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Deus ou Darwin? Parte 1

fevereiro 9, 2009
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Esta semana a revista Veja apresenta uma extensa reportagem sobre Charles Darwin e sua teoria da evolução em confronto com o criacionismo.

Em azul, trechos da reportagem de Veja. Em preto, meus comentários.

Veja, 11 de fevereiro de 2009

por Gabriela Carelli

A Darwin o que é de Darwin

“Charles Darwin é um paradoxo moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia, incluindo a medicina e a biotecnologia, simplesmente não faria sentido.”

A expressão “teoria da evolução” inclui não apenas a teoria sintética da evolução, que chamaremos aqui de TSE (*), mas também qualquer outro sistema que afirme a variação das espécies dos seres vivos com o tempo.

O que distingue a TSE dos outros sistemas é o “motor” da evolução, ou seja, aquilo que faz as espécies evoluírem.

No caso da TSE, que é a forma de evolucionismo da reportagem de Veja, o “motor” é formado por duas partes:

Primeira parte: MA, mutação genética aleatória que altera as características de um organismo.

Segunda parte: SN, seleção natural, que tende a preservar e multiplicar os organismos com MAs que melhoram sua sobrevivência e capacidade de reprodução, ao mesmo tempo que elimina os organismos com MAs prejudiciais.

MA é o elemento de acaso e SN é o elemento de necessidade (ou ordem) na TSE.

A cada geração, a proporção de espécimes com mutações benéficas tende a aumentar, enquanto os espécimes sem a mutação favorável tendem a diminuir em número e desaparecer. A espécie X evolui e se transforma em X+dX. A soma de pequenas mudanças dX ao longo do tempo pode levar ao surgimento de uma espécie distinta Y, ou mesmo de várias espécies: Y1, Y2, Y3,…, Yn (a população original pode se dispersar ao longo de habitats geograficamente isolados, formando grupos que evoluem e se adaptam de modo independente) (**).

A evolução darwiniana é lenta e gradual, sendo necessárias milhares ou milhões de gerações para que novas espécies se diferenciem significativamente.

Não é preciso aceitar o “motor”  MA+SN para afirmar que existe um processo evolutivo. É perfeitamente possível que outros mecanismos estejam por trás da evolução, que o mecanismo darwiniano seja válido como explicação apenas em certos casos.

Um exemplo em que a TSE funciona bem é dado pelas bactérias que desenvolvem resistência aos antibióticos, ou nas mutações que impedem a criação de uma vacina definitiva contra a gripe.

A explicação do surgimento de níveis taxonômicos superiores pelo “motor” MA+SN, por outro lado, pode ser questionada.

Não há prova rigorosa, empírica ou teórica, de que o “motor” MA+SN seja potente o bastante para promover a evolução de níveis taxonômicos superiores.

Não existe um mapa do espaço de todas as espécies possíveis em todos os habitats possíveis, e não temos idéia do tamanho dos obstáculos que separam as famílias de espécies. É possível que alguns desses obstáculos sejam pequenos e fáceis de transpor, exigindo pouco esforço do “motor” MA+SN.

Contudo, não se pode excluir a possibilidade de obstáculos maiores e intransponíveis para pequenos saltos graduais.

A afirmação de que a biologia e todas as ciências que lhe são relacionadas só fazem sentido à luz da TSE é extremamente exagerada. Espera-se da TSE bem mais do que aquilo que ela realmente é.

Não há nenhuma grande descoberta em biologia que dependa, essencialmente, da crença na TSE.

Mesmo os antibióticos desenvolvidos pelo homem não foram obtidos graças ao conhecimento que os pesquisadores tinham da teoria de Darwin.

A TSE possui pouco poder preditivo.

E o quadro para a TSE como explicação total piora ainda mais diante das descobertas da bioquímica sobre a complexidade da célula, a unidade básica de praticamente todos os seres vivos (excluídos os vírus).

(*) Note-se que o texto de Veja não faz distinção entre as idéias originais de Darwin, propostas no livro “A Origem das Espécies”, publicado em 1859, e a teoria sintética da evolução (TSE), chamada por alguns, inapropriadamente, de neodarwinismo. A TSE se desenvolveu entre os anos 30 e 50 com contribuições dos mais diferentes campos da biologia, especialmente da genética de populações. A TSE incorpora a doutrina genética mendeliana (Gregor Mendel, padre católico).

(**) A descrição do processo evolutivo na TSE é aqui um tanto simplificada. O isolamento geográfico entre grupos de organismos, por exemplo, pode não ser completo e pequenas populações isoladas ou quase isoladas podem sofrer com efeitos estatísticos que reduzem o poder de ação da seleção natural (efeito conhecido como deriva genética).

“Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o único bom argumento disponível para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada indivíduo.”

Irritação, medo, religiosidade… os opositores de Darwin são irracionais. É este o ponto?

Existem pessoas que rejeitam a TSE por motivações ideológicas ou emocionais, é certo. Mas não é correto concluir que todos os que questionam a TSE o fazem por ignorância. Há uma série de boas razões científicas para colocar a ortodoxia darwinista em cheque.

E mais: Darwin não “enfraqueceu o único bom argumento disponível para a existência de Deus”. Primeiro porque não existe apenas um bom argumento para se crer que Deus existe. Existem vários. Santo Tomás apresenta cinco na Suma Teológica, e nenhum deles foi refutado. Pode-se começar pela contingência do mundo, do fato de nada possuir em si mesmo a razão de sua existência. Pode-se usar o princípio da causalidade (que implica numa causa última sem causa). Pode-se também partir da consideração do movimento, que é a passagem da potência ao ato, ou da gradualidade do ser, que implica na existência de um único ser perfeito, Deus. Pode-se mencionar também o argumento da ordem natural, da qual depende a própria ciência: as leis da natureza foram instituídas por Deus (***).

Mesmo que a TSE seja verdadeira, ela não prova que o universo é absurdo e fruto do acaso. As leis da física precedem e fundamentam o mecanismo darwiniano, e delas se infere a existência de uma inteligência que ultrapassa o mundo natural.

É possível ser religioso e crer na TSE? Sim, é possível. O que os ateus chamam de acaso ou ausência de propósito é apenas ignorância. Deus conhece e ordena toda a criação, e pode ter mascarado sua ação com elementos aparentemente aleatórios.

(***) Para uma descrição mais detalhada dos argumentos de Santo Tomás, ver este link (em inglês).

“Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: “Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal”. Pelo raciocínio do pai da psicanálise, a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o “rebaixamento” da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.”

É um mito que a centralidade espacial de nosso planeta tenha sido relevante para a teologia cristã.

Para Aristóteles, que dominou a cena científica da Europa no fim da Idade Média, a Terra era o lugar mais baixo e vil de todo o universo.

Para os teólogos medievais, o Inferno ficava exatamente no centro do universo, ou seja, no centro da Terra.

Segundo Ptolomeu, que formulou o modelo geocêntrico, o nosso mundo devia ser tratado como um ponto geométrico em comparação com o tamanho do espaço exterior onde se moviam as estrelas e os demais planetas.

Também filósofos e pensadores muito antes de Darwin, bem como mitologias e cosmogonias antigas, consideravam o homem como um ser tirado de elementos materiais inferiores. Basta ler o Gênesis, por exemplo, onde está escrito que o primeiro homem, Adão, foi feito a partir do pó da terra.

O que torna nossa espécie singular não é a localização espacial ou sua origem material, mas o fato de que cada ser humano possui um sopro divino, uma alma imortal, única, que vale mais do que todas as galáxias reunidas.

“Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra.”

Falso e absurdo. Primeiro porque a própria TSE não atribui ao acaso papel dominante. Quem governa o processo é a seleção natural, que aproveita o “lixo” produzido pelas mutações aleatórias em busca de algo que possa ser aproveitado. Segundo, porque não se pode inferir de uma ciência experimental uma verdade metafísica. Não se pode concluir da biologia (ou da física, ou da matemática) um sentido para a existência humana. São ordens de conhecimento distintas, com métodos próprios. Além disso, a ciência experimental não possui precedência epistemológica sobre a metafísica. A ciência experimental depende de certas suposições metafísicas, e não o contrário.

Esta declaração no meio do texto, contudo, é reveladora. O texto de Veja mostra que a crença em Darwin, para os materialistas, serve como trampolim para a negação de Deus. Não é de espantar que existam crentes contrários ao evolucionismo darwinista. É uma reação natural ao fundamentalismo anti-religioso que se serve da TSE para promover sua visão de mundo.

“Uma pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia. De modo geral, a crença na evolução é inversamente proporcional à crença em Deus.”

Isto não me surpreende. A TSE pode ser facilmente usada para justificar o ateísmo e um modo de vida hedonista.

“A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir.”

Um pouco de humildade “científica” não faz mal, não é mesmo?

É verdade, não sabemos nada sobre o que havia antes do Big Bang. Por outro lado, sabemos, sim, boa parte do que aconteceu no intervalo de tempo entre 10^-43 segundo (0,  42 zeros e depois o número 1), o tempo de Planck, e 3 minutos após o Big Bang. As leis da física não começaram a existir aos três minutos do tempo cósmico. Elas são conhecidas, ao menos aproximadamente, a partir do tempo de Planck.

“O fato é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.”

Colocar todos os “criacionistas” numa mesma categoria, sem distinções, é injusto. Existem vários criacionismos, que vão desde uma interpretação literal do Gênesis até a crença numa evolução guiada por Deus através do mecanismo proposto na TSE. Criacionismo é crer que o universo foi criado, e nada mais. É uma definição muito ampla, na qual cabem muitas perspectivas diferentes e mesmo incompatíveis entre si.

O ensino do criacionismo (em qualquer uma de suas várias versões) nas aulas de biologia não pode ser proibido pelo Estado . Penso, contudo, que é interessante mostrar as lacunas da TSE nos cursos de biologia e apontar claramente que esta teoria científica não é necessariamente incompatível com uma visão religiosa do mundo natural.

“Manda o bom senso que não se misturem ciência e religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda, os do mundo espiritual.”

A idéia de dois magistérios estanques, o da ciência e o da religião – lançada por Stephen Jay Gould, famoso paleontólogo e biólogo evolucionista – colide com o que o próprio texto de Veja disse algumas linhas atrás: “concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra”.

“É espantoso que, enquanto continuam a desbravar territórios na ciência, as ideias de Darwin ainda despertem tanto temor.”

As idéias de Darwin não despertam temores à toa, pois quase sempre são usadas como arma contra Deus e a religião. Enquanto não se separar claramente a ciência da metafísica materialista, a TSE será recebida em meios religiosos com hostilidade não menor que aquela que seus defensores ateus oferecem ao criacionismo.

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