julgamento de Scopes em 1926, mas não deixou de reiterar que seus descendentes intelectuais devem ser combatidos. Para Gould, os contraditores de Darwin formam uma “colcha de retalhos” cujo “núcleo de apoio prático é a direita evangélica”, e que “o criacionismo é apenas um disfarce ou uma questão subsidiária em um programa político que baniria o aborto, eliminaria os ganhos políticos e sociais das mulheres ao reduzir o conceito de família a uma forma ultrapassada de paternalismo, e reinstituiria todo o jingoísmo e desconfiança do conhecimento que preparam uma nação para a demagogia”.

Seria pouco acurado, sem dúvida, sugerir que todos os darwinistas são zelotes pró-aborto lutando para destruir quaisquer vestígios da civilização cristã, mas a passagem indica que o debate sobre o status do neodarwinismo não é apenas uma discussão desapaixonada entre filósofos da ciência. Quer seus protagonistas tenham consciência disto ou não, o debate versa sobre visões de mundo alternativas.

Martin Hilbert é sacerdote do Oratório de São Felipe Néri em Toronto (www.oratory-toronto.org), com um doutorado em história e filosofia da ciência pela Universidade de Toronto. Atualmente ministra um curso sobre filosofia da ciência no Seminário de São Felipe.

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