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Vãs repetições – Parte 1

junho 19, 2012

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Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras” (Mt 6,7).

Na tradução da maioria das bíblias protestantes em língua portuguesa (João Ferreira de Almeida):

E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos“.

O que significa este verso? Será que Nosso Senhor quis condenar todas as formas de oração vocal repetitiva?

Se é assim, como, então, conciliar tal condenação com outros textos da Escritura? Vejamos, por exemplo, o Salmo 135:

Aleluia. Louvai o Senhor, porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Deus dos deuses, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Senhor dos senhores, porque sua misericórdia é eterna.
Só ele operou maravilhosos prodígios, porque sua misericórdia é eterna.
Ele criou os céus com sabedoria, porque sua misericórdia é eterna.
Ele estendeu a terra sobre as águas, porque sua misericórdia é eterna.
Ele fez os grandes luminares, porque sua misericórdia é eterna.
O sol que domina os dias, porque sua misericórdia é eterna.
A lua e as estrelas para presidirem a noite, porque sua misericórdia é eterna.
Ele feriu os primogênitos dos egípcios, porque sua misericórdia é eterna.
Ele tirou Israel do meio deles, porque sua misericórdia é eterna.
Graças à força de sua mão e ao vigor de seu braço, porque sua misericórdia é eterna.
Ele dividiu em dois o mar Vermelho, porque sua misericórdia é eterna.
Ele fez passar Israel pelo meio dele, porque sua misericórdia é eterna.
Ele precipitou no mar Vermelho o faraó e seu exército, porque sua misericórdia é eterna.
Ele conduziu seu povo através do deserto, porque sua misericórdia é eterna.
Ele abateu grandes reis, porque sua misericórdia é eterna.
Ele exterminou reis poderosos, porque sua misericórdia é eterna.
Seon, rei dos amorreus, porque sua misericórdia é eterna.
E Og, rei de Basã, porque sua misericórdia é eterna.
E deu a terra deles em herança, porque sua misericórdia é eterna.
Como patrimônio de Israel, seu servo, porque sua misericórdia é eterna.
Em nosso abatimento ele se lembrou de nós, porque sua misericórdia é eterna.
E nos livrou de nossos inimigos, porque sua misericórdia é eterna.
Ele dá alimento a todos os seres vivos, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Deus do céu, porque sua misericórdia é eterna“.

Quantas vezes a frase “porque sua misericórdia é eterna” se repete nesta oração bíblica? Vinte e seis vezes no total. Estaria o Salmo 135 em contradição com Mateus 6,7? A Bíblia é incoerente consigo mesma?

Outros episódios de “vã repetição” na Escritura?

Quando Nosso Senhor estava agonizando no Getsêmani, a sua oração era uma súplica reiterada:

Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres. Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: Então não pudestes vigiar uma hora comigo… Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca. Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: Meu Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade! Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, DIZENDO AS MESMAS PALAVRAS” (Mt 26,39-44).

Adiantando-se alguns passos, prostrou-se com a face por terra e orava que, se fosse possível, passasse dele aquela hora. Aba! (Pai!), suplicava ele. Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres. Em seguida, foi ter com seus discípulos e achou-os dormindo. Disse a Pedro: Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora! Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca. Afastou-se outra vez e orou, DIZENDO AS MESMAS PALAVRAS” (Mc 14,35-39).

A liturgia celeste contém repetições constantes:

Havia ainda diante do trono um mar límpido como cristal. Diante do trono e ao redor, quatro Animais vivos cheios de olhos na frente e atrás. O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo. Estes Animais tinham cada um seis asas cobertas de olhos por dentro e por fora. NÃO CESSAVAM DE CLAMAR DIA E NOITE: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar. E CADA VEZ que aqueles Animais rendiam glória, honra e ação de graças àquele que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro Anciãos inclinavam-se profundamente diante daquele que estava no trono e prostravam-se diante daquele que vive pelos séculos dos séculos, e depunham suas coroas diante do trono, DIZENDO: Tu és digno Senhor, nosso Deus, de receber a honra, a glória e a majestade, porque criaste todas as coisas, e por tua vontade é que existem e foram criadas” (Ap 4,6-11).

Os judeus na época de Jesus tinham rituais de oração nos quais as mesmas preces eram ditas numa ordem específica. Existe um livro de orações, o Siddur, que contém as orações diárias do judeu devoto. Ao levantar, reza-se a prece Modeh ani, pela manhã, o Elohai Neshamai, e existem várias preces rituais e bençãos antes, durante e depois de cada refeição. O Kaddish é rezado após os estudos e no luto, enquanto o Shema Yisrael é religiosamente recitado duas vezes ao dia.

Todos esses elementos apontam que Mt 6,7 não deve ser interpretado sic et simpliciter como uma condenação de todas as orações repetitivas ou repetidas. Para chegarmos ao significado correto deste versículo devemos fazer uma leitura mais cuidadosa e matizada.

Falha na tradução de Mt 6,7 nas bíblias protestantes

O texto grego original de Mt 6,7, quando transliterado, fica na seguinte forma:

proseuchomenoi de me battalogesete osper oi ethnikoi dokousin gar oti en te polulogia auton eisakousthesontai

Palavra por palavra, ordenadas de acordo com a estrutura de nossa língua portuguesa:

de = mas
proseuchomenoi = quando vocês rezarem (proseuchomai = oferecer preces, rezar, orar)
me = não
battalogesete = falem de modo repetitivo (battalogeo = gaguejar, balbuciar, repetir-se na fala, usar palavras ininteligíveis, falar demasiado, falar de modo confuso. É um termo que só aparece aqui em todo o Novo Testamento, e que é desconhecido da literatura secular contemporânea)
osper = como
ethnikoi = os pagãos
gar = pois
dokousin = eles acham (dokeo = achar, ter uma opinião)
oti = que
eisakousthesontai = serão atendidos (eisakouo = ser ouvido, ser atendido)
en = por causa
auton = de sua (auton = ele mesmo, ela mesma, o mesmo)
polulogia = verborragia (polulogia = muitas palavras)

As Bíblias protestantes mais populares traduzem battalogesete como “vã repetição”, embora no texto de Mt 6,7 não exista o adjetivo “vão” ou a forma adverbial “em vão” (kenos, no grego. A introdução da palavra “vã” deve-se, provavelmente, ao interesse de polemizar com práticas devocionais católicas como o rosário, onde as mesmas orações são repetidas “em vão”, segundo os hereges). As traduções católicas são, neste sentido, mais fiéis ao original, ao apontar para a idéia de multiplicar as palavras, de rezar com verborragia (polulogia), como faziam os gentios. É crucial, por conseguinte, para chegarmos a uma reta interpretação da condenação evangélica, saber como rezavam os não judeus.

Como rezavam os gentios?

As formas de religiosidade pagã consideravam os deuses como seres poderosos, mas ainda assim semelhantes aos homens em suas paixões e seu desejo de glória. Portanto, as orações pagãs se moviam freqüentemente na direção da bajulação, procurando persuadir e influenciar os deuses a satisfazer os desejos dos devotos. As palavras da oração, ditas supersticiosamente na ordem correta, teriam o poder mágico de manipular os entes divinos. Pronunciar corretamente os nomes do deuses garantiria automaticamente o atendimento da súplica feita. Por conta de tal crença, faziam-se longas e tediosas listas de nomes e títulos divinos na esperança de que um deles fosse adequado para alcançar infalivelmente as graças pretendidas. Estabelecia-se, deste modo, uma relação comercial com cada deus ou deusa: uma troca de favores conquistada por meio da eloqüência.

Muito diferente é a oração no judaísmo antigo e, depois, na Igreja: não é possível manipular ou bajular Deus. Podemos pedir-lhe algo, mas Ele não é obrigado a conceder o que imploramos. Podemos louvá-lo, mas nosso louvor não acrescenta nada à sua glória. Podemos agradecer, mas nossa gratidão não o torna mais ou menos benevolente. Deus é imutável e absolutamente livre. Sua transcendência e simplicidade implicam em que não podemos controlar os desígnios divinos, submetendo-os aos nossos interesses.

Antes, a verdadeira oração, a oração cristã, é o meio que Deus usa para nos transformar de acordo com sua vontade. A oração não muda Deus. A oração muda o orante, abrindo o seu coração para as graças que Deus quer lhe conceder.

Portanto, a condenação de Jesus é a condenação da idéia pagã de que podemos dizer a Deus: seja feita a nossa vontade, e não a tua e, ao mesmo tempo, uma clara afirmação de que o ápice de perfeição da oração não está nas palavras pronunciadas, mas na sinceridade da alma.

Devemos rezar sempre

A oração deve, para ser efetiva (em nós, não em Deus, como já foi explicado), ser incessante e persistente. Há várias passagens do Novo Testamento que o indicam:

Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo. Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma. Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com freqüência à sua presença para dizer-lhe: Faze-me justiça contra o meu adversário. Ele, porém, por muito tempo não o quis. Por fim, refletiu consigo: Eu não temo a Deus nem respeito os homens; todavia, porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar. Prosseguiu o Senhor: Ouvis o que diz este juiz injusto? Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los?” (Lc 18,1-7)

No mesmo capítulo, vemos o cego de Jericó suplicar a Nosso Senhor (o que não deixa de ser uma oração) repetidamente:

Ao aproximar-se Jesus de Jericó, estava um cego sentado à beira do caminho, pedindo esmolas. Ouvindo o ruído da multidão que passava, perguntou o que havia. Responderam-lhe: É Jesus de Nazaré, que passa. Ele então exclamou: Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim! Os que vinham na frente repreendiam-no rudemente para que se calasse. Mas ele gritava ainda mais forte: Filho de Davi, tem piedade de mim! Jesus parou e mandou que lho trouxessem. Chegando ele perto, perguntou-lhe: Que queres que te faça? Respondeu ele: Senhor, que eu veja. Jesus lhe disse: Vê! Tua fé te salvou. E imediatamente ficou vendo e seguia a Jesus, glorificando a Deus. Presenciando isto, todo o povo deu glória a Deus” (Lc 18,35-43).

A Igreja orou continuamente por São Pedro (At 12,5). São Paulo nos manda render graças sem cessar (Ef 5,20), diz-nos para orar do mesmo modo (1Ts 5,17), coloca as igrejas e seus filhos espirituais sempre em suas orações (Rm 1,9; 2Ts 1,3.11.13; 2Tm 1,3), exorta-nos a oferecer o tempo inteiro sacrifícios de louvor (Hb 13,15).

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