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A árvore da vida

abril 4, 2012

No entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não pecaram à imitação da transgressão de Adão (o qual é figura do que havia de vir)” (Rm 5,14).

Reza uma lenda piedosa que no Calvário estava enterrado o crânio de Adão. Existe um paralelismo claro entre os relatos da Redenção e da Queda. A Cruz é a nova árvore do conhecimento do bem e do mal, Nosso Senhor Jesus Cristo é seu fruto e o novo Adão, a Virgem Maria é a nova Eva.

A árvore do Éden produzia um fruto mortal (Gn 2,16s), a saber, o pecado, que nada mais é que uma usurpação do ser divino: “… e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5). Já a árvore da Cruz nos dá a medida justa do mal que o pecado causou e do bem que Deus quer para nós. Ela revela que o pecado culmina logicamente na morte de Deus e, ao mesmo tempo, que Deus ama tanto cada um de nós que dá a própria vida para nos resgatar do pecado e da morte. “Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos” (1 Tm 2,5s).

Cristo é o doce fruto que pende da cruz. De fato, Ele dá a si mesmo como alimento transformando a substância dos frutos da terra: o pão e o vinho, que vêm do trigo e da uva. “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6,35). “Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim. Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha” (1Cor 11,25s). A Carne e o Sangue de Cristo são verdadeira comida e verdadeira bebida, segundo as Escrituras (Jo 6,55). No Santo Sacrifício da Missa, que é a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz, Nosso Senhor está todo inteiro sob as aparências do pão e do vinho consagrados, presente de modo substancial, real, nutrindo e vivificando a Igreja, que é o seu Corpo. “Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador” (Ef 5,23). “Certamente, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; ao contrário, cada qual a alimenta e a trata, como Cristo faz à sua Igreja” (Ef 5,29).

Cristo é o Novo Adão. “Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano, porque todos pecaram…” (Rm 5,12). Adão, o pai da humanidade, ao perder os bens sobrenaturais que tinha recebido da generosidade infinita de Deus, não pôde transmiti-los aos seus descendentes. O pecado, cometido uma vez, multiplicou-se: crimes, assassinatos, luxúria, cobiça, inveja, orgulho, corrupção, rios de sangue e atrocidades sem fim aconteceram enquanto nossa espécie se espalhou e dominou a Terra. Jazíamos todos nas trevas e nas sombras da morte, sem esperança.

Para acabar com o mal da velha humanidade era necessário criar uma nova humanidade. Para destruir a escuridão, a própria Luz viria ao mundo (Jo 8,12). A ofensa a Deus é infinita, o mal que o pecado acarreta é infinito. Logo, apenas Deus conseguiria pagar o preço exigido pela sua própria justiça. Mas apenas um homem, representando todos os homens, deveria expiar o pecado.

É preciso, portanto, unir a própria divindade à humanidade, o próprio Deus fazer-se homem e morrer a morte de um homem para que o homem possa ter a vida de um deus.

Foi o que Deus realizou, juntando, na pessoa do Filho, a divindade e a humanidade. Um Novo Adão para uma nova criação, um novo começo para todas as coisas.

Aquele pelo qual todas as coisas foram feitas pela primeira vez (Jo 1,3) é o princípio de renovação de todas as coisas (Ap 21,5). N´Ele, Jesus Cristo, Novo Adão, deixamos de ser criaturas condenadas à morte para nos tornarmos filhos de Deus, herdeiros da imortalidade e da vida divina (Rm 8,17; 1Cor 15,53-55; 1Jo 3,1; 2Pd 1,4). O dia da manifestação desse mistério é aguardado por toda a criação (Rm 8,22).

Desde a vinda de Nosso Senhor, por meio do santo batismo, quantas almas não foram resgatadas da morte, quantos santos não foram gerados pela Igreja! Mas, se todos os redimidos possuem um Pai em Nosso Senhor Jesus Cristo, eles também têm uma Mãe na Virgem Maria.

Foi lá, na árvore da Cruz, que o Novo Adão nos deu uma Nova Eva: sua Mãe Santíssima: “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe.” (Jo 19,26s). A Virgem Maria, aos pés da Cruz, representa a Igreja plenamente redimida e santificada. São João Evangelista, o discípulo amado, é figura da Igreja militante, que acolhe Maria como Mãe e conserva o testemunho de Jesus (Ap 12,17).

Em virtude da aplicação antecipada dos méritos de Nosso Senhor, “cheia de graça” (Lc 1,28), a Nova Eva jamais conheceu o pecado, e jamais esteve separada da amizade de Deus. Sempre fiel, sempre obediente (ao contrário da primeira Eva, que desobedeceu o mandamento divino), a Virgem Maria é a realização máxima da redenção, o fruto mais perfeito da Videira que é Cristo (Jo 15,1-5), ícone da Igreja imaculada e sem mancha (Ef 5,27). Assistindo e participando com seu sofrimento da imolação do Cordeiro de Deus no Calvário (e que indizível sofrimento, ao ver seu Filho morrer por ela – não por ela ter pecado mas para preservá-la do pecado – e pelos pecadores), a Virgem Maria cooperou eficazmente, unida a Cristo e em virtude da Mediação de Cristo, para que todos os filhos de Deus fossem gerados: “Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz” (Ap 12,2). Seu coração foi transpassado pelos sofrimentos do Divino Redentor (Lc 2,35).

E assim, meus caros, aproximando-se o Santo Tríduo, em que o mistério da nova criação se torna tão manifesto na liturgia da Igreja, em que passamos da morte para a vida, vamos aproveitar as graças extraordinárias que Deus nos oferece neste tempo, confessando nossos pecados, fazendo penitência, meditando na Paixão de Cristo, unindo-nos à Virgem Maria e São João Evangelista na contemplação do mistério de nossa redenção e na esperança da ressurreição, que é o triunfo definitivo de Jesus sobre o pecado e a morte. Que as palavras de São Paulo ressoem em nossos corações: “Portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6,11).

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