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No final da assim chamada Idade Média…

outubro 23, 2006

O materialismo diz que o pensamento é pura química dentro do cérebro. Somos apenas átomos amontoados pelo acaso das condições iniciais e pela necessidade das leis naturais.

Se é assim, como podemos confiar no materialismo? Não é também a idéia do materialismo apenas um jeito de arrumar os átomos dentro de nossas cabeças? Como atribuir universalidade a um conceito filosófico se este é, na verdade, apenas um arranjo particular de elementos químicos? Como dizer que este amontoado de átomos é verdadeiro enquanto outro amontoado é falso?

O materialismo é contraditório, mesmo sendo a crença de muitos cientistas que gostam do rigor lógico.

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Na Idade Média a inteligência se elevou com a ajuda da fé. Santo Tomás de Aquino mostrou que fé e razão se equilibram numa visão harmoniosa da realidade. O final da Idade Média, contudo, registrou o aparecimento de novas maneiras de pensar que destruíram essa harmonia. A antítese do pensamento de Santo Tomás é o pensamento de Guilherme de Ockham (1280-1349+).

Ockham estudou em Oxford, e foi aluno do Beato John Duns Scotus (1266-1308+) . Segundo a “Catholic Encyclopedia” (edição de 1917):

“Em filosofia Guilherme defendia uma reforma da escolástica tanto no método como no conteúdo. O objetivo deste movimento de reforma, em linhas gerais, era a simplificação. Este objetivo foi formulado na bem conhecida “lei da economia”, comumente chamada de “navalha de Ockham”: “Não multiplicar desnecessariamente os entes”. A esta tendência para simplificação estava unida uma notável inclinação ao ceticismo sobre a capacidade da mente humana de obter certeza nos problemas mais importantes da filosofia. Logo, no processo de simplificação ele negou a existência de espécies intencionais, rejeitou a distinção entre essência e existência, e protestou contra a doutrina tomista sobre os intelectos ativo e passivo. Seu ceticismo aparece claramente quando nega à razão humana a capacidade de provar a imortalidade da alma, bem como a existência, unidade e infinidade de Deus. Estas verdades, ensina Guilherme de Ockham, são por nós conhecidas apenas por meio da Revelação. Sua ética é voluntarista, mantendo que toda distinção entre o certo e o errado depende tão somente da vontade de Deus. Sua mais conhecida contribuição para a filosofia escolástica é sua teoria sobre os universais, que é uma forma modificada de nominalismo, mais próxima ao conceitualismo que ao nominalismo de tipo extremo. O universal, diz, não possui existência real. As coisas reais nos são conhecidas por meio do conhecimento intuitivo, e não por abstração. O universal é o objeto do conhecimento abstrativo. Portanto, o conceito universal tem por objeto não uma realidade que existe no mundo externo, mas uma representação interna que é um produto do próprio ato cognitivo, sendo o universal o termo deste ato. Logo o universal não é apenas uma palavra, mas o substituto mental das coisas reais, e o termo do processo reflexivo”.

Este resumo da doutrina ockhamista parece abstrato e sem efeitos práticos.

Mas, na verdade, o pensamento de Ockham foi devastador para a filosofia.

Em Ockham aparece a revolta da inteligência contra si mesma e contra Deus, marca da modernidade.

Quando Ockham quis reformar a filosofia, simplificando tudo, ele iniciou uma autêntica revolução do pensamento.

Lutero e Calvino foram influenciados por Ockham e suas idéias voluntaristas. Para os pais do protestantismo, Deus é um déspota que escolhe arbitrariamente quem vai para o Céu e quem vai para o Inferno. A falsa reforma protestante foi ockhamista na medida em que exaltou a vontade divina negando o valor da razão e da liberdade do homem.

O irracionalismo protestante se traduz na negação dos dogmas em teologia e na afirmação do sentimento como base da fé.

Ao dizer que a inteligência humana é imprestável para as questões metafísicas, o ockhamismo criou um desequilíbrio que hipertrofiou as ciências naturais. A física, a química e a biologia tomaram o lugar da filosofia do ser. Sem essa hipertrofia, talvez o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Ocidente tivesse sido mais lento. Seriam, contudo, evitadas as grandes crises revolucionárias que mataram dezenas de milhões de pessoas nos últimos séculos.

Quando indagado por Napoleão sobre o papel de Deus no sistema do mundo, Laplace declarou: “Sire, não precisei desta hipótese”.

Deus tornou-se, para a modernidade, um ente desnecessário.

Deixando de fazer as perguntas essenciais, alimentando-se das migalhas da ciência natural, o homem moderno acha que não precisa de Deus, que é auto-suficiente.

O homem moderno não é racional, mas contra a razão. A razão moderna é mutilada, privada do seu objeto natural, que é o ser, forçada a se alimentar das migalhas que são as aparências das coisas.

A razão entronizada como uma prostituta em Notre Dame é um ícone do nosso tempo.

E tudo começou lá, no final da Idade Média.

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