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Ciência das trevas

maio 31, 2008

Tornou-se lugar comum nos meios “iluminados” acusar a Igreja de oposição ao progresso científico. Foi o que se viu no recente julgamento do STF sobre o uso de embriões humanos para pesquisa. A imprensa, em todas as suas formas, usou sua influência para garantir a liberação dos estudos com células tronco de embriões. Para isso demonizou os opositores: quem não concorda conosco é fanático, obscurantista e teocrata (*).

Ao negar aos religiosos o direito de se manifestar em questões de interesse público, juízes, imprensa, cientistas e governo impõem uma visão utilitarista e materialista a toda a sociedade. Sob o pretexto de separação entre Igreja e Estado, mandam os que crêem calar a boca, ainda que estes tenham argumentos baseados apenas na razão.

Nossas “elites” estão a preparar, de fato, uma tirania mil vezes pior que a soma dos excessos de todas as inquisições, cruzadas e guerras religiosas.

Damos os primeiros passos na direção do “Admirável Mundo Novo” de Huxley, onde o Estado determina como devemos viver e em quais valores devemos acreditar.

Quais serão os próximos passos? A legalização do aborto, deve estar logo adiante. Primeiro o aborto dos anencéfalos. Depois, das crianças com algum tipo de malformação. Logo, o aborto por razões psicológicas, econômicas, ou por qualquer desculpa esfarrapada, ou ainda o aborto pelo aborto, simplesmente porque “eu quero” e “eu sou dona do meu corpo”.

A legalização da eutanásia deve vir logo depois. Se dependesse apenas de nossas “elites” esclarecidas, penso que estaríamos já há muito tempo naquela “vanguarda” formada por Holanda ou Suécia, com leis extremamente liberais para tirar as vidas dos mais fracos.

Tenho muito receio diante da manipulação da natureza humana por cientistas.

Uma ciência que não possui limites éticos, que utiliza seres humanos indefesos como cobaias, como fonte de peças de reposição, será provavelmente a causa da extinção de tudo o que é humano.

(*) O episódio de Galileu Galilei (1564-1642) não foi esquecido nas discussões. É um velho cavalo de batalha dos que odeiam a Igreja (mesmo sabendo que Galileu morreu como fiel católico).

Em plena contra-reforma católica, na hora em que o livre exame protestante da Bíblia era condenado pela Igreja, Galileu Galilei teve a idéia de interpretar do seu jeito certas passagens da Escritura que conflitavam com o heliocentrismo (por exemplo, Js 10,12s; 1Cr 16,30; Sl 92,1; Sl 95,10).

Do ponto de vista científico, Galileu não tinha nenhuma prova experimental para o movimento da Terra em torno do Sol, e nem um modelo matemático dos movimentos planetários superior ao sistema geocêntrico de Cláudio Ptolomeu (depois de 83-161 d.C.). Quando Johannes Kepler (1571-1630), a partir das medidas minuciosas de Tycho Brahe (1546-1601), deduziu que os planetas deviam se mover em órbitas elípticas em torno do Sol, foi ignorado por Galileu.

Condenado pela primeira vez em 1616, Galileu foi novamente processado e condenado em 1633. O físico insistiu em defender o sistema solar contra as ordens explícitas do Santo Ofício. Pesou muito para a segunda condenação o fato de Galileu ter exposto ao ridículo um amigo e benfeitor, ninguém mais ninguém menos que o próprio Papa, Urbano VIII (que tinha se posicionado como cardeal contra a condenação de 1616), em seu “Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo”. Neste livro Galileu inventa três personagens, Salviati, Sagredo e Simplício, que discutem durante quatro dias seguidos diversas questões ligadas ao heliocentrismo. Salviati representa Galileu, o sábio, que defende o sistema heliocêntrico, enquanto Sagredo desempenha o papel de juiz e comentador do debate entre Salviati e Simplício, este último um obstinado defensor do sistema geocêntrico de Ptolomeu e da física de Aristóteles. Ao longo dos quatro dias de discussão descritos no livro, a argumentação de Simplício é destroçada por Salviati. No último dia de debate, um dos argumentos postos na boca de Simplício por Galileu é o preferido do Papa (e que o próprio Papa pediu a Galileu para incluir em todos os seus trabalhos que tocassem no assunto), a saber, que a onipotência divina pode dar ao mundo uma aparência completamente distinta da realidade e que, portanto, a ciência não pode dar uma certeza absoluta sobre os movimentos dos astros. A resposta de Salviati (que é o alter ego de Galileu no livro) é desdenhosa, e vai na linha de algo como: “sendo assim, podemos investigar a constituição do mundo desde que não tenhamos a pretensão de saber algo sobre a constituição do mundo”.

O julgamento de Galileu pelas autoridades eclesiásticas não foi isentos de falhas, sem dúvida. Uma perspectiva mais matizada deve levar em conta que ambos, o tribunal e o réu, tinham bons e maus motivos para agir como agiram. Entretanto, fazer deste episódio isolado (fora o heliocentrismo, nenhuma doutrina científica moderna, nem mesmo o evolucionismo, foi alvo de condenação por um tribunal eclesiástico) uma peça de propaganda contra a religião é algo que só pode brotar da ignorância ou da desonestidade intelectual.

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