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Fraqueza do homem, força de Deus

julho 4, 2006


Minha tradução para o português da homilia do Santo Padre Bento XVI na solenidade de São Pedro e São Paulo, 29 de junho. Retirado de www.zenit.org.

Bento XVI: No ministério de Pedro manifesta-se a fraqueza do homem e a força de Deus

Homilia na solenidade de São Pedro e São Paulo, 29 de junho

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 3 de julho de 2006 (ZENIT.org).- Na quinta-feira, 29 de junho, solenidade de São Pedro e São Paulo, padroeiros de Roma, Bento XVI celebrou pela manhã, na basílica vaticana, uma Missa durante a qual abençoou e impôs o pálio a 27 arcebispos metropolitanos provenientes de 17 países: 11 da América, 8 da Europa, 5 da África e 3 da Ásia.

Entre os presentes, um lugar destacado era ocupado pela delegação da Igreja de Constantinopla, enviada pelo patriarca ecumênico Bartolomeu I, presidida por Sua Eminência Ioannis (Zizioulas), metropolita de Pérgamo.

Publicamos a homilia do Santo Padre.

Queridos irmãos e irmãs:

“Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Que quis dizer propriamente o Senhor a Pedro com estas palavras? Que promessa lhe faz com elas e com que tarefa o encarrega? E o que diz a nós, ao bispo de Roma, que ocupa a cátedra de Pedro, e a Igreja de hoje?

Se queremos compreender o significado das palavras de Jesus, devemos lembrar que os Evangelhos nos relatam três situações distintas nas quais o Senhor, sempre de um modo particular, investe Pedro da tarefa que deverá desempenhar. Trata-se sempre da mesma tarefa, mas as diversas situações e imagens que usa nos mostram claramente o que queria e quer o Senhor.

No Evangelho de São Mateus, que acabamos de escutar, Pedro confessa sua fé em Jesus, reconhecendo-o como Messias e Filho de Deus. Por isto o Senhor lhe confere sua tarefa particular mediante três imagens: a rocha, que se converte em fundamento ou pedra angular, as chaves e o poder de ligar e desligar. Neste momento não quero voltar a interpretar estas três imagens que a Igreja, ao longo dos séculos, explicou repetidamente; entretanto, quero chamar a atenção sobre o lugar geográfico e sobre o contexto cronológico destas palavras.

A promessa tem lugar junto às fontes do Jordão, na fronteira da Judéia, nos confins do mundo pagão. O momento da promessa marca uma virada decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor caminha rumo a Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho até a cidade santa é o caminho leva à cruz: “A partir de então começou Jesus a manifestar aos seus discípulos que ele devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumo-sacerdotes e dos escribas, e ser morto e ressuscitar ao terceiro dia” (Mt 16, 21).

Ambas as coisas vão juntas e determinam o lugar interior do Primado, e além disso, da Igreja em geral: o Senhor está continuamente a caminho da cruz, a caminho da humilhação do servo de Deus que sofre e morre, mas ao mesmo tempo sempre está também a caminho da vastidão do mundo, na qual nos precede como Ressuscitado, para que o mundo resplandeça a luz de sua palavra e a presença de seu amor; está a caminho para que, através dele, Cristo crucificado e ressuscitado, chegue ao mundo o próprio Deus.

Neste sentido, Pedro, em sua primeira Carta, assumindo esses dois aspectos, define-se como “testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que está para ser manifestada” (1Pd 5,1). Para a Igreja a Sexta-Feira Santa e a Páscoa estão sempre unidas; a Igreja é sempre o grão de mostarda e a árvore em cujos ramos se aninham as aves do céu. A Igreja, e nela, Cristo, sofre também hoje.

Nela, Cristo continua sendo escarnecido e golpeado novamente, novamente tenta-se lançá-lo para fora do mundo. Sempre de novo a pequena barca da Igreja é sacudida pelo vento das ideologias, que com suas águas penetram nela e parecem condená-la a afundar.

Contudo, precisamente na Igreja que sofre Cristo sai vitorioso. Apesar de tudo, a fé nele se fortalece sempre de novo. Também hoje o Senhor manda sobre as águas e age como Senhor dos elementos. Permanece em sua barca, na nau da Igreja. Do mesmo modo, também no ministério de Pedro manifesta-se, de um lado, a debilidade própria do homem, mas ao mesmo tempo também a força de Deus: o Senhor manifesta a sua força precisamente na debilidade dos homens, mostrando que Ele é quem constrói sua Igreja usando homens frágeis.

Vejamos agora o Evangelho segundo São Lucas, que nos narra como o Senhor, durante a última Ceia, novamente dá a Pedro uma tarefa especial (cf. Lc 22,31-33). Desta vez as palavras que Jesus dirige a Simão encontram-se imediatamente após a instituição da Santíssima Eucaristia. O Senhor acaba de entregar-se aos seus, sob as espécies de pão e vinho. Podemos ver na instituição da Eucaristia o autêntico ato de fundação da Igreja. Através da Eucaristia o Senhor não somente se entrega a si mesmo aos seus, mas também lhes dá a realidade de uma nova comunhão entre si que se prolonga ao longo dos tempos “até que Ele venha” (cf. 1Cor 11,26).

Por meio da Eucaristia os discípulos se transformaram em sua morada viva que, ao longo da história, cresce como o novo templo vivo de Deus neste mundo. Assim, Jesus, imediatamente depois da instituição do Sacramento, fala do que significa ser discípulo, o “ministério”, na nova comunidade: diz que é um compromisso de serviço, do mesmo modo que Ele está no meio deles como quem serve.

E então dirige-se a Pedro. Diz que Satanás pediu para joeirar os discípulos como trigo. Isto alude à passagem do livro de Jó, no qual Satanás pede a Deus permissão para golpear Jó. Desta maneira, o diabo, o caluniador de Deus e dos homens, quer provar que não existe uma religiosidade autêntica, mas que no homem tudo visa sempre e seomente à utilidade.

No caso de Jó, Deus concede a Satanás a liberdade que havia solicitado, precisamente para poder defender deste modo sua criatura, o homem, e a si mesmo. O mesmo ocorre com os discípulos de Jesus, em todos os tempos. Deus dá a Satanás certa liberdade. Muitas vezes nos parece que Deus deixa liberdade excessiva a Satanás, que lhe concede a faculdade de atingir-nos de um modo muito terrível, e que isto ultrapassa nossas forças e nos oprime em demasia. Sempre de novo gritaremos a Deus: vê a miséria de teus discípulos! Protege-nos! Por isso Jesus diz: “Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32).

A oração de Jesus é o limite posto ao poder do maligno. A oração de Jesus é a proteção da Igreja. Podemos recorrer a esta proteção, recebê-la e estar seguros dela. Mas, como diz o Evangelho, Jesus ora de um modo particular por Pedro: “para que a tua fé não desfaleça”. Esta oração de Jesus é ao mesmo tempo promessa e missão. A oração de Jesus salvaguarda a fé de Pedro, a fé que este confessara em Cesaréia de Filipe: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16).

A tarefa de Pedro consiste precisamente em não deixar que está fé emudeça, em fortalecê-la sempre, diante da cruz e de todas as contradições do mundo, até que o Senhor retorne. Por isso o Senhor não roga só pela fé pessoal de Pedro, mas também por sua fé como serviço aos demais. E isto é exatamente o que quer dizer com as palavras: “E tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos” (Lc 22,32).

“Tu, uma vez convertido”: estas palavras são simultaneamente uma profecia e uma promessa. Profetizam a fraqueza de Simão que, diante de uma serva e de um servo, negará conhecer a Jesus. Através desta queda, Pedro, e com ele a Igreja de todos os tempos, deve aprender que a própria força não basta por si mesma para edificar e guiar a Igreja do Senhor. Ninguém pode consegui-lo com suas próprias forças apenas.

Mesmo que Pedro pareça capaz e valente, fracassa já no primeiro momento da provação. “Tu, uma vez convertido”. O Senhor prediz sua queda, mas lhe promete também a conversão: “e o Senhor voltou-se e olhou para Pedro…” (Lc 22,61). O olhar de Jesus opera a transformação e é a salvação de Pedro. Ele, “saindo, começou a chorar amargamente” (Lc 22,62).

Queremos implorar sempre de novo este olhar salvador de Jesus: por todos os que desempenham uma responsabilidade na Igreja, por todos os que sofrem as confusões deste tempo, pelos grandes e pelos pequenos: Senhor, olha-nos sempre de novo e assim levanta-nos de todas as nossas quedas e toma-nos em tuas mãos amorosas.

O Senhor encarrega Pedro da tarefa de confirmar seus irmãos com a promessa de sua oração. O encargo de Pedro se apóia na oração de Jesus. Isto é o que lhe dá a segurança de perseverar através de todas as misérias humanas. E o Senhor lhe dá esta tarefa no contexto da Ceia, em conexão com o dom da Santíssima Eucaristia. Em sua realidade íntima, a Igreja, fundada no sacramento da Eucaristia, é comunidade eucarística e assim comunhão no Corpo do Senhor. A tarefa de Pedro consiste em presidir esta comunhão universal, em mantê-la presente no mundo como unidade também visível. Como diz Santo Inácio de Antioquia, ele, juntamente com toda a Igreja de Roma, deve presidir na caridade, a comunidade de amor que provém de Cristo e que supera sempre de novo os limites do particular para levar o amor de Cristo até os confins da terra.

A terceira referência ao Primado encontra-se no Evangelho de São João (Jo 21,15-19). O Senhor ressuscitou e, como ressuscitado, incumbe a Pedro seu rebanho. Também aqui se compenetram mutuamente a cruz e a ressurreição. Jesus prediz a Pedro que seu caminho o levará até a cruz. Nesta basílica, construída sobre o túmulo de Pedro, um túmulo de pobres, vemos que o Senhor precisamente assim, através da cruz, vence sempre. Não exerce seu poder como se costuma fazer neste mundo. É o poder do bem, da verdade e do amor, que é mais forte que a morte. Sim, como vemos, sua promessa é verdadeira: os poderes da morte, as portas do Inferno, não prevalecerão contra a Igreja que edificou sobre Pedro (cf. Mt 16,18) e que ele, exatamente deste modo, continua edificando pessoalmente.

Nesta solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo, dirijo-me de modo especial a vós, queridos arcebispos metropolitanos, que viestes de numerosos países do mundo para receber o pálio das mãos do Sucessor de Pedro. Saúdo-vos cordialmente e àquelas pessoas que vos acompanham.

Saúdo também, com particular alegria, à delegação do Patriarcado ecumênico presidida por Sua Eminência Joannis Zizioulas, metropolita de Pérgamo, presidente da comissão mista internacional para o diálogo teológico entre católicos e ortodoxos. Expresso meu agradecimento ao Patriarca Bartolomeu I e ao Santo Sínodo por este sinal de fraternidade, que manifesta o desejo e o compromisso de progredir mais rapidamente no caminho da unidade plena que Cristo implorou para todos os seus discípulos.

Compartilhamos o desejo ardente expresso um dia pelo Patriarca Atenágoras e pelo Papa Paulo VI: beber juntos do mesmo cálice e comer juntos o mesmo Pão, que é o Senhor mesmo. Nesta ocasião imploramos de novo que nos seja concedido logo este dom. E damos graças ao Senhor por nos encontrarmos unidos na confissão que Pedro fez em Cesaréia de Filipe por todos os discípulos: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Esta confissão queremos levá-la juntos ao mundo de hoje.

Que o Senhor nos ajude a sermos, justamente neste momento de nossa história, autênticas testemunhas de seus sofrimentos de participantes da glória que está para manifestar-se (1Pd 5,1). Amém.

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