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Vãs repetições – Parte 2

junho 24, 2012

Nosso Senhor rezando no horto

No último post, vimos que a interpretação correta de Mt 6,7 não é a proposta pelos protestantes. No texto original grego, não existe a expressão “vã repetição”, mas uma palavra, battalogeo, que só é usada uma vez em todo o Novo Testamento e cujo sentido não é claro (pode significar repetição, mas também pode significar gaguejar ou dizer palavras sem sentido). A chave para compreender corretamente o versículo está no contexto: “não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras“. Os pagãos acreditavam que podiam manipular seus deuses com longas bajulações e pronunciando listas mágicas de nomes divinos entremeados com sílabas estranhas. Além do mais, os deuses dos pagãos simplesmente não existem e, portanto, as preces dos gentios são apenas sons vazios, sem nenhum efeito. “Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais” (Mt 6,8).

A oração cristã não deve ser uma tentativa de manipular Deus, de persuadir o Senhor a fazer algo por nós. Isto é absurdo, porque Deus não pode ser movido pela vontade do homem. Antes, a oração é o meio através do qual Deus nos move cada vez mais para junto de Si. Ao mesmo tempo, a oração cristã deve ser incessante, não porque Deus não escute ou não conheça nossas necessidades, mas porque quanto mais formos persistentes na oração, mais intensamente seremos transformados e unidos à Sua santa vontade, alcançando, por fim, aquilo que queremos, pois então desejaremos o mesmo que Deus quer:

Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem” (Mt 7,7-11).

Tudo o que pedirdes com fé na oração, vós o alcançareis” (Mt 21,22).

Quem canta reza duas vezes

Outro elemento que desmantela a tese protestante das vãs repetições e que, além do mais, prova que os irmãos separados da Igreja de Cristo caem em contradição, é o uso de cânticos e hinos no culto a Deus. Não é o canto uma forma de oração? E não são os cantos repetições de versos e estrofes? A melodia não é periódica? Os mais radicais seguidores do fundamentalismo neopentecostal exercitam com freqüência o canto de louvor, ação de graças e súplica a Deus, e possuem seus livros com hinos fixos, com letras e melodias que são entoadas várias vezes ao longo de seus encontros de oração.

A melhor maneira de rezar ou: O Pai Nosso

A prova mais patente de que Nosso Senhor não condena a recitação repetida de orações é que, logo após condenar o battalogeo dos seguidores do paganismo, Ele ensina aos discípulos uma fórmula de oração, que é também a oração mais perfeita, o Pai Nosso:

Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais. Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal” (Mt 6,8-13).

No Pai Nosso temos o modelo de como o cristão deve rezar. Uma oração não tão curta que possa ser dita em uma frase, mas não tão longa que se torne cansativa. Nela há apenas o essencial: primeiramente se pede que Deus seja glorificado e sua vontade obedecida: não se faça o que queremos, mas o que quereis, Senhor. Fiat voluntas tua. Aqui encontramos uma evidente ressonância com as palavras da Virgem Maria ao anjo, na Anunciação: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Logo em seguida, temos uma série de três pedidos: pelo pão substancial, que não é apenas o alimento do Corpo, mas também o alimento da alma, ou seja, a Palavra de Deus e a Eucaristia, pelo perdão divino condicionado ao perdão de nossos inimigos e, por último, uma súplica de proteção contra o mal que sempre quer nos destruir afastando-nos de Deus, o Sumo Bem.

De fato, na estrutura do Pai Nosso vemos um reflexo da kenosis (outra palavra grega!) de Cristo, ou seja, do esvaziamento e do despojamento do Filho para realizar a vontade do Pai:

Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo (ekenosen), assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8).

É esta obediência, esta submissão da própria vontade ao que Deus quer, este morrer para si mesmo, imitando Nosso Senhor, que deve ser a meta de vida do cristão. Chegará para todos nós a hora de perder tudo neste mundo, a hora da cruz, e o modo como o fizermos, se obedientes ou desobedientes, unidos ou desunidos ao querer divino, determinará o que virá depois. Se perseverarmos na caridade de Cristo, unindo-nos ao seu sacrifício, completando em nossa própria carne o que falta à Paixão de Cristo, então alcançaremos a mesma glória que Cristo alcançou:

Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor” (Fl 2,9-11).

Eis uma verdade absolutamente certa: Se morrermos com ele, com ele viveremos” (2Tm 2,11).

Rosas para a Mãe do Senhor

A oração da Ave Maria, que tanto ofende a sensibilidade protestante, pode ser dividida em duas partes. Na primeira parte, temos trechos tirados diretamente da Sagrada Escritura:

Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco – “Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28).

Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus – “E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42). É importante notar que o centro de gravidade da Ave Maria é o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, a Ave Maria é uma oração cristocêntrica. Tudo nela, assim como tudo em Maria, gira em torno de Jesus.

A segunda parte da Ave Maria é uma petição que só começou a ser usada no final do século XV (antes, a Ave Maria só continha os textos da Escritura e era, portanto, uma saudação de louvor à Virgem):

“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Em 1214, segundo uma piedosa tradição, Santo Domingos, após três dias e três noites rezando pela conversão dos hereges albigenses e fazendo severa penitência, teve uma visão da Virgem Maria, na qual ela lhe confiava o seu saltério, que seria a arma mais eficaz para reformar a cristandade infestada pela heresia. Num paralelo com os 150 salmos do Antigo Testamento, deveriam ser recitadas 150 Ave Marias, intercaladas a cada dezena pela oração do Senhor, o Pai Nosso, e por uma oração glorificando a Santíssima Trindade. Durante cada dezena, o orante meditaria os mistérios da Encarnação, Paixão, Morte, Ressurreição e Glorificação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Rosário é uma oração contemplativa na qual as palavras ditas são o corpo e a contemplação dos sagrados mistérios é a alma. As ave marias repetidas convertem-se numa espécie de fundo ordenador, uma música que ajuda a mente a elevar-se a Deus.

O rosário rezado corretamente não é, como alegam os protestantes, uma seqüência de vãs repetições inventadas por homens, mas é um instrumento de grande eficácia para a santificação e a conversão. Ensina-nos o Papa Leão XIII (1810-1903): “Pela sua fragilidade, o homem, durante a oração, muitas vezes é levado a distrair-se do pensamento de Deus e a faltar ao seu louvável propósito. Ora, quem considera atentamente este fenômeno logo verá quão eficaz é o Rosário não só para fazer aplicar a mente e para sacudir a preguiça da alma, como também para excitar um salutar arrependimento das culpas, e, finalmente, para elevar o espírito às coisas celestes. E isto porque, como é bem sabido, o Rosário é composto de duas partes, distintas entre si, porém inseparáveis: a meditação dos mistérios e a oração vocal. Por conseqüência, este gênero de oração requer da parte do fiel uma atenção particular que não só o faz elevar, de algum modo, a mente a Deus, mas o leva também a refletir tão seriamente sobre as coisas propostas à sua consideração e contemplação, que ele é induzido também a tirar delas estímulo para uma vida melhor e alimento para toda forma de piedade” (Carta Encíclica Jucunda Semper, n. 12, publicada em 1894).

Também o Papa Paulo VI (1897-1978) escreveu a respeito: “Sem contemplação, o Rosário é um corpo sem alma e a sua recitação corre o perigo de tornar-se uma repetição mecânica de fórmulas e de vir a achar-se em contradição com a advertência de Jesus: ‘Na oração não sejais palavrosos como os gentios, que imaginam que hão-de ser ouvidos graças à sua verbosidade’ (Mt 6,7). Por sua natureza, a recitação do Rosário requer um ritmo tranquilo e uma certa demora a pensar, que favoreçam, naquele que ora, a meditação dos mistérios da vida do Senhor, vistos através do Coração d’Aquela que mais de perto esteve em contato com o mesmo Senhor, e que abram o acesso às suas insondáveis riquezas” (Exortação Apostólica Marialis Cultus, n. 47, publicada em 1974).

Finalmente, o Papa João Paulo II (1920-2005) escreveu: “Uma coisa é clara! Se a repetição da Ave Maria se dirige diretamente a Maria, com Ela e por Ela é para Jesus que, em última análise, vai o ato de amor. A repetição alimenta-se do desejo duma conformação cada vez mais plena a Cristo, verdadeiro ‘programa’ da vida cristã. São Paulo enunciou este programa com palavras cheias de ardor: ‘Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro’ (Fl 1,21). E ainda: ‘Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim'(Gl 2,20). O Rosário ajuda-nos a crescer nesta conformação até à meta da santidade” (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, n. 26, publicada em 2002).

Resumo

Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim” (Mt 15,8).

Por ele ofereçamos a Deus sem cessar sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábios que celebram o seu nome” (Hb 13,15, citando Os 14,2).

Orações que devem ser repetidas ou orações repetitivas fazem parte da Revelação divina. Nosso Senhor rezava os salmos e deu aos discípulos a oração do Pai Nosso. Também não existe na Escritura nenhum texto declarando que só devemos fazer orações formadas por palavras escolhidas no momento. Devemos rezar como crianças (e crianças, como todos sabemos, adoram repetições). O que é condenável é a oração verborrágica, a oração onde as palavras não têm ou perdem o sentido por não refletirem um compromisso interior, a falsa oração onde se tenta manipular Deus para que faça o que queremos. Devemos rezar com insistência, incessantemente, sem esmorecer. O santo rosário bem rezado não é vã repetição, mas é uma forma de oração em que as palavras que saem dos lábios celebram o nome de Nosso Senhor e o de sua Mãe Santíssima, enquanto o coração se aprofunda na meditação do mistério de Cristo, imitando Maria: “Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2,51).

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