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Deus ou Darwin? Parte 2

fevereiro 10, 2009
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Continuo a fazer meus comentários sobre a reportagem da revista Veja a respeito de Darwin e o criacionismo, publicada na edição do dia 11 de fevereiro. Veja em azul, eu em preto.

Onde Darwin é só mais uma teoria

“Os criacionistas americanos se reúnem em organizações influentes e com forte lobby político. De tempos em tempos eles aperfeiçoam seu arsenal de argumentos para desqualificar Darwin. Um dos mais recentes é que certos elementos da natureza são tão complexos que só podem ter sido criados por uma inteligência superior. Como o olho humano. No reino animal, um bom exemplo de design inteligente é o besouro-bombardeiro, chamado de “o besouro de Deus”. Comum em várias regiões do mundo, esse artrópode é dono de um sistema de ataque que lembra uma complexa arma militar. Duas bolsas localizadas em seu abdômen armazenam, separadamente, água oxigenada e hidroquinona, substâncias que entram em ebulição ao ser misturadas. Diante do predador, o besouro abre uma câmara de combustão e mistura os dois líquidos. Depois comprime a bolsa, disparando a solução tóxica por meio de um jato fortíssimo.

Os evolucionistas explicam que as substâncias que o besouro armazena são comumente produzidas por artrópodes, como também são corriqueiras nesses animais as vesículas de reserva de líquidos. Por acaso, ao longo da evolução, líquidos e bolsa se concentraram numa determinada espécie.”

No livro “A Caixa Preta de Darwin”, do bioquímico Michael Behe, a teoria do “design inteligente” é apresentada como alternativa à TSE usando apenas argumentos científicos, sem apelar para a Bíblia ou qualquer tradição religiosa. Behe selecionou com cuidado vários sistemas biológicos que podem exibir características de complexidade irredutível (*). Um desses sistemas é o mecanismo bioquímico da visão, e outro é o sistema ofensivo do besouro-bombardeiro. Behe afirma sobre este último:

“Tudo que podemos concluir a essa altura é que a evolução darwiniana pode ter ocorrido. Se conseguíssemos analisar os detalhes estruturais do besouro até a última proteína e enzima, se explicássemos todos esses detalhes com uma explanação darwiniana, poderíamos concordar com Dawkins [Richard Dawkins]. Por ora, no entanto, não temos como saber se os acréscimos graduais à nossa hipotética corrente evolucionária são “saltos” de uma única mutação ou vôos de helicóptero entre morrotes distantes” (A Caixa Preta de Darwin, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997, p. 45).

A proposta do “design inteligente” (passo a chamá-la de DI) não nega completamente a TSE. De fato, os defensores do DI dizem que a TSE pode explicar muita coisa. A proposta do DI não é dizer que tudo em biologia é resultado de DI ou que a TSE é completamente falsa.

Deve existir espaço na ciência para a investigação da validade e dos limites de várias teorias e modelos. A aplicabilidade da TSE em alguns casos não é motivo para aceitá-la de modo acrítico: Darwin não pode ser tratado como dogma em biologia.

O DI não diz nada sobre a natureza do “designer” dos sistemas biológicos de complexidade irredutível. Seria ele Deus? É possível, mas não necessário. Deus pode (e geralmente prefere) operar através de causas segundas. O “design” pode estar embutido nas leis da física e nas condições iniciais do universo. Também é possível imaginar que a vida em nosso planeta é obra de alguma civilização alienígena (**) que passou por aqui há bilhões de anos deixando as sementes dos sistemas biológicos programadas para evoluir de modo parcialmente darwiniano. Por conta disso, muitos criacionistas que aderem a uma interpretação literal da Bíblia rejeitam e criticam o DI, o que contradiz a reportagem de Veja que apresenta o DI como criacionismo disfarçado.

(*) Seja S um sistema que realiza uma função básica f. Diz-se que S possui complexidade irredutível (CI) se S contém em si um subsistema s formado por um conjunto de partes P1,…,Pn (n > 1) que não pode ser simplificado sem destruir f. O subsistema s é chamado de núcleo irredutível de S, e sua irredutibilidade significa que não existem outros sistemas de núcleo mais simples capazes de realizar f.

A probabilidade do processo de evolução darwiniana produzir de modo direto um sistema S com CI é muito baixa, uma vez que o sistema só possui funcionalidade se o seu núcleo s tiver todas as partes reunidas e dispostas corretamente. Não existem etapas graduais para que ocorra o processo de seleção natural.

(**) Até Richard Dawkins admite a idéia da vida na Terra ter sido semeada por extraterrestres em entrevista para o documentário “Expelled: No Intelligence Allowed”.

“De qualquer forma, a ideia de que os seres vivos são o resultado de um planejamento cuidadoso realizado por um designer inteligente não resiste ao menor exame. Veja o exemplo do engasgo, que pode levar uma pessoa à asfixia e à morte. Os seres humanos engasgam porque têm a laringe em posição muito baixa na garganta, se comparada à dos chimpanzés e à da maioria dos mamíferos. Esse arranjo adaptativo permite a modulação dos sons e, por consequência, a fala. É excelente do ponto de vista da sobrevivência da espécie, mas atrapalha quando se trata de respirar e comer ao mesmo tempo. Se o homem tivesse tido um designer mais inteligente, esse problema teria sido evitado com a simples colocação das tubulações – a da respiração e a da alimentação – bem distante uma da outra. É por isso que o biólogo Francisco Ayala, da Universidade da Califórnia, definiu a seleção natural como o “design sem um designer”.”

Aqui aparece um sofisma. O fato de um “design” ser imperfeito não significa ausência de “design”. Que o digam os engenheiros que projetam programas de computador ou motores de automóvel. O fato de o sistema operacional Windows vir com dezenas de bugs e falhas de segurança (estou sendo generoso…) não significa que as suas milhões de linha de código foram produzidas pelo acaso. Um motor de automóvel dos anos 30 chega a ser grotesco em comparação com um motor dos anos 2000: polui mais, gasta muito mais combustível, é bem mais barulhento e menos potente. Ninguém, contudo, diria que motores antigos foram feitos por macacos em uma oficina. A existência de uma falha de “design” pode ser atribuída a limitações de quem fez o projeto ou do sistema de produção, ou ainda a algum tipo de compromisso entre necessidades conflitantes. Enfim, não é motivo para negar a existência de “design”.

Alguém pode dizer: mas se Deus criou os seres vivos, se Deus os projetou, eles deveriam ser perfeitos, sem falhas como a possibilidade de engasgos. Um projetista perfeito implica necessariamente em projetos perfeitos.

Parece um bom argumento, mas falha por presumir que sabemos como funciona a mente de um projetista perfeito, que podemos penetrar nos raciocínios de uma mente infinita e atemporal. Temos capacidade de julgar Deus? De dizer como Deus deveria ter feito o mundo? Não estamos sendo arrogantes?

“O conceito de liberdade acadêmica é o tema central do primeiro filme destinado a panfletar as ideias criacionistas, Expelled: No Intelligence Allowed, lançado nos Estados Unidos há dez meses (e massacrado pela crítica). O filme denuncia uma suposta conspiração por parte da comunidade científica americana contra o criacionismo.”

Não sei se os repórteres de Veja, em sua pesquisa, assistiram o documentário “Expelled”. Eu já o vi e a denúncia que ele faz é pertinente, merecendo uma investigação mais aprofundada. É fato que cientistas, por defenderem o DI, sofreram e sofrem punições da Academia. Ateus e livres-pensadores dão as cartas na comunidade científica, perseguindo qualquer um que ouse contradizer o paradigma materialista.

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