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O salto do crer

dezembro 23, 2007

É possível conciliar ciência e religião?

Segue declaração do ateu Sam Harris em entrevista publicada na revista Veja (edição de 26 de dezembro de 2007):

“A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual”.

Sam Harris faz parte de uma geração de pensadores ateus que odeiam todo o tipo de religião (outros como ele são Richard Dawkins e Cristopher Hitchens). Os argumentos desses ateus não são novos e já foram refutados mil vezes. O parágrafo que isolei aqui ilustra toda essa falta de originalidade. Nele se vê a reciclagem do cientismo do século XIX, que fazia da ciência natural o único caminho para se alcançar a verdade sobre tudo. Os seguidores do cientismo só esqueceram de se perguntar se a ciência natural prova que a ciência natural é o único caminho racional para se alcançar a verdade sobre tudo…

O cientismo é fruto de uma metafísica materialista que de científica não tem nada. Um sujeito como Harris ou Dawkins só acreditaria em Deus se pudesse vê-lo no microscópio ou detectá-lo numa câmara de bolhas.

A ciência experimental não se sustenta no cientismo. Ela se sustenta sobre a fé que ultrapassa a razão.

A ciência experimental depende de uma crença, a crença na racionalidade da natureza, na regularidade de suas leis. Ter fé na ordem do mundo é o que leva um cientista a construir um laboratório.

A ciência não explica porque funciona, não dá provas de sua legitimidade epistemológica.

O conhecimento científico, portanto, é tão válido quanto o suposto “fingir saber” que o Sr. Harris condena severamente na religião. “Fingimos saber” (porque temos fé) que o Universo possui padrões matemáticos em sua estrutura.

A razão nos diz que há outras formas de conhecimento além das ciências naturais.

A fé, para o cristão, é um ato da vontade sob a ação da graça que se fundamenta em dados objetivos. A existência de Cristo, seus milagres, sua doutrina, sua ressurreição, a Igreja que ele fundou, os santos, são evidências a favor da fé que, se não são do mesmo tipo exigido pela física ou pela química, ainda assim são perfeitamente legítimas.

“Pouca ciência nos afasta de Deus, muita ciência nos aproxima” (Louis Pasteur, 1822-1895)

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  1. Roberto permalink
    dezembro 27, 2009 12:49 pm

    Ewerton –
    Vc escreveu isto: “A fé, para o cristão, é um ato da vontade sob a ação da graça que se fundamenta em dados objetivos.” Está correto, corretíssimo. Entretanto, peço vênia para lembrar um fato crucial: por trás do pessoal ato de fé existe certa misteriosa escolha divina. Esse mistério – infelizmente – muitas vezes não é lembrado. Aliás, vivemos numa época meio ou bastante insensível ao mistério.

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