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Dissecando um mito

dezembro 27, 2007

Tirado do sítio http://www.catholic.org/national/national_story.php?id=20600. Adaptação do texto original de Nancy Frazier O’Brien.

O que um Papa eleito no final do século XIII tem a ver com o debate sobre células-tronco embrionárias no senado dos Estados Unidos?

O Papa Bonifácio VIII, mais conhecido por seus esforços para garantir o exercício do poder temporal sobre a monarquia francesa, foi citado – embora não identificado corretamente – pelo senador Arlen Specter (Republicano – Pennsylvania), no dia 18 de Julho de 2006, como representante dos líderes religiosos que frearam o progresso científico ao longo dos séculos.

“O Papa Bonifácio VII [sic!] baniu a prática da dissecação de cadáveres no século XIII”, afirmou Specter. “O que parou a prática por mais de 300 anos e desacelerou o progresso no conhecimento da anatomia humana”.

Bonifácio VII, antipapa durante três períodos de tempo distintos no final dos anos 900, certamente não é o Papa ao qual Specter está a se referir. Bonifácio VIII, por outro lado, foi Pontífice entre os anos de 1294 e 1303.

Contudo, a maior parte das fontes históricas afirma que nenhum dos Bonifácios, ou qualquer outro Papa, foi responsável pelo banimento citado por Specter.

A “New Catholic Encyclopedia”, no verbete sobre o Papa Bonifácio VIII, não faz menção a qualquer documento papal relacionado com a prática de dissecação, mas outras fontes citam a possível causa desta confusão na bula “De Sepulturis”, de 1300.

“Pessoas cortando os corpos dos mortos, cozinhando-os barbaramente para separar a carne dos ossos e enterrá-los […] são por isto mesmo excomungadas”, afirma uma tradução do referido documento.

Lê-se na “Catholic Encyclopedia”: “A única explicação possível para o mal-entendido de que a bula proibia a dissecação é que alguém a tenha lido apenas parcialmente e tenha considerado que […] um dos métodos de preparação dos corpos para estudos de anatomia era a fervura – que permitia remover os tecidos moles com mais facilidade – (e) que este decreto proibia tais práticas”.

Em seu livro “A História da Medicina”, publicado em 1845, o alemão Heinrich Haesar afirma que a dissecação de cadáveres prosseguiu sem problemas nas universidades européias durante a Idade Média, e sob os olhares das autoridades eclesiásticas.

A “Catholic Encyclopedia”, no verbete “anatomia”, afirma que Guy de Chauliac, considerado pai da cirurgia moderna, encorajava o uso da dissecação em estudos anatômicos no século XIV e insistia “na necessidade de dissecar corpos humanos se se deseja fazer qualquer progresso na prática cirúrgica”.

Como de Chauliac foi cirurgião pessoal de três papas e encorajou a dissecação enquanto membro da casa pontifícia, “este fato por si só parece suficiente para se declarar definitivamente que não havia nenhuma norma papal, real ou suposta, proibindo a prática da dissecação do corpo humano naquele tempo”, lemos na enciclopédia.

Em seu discurso no senado, Specter disse que uma das vítimas do banimento papal foi o espanhol Miguel Servetus, que “usava a dissecação de cadáveres para estudar a circulação do sangue” no século XVI e foi “julgado e preso pela Igreja Católica”.

Embora seja verdade que Servetus tenha recebido o crédito como primeiro a descrever acuradamente a circulação do sangue nos pulmões, e tenha realmente usado cadáveres em suas atividades científicas, tal fato parece não ter tido nenhum papel em sua prisão, julgamento e execução em 1553.

A “Sociedade Internacional Servetus”, fundada para promover e preservar o legado de Servetus como um “gigante intelectual, modelo de integridade e exemplo na luta pela liberdade de consciência” afirma que o espanhol teve problemas com as autoridades católicas por rejeitar a Trindade, o batismo de crianças e o pecado original, nunca tendo sido acusado por suas atividades como médico ou cientista.

Servetus também desafiou os ensinamentos do reformador protestante francês João Calvino, cujos seguidores controlavam o governo secular em vários cantões suíços. Preso num serviço religioso em Genebra [a “Roma” calvinista], Servetus foi acusado de heresia e condenado à morte.

Calvino pediu a Servetus que aceitasse uma forma de execução mais “humana”: a decapitação, mas este acabou sendo queimado vivo junto com seus livros.

Da biografia de Servetus preparada pela Sociedade: “O próprio Calvino jamais lamentou o fato, mas os católicos não o esqueceram, e por gerações onde quer que os protestantes acusassem os católicos pelo modo como tratavam os hereges protestantes, os católicos respondiam lembrando o tratamento dado a Servetus por Calvino”.

A Inquisição na França julgou Servetus posteriormente, condenando-o a ser queimado em efígie [simbolicamente].

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