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No final de um diálogo com um ateu

maio 15, 2013

contradiction

(…)

Ateu: Se Deus criou tudo, quem criou Deus?

Crente: Nada criou Deus.

Ateu: Então Deus veio do nada?

Crente: Não. Deus simplesmente não veio. Deus É. Para uma coisa vir a ser, ela precisa não ser, e Deus não pode não ser.

Ateu: Isto é absurdo.

Crente: Não, não é absurdo. É a única saída coerente. Mas, apenas por curiosidade, o que você propõe, então, no lugar de Deus?

Ateu: Que as coisas sempre existiram. Que tudo o que existe vem de algo que é anterior. O Universo é infinito e eterno. Deus é supérfluo, desnecessário.

Crente: Interessante. Então todos os seres recebem a existência de outros seres, ad infinitum?

Ateu: Sim, isto mesmo.

Crente: Isto significa que nenhum ser existe por si mesmo, mas há uma dependência essencial entre tudo o que existe. Nada é fundamental. Tudo é derivado, contingente. Cada ente começa a existir pela ação de um outro ente já existente. Se considerarmos a coleção de todos os entes, infinitos entes, todos eles recebem sua existência uns dos outros. É esta a sua perspectiva? Estou sendo fiel ao representar seu pensamento desta forma?

Ateu: Creio que sim.

Crente: Mas se todos os existentes são recebedores de existência, de onde vem a existência?

Ateu: Como?

Crente: Em sua cosmologia, há uma série causal infinita que gera todos os seres. Supondo que esta série exista, o que faz com que ela exista?

Ateu: Ela mesma é sua causa, ela causa a si mesma, ela cria a si mesma.

Crente: Mas como algo pode ser causa de si mesmo? Para que algo cause a si mesmo ele necessita existir antes de ter existência, o que é contraditório. Eu não posso me criar sem que eu mesmo exista e, portanto, tenha sido criado.

Ateu: Hummm…

Crente: Se tudo o que existe é contingente, é recebedor de existência, deve haver uma fonte de existência, ou então tudo o que existe veio do nada, porque a própria existência viria do nada.

Ateu: Mas você fala como se a existência fosse algo independente, e não uma propriedade dos seres existentes.

Crente: Mas a existência não é algo independente? Quando digo esta flor existe, este rio existe, esta pessoa existe, estou indicando que há algo comum a esta flor, a este rio, a esta pessoa, a saber, eles existem. Se a existência é algo subordinado, dependente, então a essência vem antes da existência, o que é um contrassenso, pois para que algo seja algo é preciso, primeiro, que este algo exista. Um Universo infinito e eterno de seres contingentes demanda uma fonte de existência externa para existir.

Ateu: Bom, pois eu digo que não. Não é preciso uma fonte de existência para o Universo existir. Ele simplesmente é e pronto. O Universo é o que é.

Crente: Sua afirmação é irracional. Se o Universo é (precisa existir) e ao mesmo tempo não é (sendo formado apenas por seres que não possuem em si mesmos o princípio de sua própria existência), então ele é ininteligível. É como acreditar que zero é igual a um, que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento em qualquer lugar. Nega-se a causalidade, a mudança, a contingência, a finalidade. Nega-se que exista ordem, beleza e bondade no mundo.

Ateu: E daí? Vou agora dizer-lhe o que nunca tive coragem de confessar, mas já estou tão farto dessas discussões infrutíferas com vocês crentes que não tenho mais paciência. Veja, no fundo não existe razão ou causa para nada. Há apenas partículas e campos que interagem e produzem a realidade através de uma média estatística de flutuações do vácuo quântico. De fato, as partículas quânticas efetuam transições de um estado para o outro sem nenhuma causa e de modo imprevisível.

Crente: Concedo que as partículas quânticas sejam imprevisíveis e que seu comportamento seja aleatório. Mas isto, nem de longe, significa ausência de causalidade. Muito pelo contrário. Causar um comportamento imprevisível e realmente aleatório demanda uma quantidade infinita de informação, a qual não pode ser suprida do nada.

Além do mais, se não existe razão ou causalidade, como saber que existem apenas partículas e campos que interagem e produzem tudo o que vemos? Se não existe razão nem causalidade, o que é uma média estatística?

Ateu: A resposta para suas perguntas é muito simples: se não existe razão, suas perguntas não fazem sentido, e nem minhas respostas. É, de fato, este o meu ponto de vista. O que acontece de verdade aqui (ou não) é apenas a emissão de ondas de pressão que se propagam no ar, vibrações mecânicas da matéria que são transformadas em impulsos elétricos, que geram outros impulsos elétricos no seu cérebro, fazendo ou desfazendo conexões neurais, produzindo reações químicas sem qualquer propósito, aparente ou real.

Crente: Como você pode dizer isto e ao mesmo tempo querer me convencer de alguma coisa?

Ateu: Não quero convencê-lo de nada. Precisamos superar isto, pois não existe convencimento ou persuasão, nem escolhas autênticas. As leis da física ditam tudo o que acontece no Universo. Minha descrença ou sua crença são apenas ilusões, pois somos apenas epifenômenos da matéria, não existimos de verdade. Apenas nossos átomos e suas interações, suas reações químicas, seus processos físicos, existem (ou não).

Crente: Então não estamos dialogando?

Ateu: Não, não estamos, ou talvez estejamos. Eu não sei. Veja, nós não existimos a não ser como acidentes da organização da matéria. Somos máquinas geradas pela força da seleção natural e do acaso, programadas apenas para passar nossos genes adiante. Nossos genes são mais reais do que nós mesmos, e nossos átomos e moléculas são mais reais que os nossos genes. O livre arbítrio é uma ilusão necessária, mas apenas uma ilusão, como a razão, a lógica, a idéia tola de que podemos conhecer o mundo à nossa volta. Não conhecemos nada, não sabemos de nada. Considero que a evolução não nos programou para conhecer o mundo como ele é, mas para sobreviver a todo o custo, a fim de perpetuar os nossos genes. O Universo não é inteligível. Ele parece inteligível porque estamos aprisionados  por um mecanismo darwiniano que nos convence disso (ou não). Não existe a adequação do pensamento às coisas, mas as coisas (neurônios, proteínas, genes, moléculas, átomos) secretam os pensamentos, os quais nos criam e nos convencem que entendemos algo do Universo, que existem memes como a física, a química, a biologia, a matemática, a lógica, a verdade, o bem, que não são mais verdadeiros ou falsos do que a religião ou a irreligião.

Crente: O que você diz é espantoso e absurdo!

Ateu: E daí? A realidade é absurda. O Universo é absurdo. O mal existe e não existe, mas seu Deus bondoso certamente é uma patranha. A própria existência é uma noção vazia. Não existe a existência. O Universo existe e não existe, é real e não é, pois é apenas uma ilusão de mentes que deliram sobre a própria existência.

Crente: Neste caso é inútil argumentar.

Ateu: Sim, sem dúvida. Este debate todo é uma idiotice sem pé e sem cabeça, ou não. Não importa, realmente. Nada importa. Tenha um bom dia, embora isto nada signifique, no fim das contas.

Crente: Bem, tenha um bom dia. E realmente sou sincero ao exprimir tal desejo.

Ateu: Whatever…

O ateu então se afasta, tentando imitar com a voz o som dos instrumentos musicais de “Also sprach Zarathustra“.

4 Comentários leave one →
  1. Humberto permalink
    maio 17, 2013 8:21 am

    Na verdade é uma argumentação com um ateu niilista.
    Pessoalmente vejo erros na alegação dos dois personagens, e um erro de atribuição do texto em si, que é atribuir que todo ateu tenha de ser niilista.
    Nota: sou ateu e não sou niilista. Vejo o evidencialismo como nossa melhor teoria da justificação.

    • ewcaetano permalink*
      maio 17, 2013 12:08 pm

      Seria interessante apontar esses erros. Como vc consegue evitar o niilismo?

      • Humberto permalink
        maio 17, 2013 1:54 pm

        Simplesmente não o adotando. A suposição de que uma resposta metafísica com duas únicas alternativas seria a solução para a realidade me parece uma triste falácia. A minha alternativa ao seu deus é meramente não crer em deidade e não um atribuir ao nada.

      • ewcaetano permalink*
        maio 26, 2013 12:49 am

        Se entendi bem, você está me dizendo que não é niilista porque NÃO QUER ser niilista. Em outras palavras, sua vontade determina aquilo em que você acredita, e não seu intelecto. Você rejeita Deus mas não quer tirar daí a óbvia conclusão de que nada faz sentido sem Ele (como o diálogo que imaginei revela).

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