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Omne quod movetur ab alio movetur

julho 10, 2012

O que é o movimento? Um objeto X se move. Podemos imaginar que o objeto é um ponto sobre uma superfície, e que a posição do objeto sobre a superfície descreve o seu estado atual. O movimento do objeto poderia ser, então, relacionado a uma mudança em sua posição: X está em A e, depois, X está em B.

Dizer que a posição do objeto mudou, entretanto, não explica absolutamente o que vem a ser o movimento, pois tudo o que temos são duas situações estacionárias: o objeto aqui e o objeto ali. Mesmo que o deslocamento seja infinitesimal, ainda teremos dois pontos distintos e, portanto, não haverá nada a dizer sobre o que é propriamente o movimento de um ponto a outro. Além disso, enquanto o objeto se move, não faz sentido alegar que ele está ocupando diferentes posições em diferentes instantes, pois se este fosse o caso o objeto jamais mudaria de lugar. O movimento não pode ser medido por instantes sem duração (paradoxo de Zenão).

A localização de X em posições distintas não é o bastante para determinar o que é o movimento de X. Também o acréscimo do advérbio “depois” não acrescenta nenhuma informação essencial ao fato de que X se moveu.

Não é possível reduzir o movimento a uma essência imóvel. Movimento não é ser, mas um estar a caminho de ser. O que se move é e não é ao mesmo tempo, sob diferentes aspectos. É o que é em substância, mas não é o que será em seus acidentes. Está em ato para o que é,  mas em potência para o que virá a ser. O movimento envolve indeterminação do ser móvel, a existência neste de num campo de possibilidades entre o não-ser e o ser, uma abertura para algo que virá.

O que causa a passagem de algo que não é para algo que é? O que causa o movimento do móvel? Seria ele mesmo? Mas se seu estado atual é diferente de seu estado futuro, e ele depende apenas de si mesmo para chegar lá, então seu estado futuro já está realmente contido em seu estado presente, ou seja, seu estado presente já é seu estado futuro e, portanto, o móvel na verdade não pode se mover. O movimento torna-se uma ilusão. Devemos substituir o devir por uma coleção de objetos estáticos, cada um fixo em seu instante eterno. O movimento seria um ordenamento ilusório desses objetos numa sucessão. Obviamente, tal concepção é falsa, pois sabemos que existe o movimento: toda experiência, todo conhecimento adquirido, é movimento.

Poderíamos tentar salvar a idéia de um objeto X que se move apenas por si mesmo afirmando que ele se move de A para B por causa de alguma lei dinâmica L, mas isto significaria dizer que existe um fator fora do objeto que o governa ou contribui para governá-lo, fazendo-o mover-se, ao menos parcialmente, do modo como se move. Isto, por sua vez, implicaria em uma negação da existência de “automovimento”.

Todo o movimento pressupõe uma relação de identidade e não-identidade, uma continuidade e uma descontinuidade. O móvel é substancialmente ele mesmo enquanto existe, apesar de seus movimentos. O móvel não é acidentalmente o mesmo enquanto existe, pois seus acidentes deixam de ser.

Numa mudança substancial, o móvel é destruído e substituído por outro ou outros.

O movimento depende da ação e, ao menos em nosso mundo físico, da interação entre diversos móveis.

A existência de interação poderia viabilizar loops de movimento (A é movido por B e B é movido por A)?

Devemos responder negativamente, pois isto significaria que o movimento de A é causado por A, o que é contraditório (é possível, contudo, imaginar um cenário em que A move B e B move A num nível de causalidade secundária, sendo este movimento cíclico dependente de um agente distinto operando em outro nível de causalidade).

Mover-se é receber algo que ainda não se tem. Se não tenho algo, não posso dar este algo a mim mesmo, mas preciso recebê-lo de alguém que o possua. Tudo o que se move é sempre movido por outro. Negar isto significa negar que existe movimento e, portanto, significa negar a experiência sensível e a própria possibilidade de conhecermos alguma coisa, ou seja, de nos movermos de uma condição de ignorância para uma condição de entendimento. Se não há movimento, nenhuma ciência é possível para o homem.

One Comment leave one →
  1. Anônimo permalink
    julho 12, 2012 11:03 pm

    Já dizia Aristóteles.

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