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Ponto de partida

janeiro 30, 2009

A ciência não surgiu na Grécia, na China, na Índia, entre os muçulmanos ou na civilização maia. Muitas culturas anteriores ou contemporâneas da Europa medieval tiveram grande desenvolvimento na tecnologia, na matemática e na filosofia, mas nenhuma delas foi capaz de criar o método científico experimental.

Por que a Europa cristã descobriu a ciência? O que ela tinha que outras culturas não tinham?

Para chegar a uma resposta, precisamos estabelecer as condições para o desenvolvimento da ciência experimental.

Primeiro: a ciência depende da crença na realidade da natureza.

Isto torna a religiosidade hindu desfavorável ao nascimento da ciência. Para o hinduísmo, nada é real, o Universo é uma ilusão (maya).

Segundo: a ciência depende da crença na bondade da natureza.

Se se acredita que o Universo material é desprezível, o método experimental perde motivação.

Os gregos, embora tenham alcançado um elevado nível de desenvolvimento na filosofia, chegando até mesmo a formular uma teoria atômica (Demócrito e Leucipo), não viam quase nunca a necessidade de investigar experimentalmente o mundo natural (*). As coisas materiais eram inferiores. Platão afirmava que o mundo material era uma cópia grosseira e imperfeita do mundo das Idéias.

Terceiro: a ciência depende da crença numa ordem natural que pode ser conhecida pelo homem.

Os chineses acreditavam numa ordem cósmica, mas consideravam-na inacessível ao entendimento.

No Islão há apenas um Deus e o Universo é sua criação. Não existem, porém, leis naturais nem causalidade segunda. Uma vontade divina imprevisível determina todas as coisas diretamente (**).

Os maias e outros povos pagãos (egípcios, sumérios, assírios e babilônios) tinham avançadas técnicas na agricultura e na engenharia, mas mantinham-se aferrados à idéia de que o mundo natural era governado por deuses caprichosos, sendo necessário apaziguá-los para evitar a instauração do caos no mundo.

A astrologia, a crença no domínio dos astros sobre os destinos humanos, desempenhou um papel importante em todas as culturas mencionadas.

Olhemos agora para a cultura européia, que se formou a partir das tradições judaico-cristãs e do legado greco-romano.

O cristianismo afirma uma série de coisas sobre o mundo natural, que coincidem com a lista de condições que acabei de enumerar:

O Universo visível é real.

O Universo visível é bom.

O Universo foi criado por Deus com ordem e medida inteligíveis.

Deus é Logos, ou seja, não é puro arbítrio, mas também conhecimento.

As criaturas nos dizem algo sobre a natureza de Deus (analogia entis): os atributos do ser criado estão para a natureza criada do mesmo modo que os atributos divinos estão para a natureza divina.

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Portanto, a mente do homem pode entender algo do Universo criado por Deus.

O Universo, para o cristão, não é dominado por almas ou deuses, nem pelo movimento dos planetas. Existem leis naturais instituídas por Deus.

Existe uma estrutura de causas segundas que pode ser investigada.

O Universo não é eterno, tem um princípio.

Todos esses dados que fazem parte da mentalidade judaico-cristã são reiterados nos escritos dos primeiros cientistas modernos – Copérnico, Galileu, Kepler, Pascal, Newton, só para citar alguns – e explicam como o nascimento da ciência ocorreu na Europa cristianizada.

Aqueles que acusam a Igreja de ser contra a ciência devem dobrar a língua: a Igreja não é inimiga da ciência, Nosso Senhor Jesus Cristo não é inimigo da ciência. Antes, a ciência nasceu e cresceu no solo fértil preparado pela Igreja.

Foi a Igreja que tirou a Europa do caos bárbaro e semeou escolas e Universidades.

A Igreja crê no valor do conhecimento científico.

(*) Salvo um ou outro, como Arquimedes na física e Aristóteles na biologia. Mesmo nesses dois casos podemos apontar limites: Aristóteles desenvolveu sua física, repleta de erros, sem seguir a metodologia experimental que usou em biologia. Arquimedes fez importantes descobertas experimentais, mas estimulado principalmente pela busca de aplicações práticas, como a fabricação de máquinas e armas.

(**) Há exceções que confirmam a regra, como Averróes, bastante criticado por estudiosos islâmicos ortodoxos.

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