Skip to content

Venter, o incoerente

julho 19, 2010
tags:

Trecho de entrevista concedida por Craig Venter à revista Veja do dia 14 de julho. Venter é o responsável pela criação da primeira célula com genoma sintético.

Veja:

O geneticista Francis Collins, também responsável pelo mapeamento do genoma humano, é cristão fervoroso. É possível conciliar religião e ciência?

Venter:

Não. É muito difícil ser um cientista de verdade e acreditar em Deus. Se um pesquisador supõe que algo ocorreu por intervenção divina, ele deixa de fazer a pergunta certa. Sem perguntas certas, sem questionamentos, não há ciência. O ser humano sempre tenta achar uma força misteriosa para explicar suas falhas, fraquezas e dúvidas. Mas a vida começa como o nascimento e termina com a morte. Se todas as pessoas aceitassem isso, aproveitariam mais sua vida, exigiriam mais de si mesmas e não desperdiçariam chances.

Scribebat:

Será que Galileu, Kepler, Newton e tantos outros cientistas crentes que lançaram os fundamentos da ciência moderna achavam difícil conciliar sua fé com o método científico? Será que o cientista que acredita em Deus, como Venter insinua, apela para uma intervenção divina a cada vez que encontra uma dificuldade? É claro que não.

Deus criou o Universo com uma estrutura causal cujos acidentes quantitativos podem ser estudados pela ciência. Esta, por outro lado, não possui e nem pretende ter as ferramentas necessárias para alcançar a causa primeira de tudo, que é Deus (isto cabe à Filosofia Primeira).

Um cientista que acredita em Deus deve obedecer aos mesmos padrões de rigor científico de um cientista que não acredita em Deus. Não existe, neste sentido, física cristã assim como não existe matemática muçulmana. Todas as hipóteses científicas que um cientista ateu propõe, desde que sejam realmente hipóteses científicas, podem ser abraçadas por um cientista crente. O que contará no final é se os experimentos refutam ou não o que é proposto.

O que diferencia o cientista crente do cientista ateu não é o modo de fazer ciência, mas as premissas que embasam a legitimidade racional do método científico. Para o crente, a existência de Deus garante que o Universo possui uma ordem que pode ser medida pelos métodos da ciência. Para o ateu, não há nenhuma garantia.

Há ainda uma contradição na parte final da argumentação de Venter. Se não existe Deus, não há propósito em nada do que fazemos. Como, então, falar em coisas tais como “aproveitar a vida”? Se não somos nada além de um breve ajuntamento de átomos entre duas noites eternas do nada, de que maneira esse pensamento pode nos fazer exigir mais de nós mesmos? Exigir mais para quê? Com que intenção? Para que serve uma vida que nada significa? Qual o valor das realizações de Venter ou de qualquer ser humano diante de um Universo em si mesmo absurdo, “pointless”?

Se Venter fosse um ser coerente com o próprio pensamento, indo até as últimas conseqüências, não estaria fazendo “células sintéticas”. Já teria cometido suicídio.

No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: