Skip to content

Meditações para antes da Semana Santa

março 27, 2012


Em preparação para a Semana Santa, transcrevo uma profecia das Escrituras que relata a Paixão de Cristo e faço algumas meditações.

***

1Quem poderia acreditar nisso que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor? 2Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos. 3Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele. 4Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. 5Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas. 6Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho; o Senhor fazia recair sobre ele o castigo das faltas de todos nós. 7Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.) 8Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender sua causa, quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo? 9Foi-lhe dada sepultura ao lado de facínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira. 10Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento; se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, terá uma posteridade duradoura, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor será por ele realizada. 11Após suportar em sua pessoa os tormentos, alegrar-se-á de conhecê-lo até o enlevo. O Justo, meu Servo, justificará muitos homens, e tomará sobre si suas iniquidades. 12Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados” (Livro do Profeta Isaías, capítulo 53, escrito mais de 700 anos antes do nascimento de Nosso Senhor).

***

Aqui nos deparamos com o mistério da Redenção. A humanidade, depois da queda de Adão e Eva, estava privada da graça de Deus, submersa no pecado, exilada num mundo de sofrimento e morte. Quanto mal, quantas injustiças, quantos crimes ao longo dos séculos! Quantas almas a perecer nas trevas, sem esperança, sem luz, sem salvação! Deus, porém, em sua infinita misericórdia, fez-se carne, fez-se um de nós, e morreu atrozmente numa cruz, consciente de cada pecado, de cada momento de dor, infelicidade e da agonia de cada ser humano que existiu, existe ou existirá, até o fim do mundo.

Sim, pois Nosso Senhor não morreu pela humanidade em abstrato, mas por todos individualmente. Ele morreu por mim, morreu por você, morreu pelos nossos antepassados, morreu pelos grandes e pelos pequenos, morreu inclusive pelos maiores criminosos, e até mesmo pelo pior genocida. Morreu conhecendo nos mínimos detalhes as ações, os pensamentos, os sentimentos de cada coração. Nada escapou, nenhum de nossos pecados deixou de ser assumido, carregado, suportado, castigado, naquela cruz, naquele dia.

***

Um peso tão grande de dor, o da cruz! Se fosse mensurável, se pudéssemos dividir um trilionésimo do que Nosso Senhor pelo número de partículas do Universo, ainda assim seria uma dor suficiente para matar todos os viventes. Os sofrimentos físicos de Nosso Senhor, de infinito mérito, não são capazes de refletir o seu sofrimento interior, o cálice amargo que lhe tinha sido preparado, o preço de nossa reconciliação!

Esmagado por nossos pecados! Não fosse pelo poder que tinha como Deus, não teria subsistido um instante. Suas últimas palavras não foram palavras de ódio e vingança contra nós, mas de misericórdia.

***

É comum ouvir dizer que nós matamos Nosso Senhor. A verdade, porém, é que não, nós não o matamos. “O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai” (Jo 10,17s). Não foi a humanidade, não foram nossos pecados, não foram nossos crimes, não foi o mal que venceu o Cristo. Foi Cristo quem venceu o mal e a morte, dando-nos em seu triunfo a vida divina. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). “Ora, a vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste” (Jo 17,3). A vida eterna é conhecer a Deus, não apenas de ouvir falar, não apenas a partir da filosofia ou da metafísica, mas por meio de um conhecimento direto, ou seja, através de uma forma de visão que ultrapassa o poder de nossa natureza. “Verão a sua face e o seu nome estará nas suas frontes” (Ap 22,4).

***

Como pode a humanidade de Cristo sofrer tanto e, ao mesmo tempo, ter em cada instante a visão beatífica, que é felicidade infinita? Neste paradoxo da fé esconde-se um grande mistério. Deus, em Cristo, quis unir todas as dores do mundo com sua própria felicidade, como uma montanha muito alta que, em sua base, é assolada por uma terrível tempestade, mas que, no topo, é iluminada pelo Sol. A cruz é um sinal de contradição: ela mostra que, para subir ao Céu, é preciso descer ao inferno, que para unir é preciso separar, que para amar é preciso ser odiado, que para vencer é preciso ser derrotado. Como escreveu Chesterton: “A cruz não pode ser derrotada. (…) Ela é Derrota.” (The Ball and the Cross)

***

Em cada padecimento, por mais cruel, por mais sem sentido, existe, a partir do momento em que nos unimos a Nosso Senhor Jesus Cristo, um potencial de bem-aventurança inesgotável.

Quanto mais unidos a Nosso Senhor, mas nos alegramos em suportar o sofrimento. “Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada sua glória” (1Pd 4,13). “Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações” (2Cor 1,5).

***

Per Crucem ad Lucem!

Stat Crux Dum Volvitur Orbis!

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: