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Não somos vivos, mas estamos vivos. Ou: absurdos democritianos

abril 26, 2012

Demócrito, o atomista feliz

Do atomismo mecanicista decorrem, entre muitos outros, os seguintes corolários absurdos:

– Não existe diferença real entre seres vivos e seres não vivos. O que diferencia uma pedra de um cavalo é apenas o modo como os seus átomos estão organizados, ou seja, existe apenas uma distinção acidental, uma disposição diferente de partes e forças, que possuem a mesma natureza não importa se em um organismo ou num objeto inanimado.

– Sendo a vida apenas uma forma acidental da matéria, não posso dizer que sou um ser vivo, mas que “estou” um ser vivo, ou melhor, que “sou” um acidente, uma propriedade, do conjunto de átomos que formam o meu corpo.

– Não existo como substância, mas sou apenas um epifenômeno de zilhões de elétrons, prótons e nêutrons. Minha existência tem o mesmo tipo de realidade que o padrão de cores que forma uma pintura ou arranjo de peças que produz um automóvel. Sou um estado da matéria, como o gelo ou o vapor são estados físicos da água.

– Não há diferença ontológica entre o homem vivo e seu cadáver. Os mesmos elementos químicos continuam presentes. O que cessa é a atividade, ou estado, que esses elementos químicos possuíam antes da morte.

– Não havendo diferença real entre vivo e morto, então se pode dizer que não existem “seres vivos”. O que denominamos, erroneamente, de “seres vivos”, são configurações materiais extremamente complexas: sistemas de átomos capazes de assimilar outros átomos, metabolizá-los, excretá-los, e usá-los para fazer cópias de si mesmos.

– Não sou vivo, sou morto. Sou tão morto quanto uma nuvem ou um planeta. Somos todos mortos, porque não existe substância viva. Tudo o que existe são substâncias mortas.

– Meu corpo não é meu. É mais coerente dizer que eu pertenço a este corpo. Este corpo empresta sua substância para que um eu acidental subsista nele.

– Mas se o eu é um estado acidental, então a percepção que este eu tem do mundo e da própria matéria é um acidente, resultado de configurações químicas e elétricas. A idéia de que a matéria existe e é formada por átomos não é mais substancial que o eu que a concebe.

Sendo assim, o eu que chega ao conhecimento do átomo é apenas um acidente do átomo.

Logo, como saber que a proposição “a matéria é formada por átomos” é verdadeira, se o pensamento é apenas uma configuração acidental de átomos que não é melhor ou mais correta que qualquer outra configuração?

De fato, todos os arranjos atômicos são ontologicamente equivalentes em sua capacidade (ou incapacidade) de representar conhecimento. Este texto na tela de um computador não significa nada em si mesmo, mas é apenas um arranjo de pixels, tão válido ou correto quanto this is a random set of words I wrote for the sake of the argument. Ele só significa (ou não significa) algo para um intérprete que é capaz de ler e entender o que está escrito.

Como um estado da matéria pode compreender a matéria, compreender a si mesmo? Como uma representação material pode representar a si mesma? Se S é meu estado, uma representação material, e R(S) é a representação material de S, como S pode conter R(S)? Como é possível S ser a soma de S com R(S), ou seja, como pode S ser maior do que S?

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