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Trindade ou: Deus ultrapassa o nosso entendimento

maio 26, 2013
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trinity

Há um só Deus, mas Deus não é solitário.

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Um mistério não é uma proposição ininteligível em si mesma ou contraditória. É uma verdade que ultrapassa a capacidade natural de apreensão do intelecto humano. Reconhecer o mistério é reconhecer, humildemente, que não somos capazes de entender tudo, que somos finitos no ser e na nossa compreensão do ser.

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Um deus compreensível não é o verdadeiro Deus.

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Não podemos entender a mente de Deus (*).

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Deus não criou o Universo para lhe fazer companhia. A criação não está no mesmo nível do Criador e nem lhe acrescenta ou subtrai algo. Deus mais o Universo não é maior do que Deus, porque não há como comparar ou elencar num conjunto o “Ipsum Esse Subsistens“, Aquele que não pertence a nenhum gênero ou espécie, e a totalidade dos seres contingentes ou que não são necessários em si mesmos.

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A essência divina, só Deus pode conhecer perfeitamente.

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A fé cristã nos ensina não só que Jesus Cristo é Deus, mas que ele é o Filho de Deus Pai. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16). Deus possui um Filho que também é Deus! Deus seria Pai de si mesmo? De modo nenhum. A relação de paternidade logicamente supõe uma diferença real entre o Pai e o Filho.

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O Pai não é o Filho, nem o Filho é o Pai, embora ambos sejam um só Deus. A unidade-distinção entre o Pai e o Filho é claríssima na Sagrada Escritura: “Ego et Pater unum sumus“, “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Eu E o Pai, mas não como numa relação de dois entes separados, pois nós SOMOS UM.

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Em Deus há um NÓS: “Então Deus disse: FAÇAMOS o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). “Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e NÓS viremos a ele e nele faremos nossa morada” (Jo 14,23).

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A relação entre o Pai e o Filho é análoga à geração: “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus; e todo o que ama aquele que o gerou, ama também aquele que dele foi gerado” (1Jo 5,1). “Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7).

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O Filho recebe do Pai o ser divino antes de todos os séculos.

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O Filho é gerado pelo Pai como expressão do conhecimento que o Pai tem de si mesmo.

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Inexistem partes metafisicamente separáveis na divindade. Deus não é um conjunto formado por N indivíduos, pois cada indivíduo possui sua própria personalidade e natureza de uma modo independente dos demais. O Pai e o Filho não compartilham a natureza divina (que é indivisível) nem multiplicam a natureza divina (que é uma só). O Pai e o Filho são duas pessoas distintas com a mesma natureza, cada um é plenamente, totalmente, Deus.

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Deus é uma substância e uma diversidade de relações.

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Não existe apenas uma dualidade relacional em Deus. Sabemos pela Escritura e pela Tradição que o Espírito da Verdade, que procede do Pai, dá testemunho de Jesus (Jo 15,26). O Espírito Santo não é o Pai nem o Filho. Mesmo assim, não é e nem pode ser uma criatura, pois “…o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus” (1Cor 2,10). Como um ser finito pode conhecer “as profundezas de Deus”? É impossível. Infere-se daí que o Espírito Santo é também Deus com o Pai e o Filho.

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Há em Deus um outro nível relacional, envolvendo o Espírito Santo, que nos leva a chamar Deus de Trindade (**).

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A Trindade é o núcleo duro da revelação cristã, sua verdade mais essencial, que Nosso Senhor e o Espírito Santo vieram ao mundo desvelar.

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A Trindade é o segredo mais íntimo de Deus, e o fato de que Ele no-lo revelou mostra o quanto Ele nos ama.

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Crer na Trindade seria contraditório se disséssemos que Deus é um só e é três ao mesmo tempo, sob o mesmo aspecto. Mas não é esta a fé católica. Deus é um só quanto à natureza, sendo absolutamente simples. Deus é trino por ser relacional, comunhão de três pessoas distintas possuindo a mesma substância.

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Três pessoas, uma natureza. Não três pessoas e três naturezas (triteísmo), nem três naturezas e uma natureza (absurdo!) ou três pessoas e uma pessoa (absurdo!).

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O conhecimento da Trindade que recebemos pela fé é o princípio da participação na vida divina de que fala São Pedro (2Pd 1,4). Ver Deus face a face é fazer parte da vida trinitária. O Céu é a visão da Trindade, o conhecimento da Trindade, a experiência da Trindade.

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Aqui, neste mundo, nosso conhecimento da natureza de Deus é precário e obscuro, as potências de nossa inteligência, ainda que auxiliadas pela graça, pelo dom da fé, tateiam com dificuldade.

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No Céu (embora a Trindade permaneça incognoscível e incomunicável em si mesma) seremos imersos em sua luz, agraciados com um entendimento sobrenatural de sua realidade.

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Verdadeiramente a Trindade é a realidade última e suprema, o fundamento de todas as coisas.

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Trindade não significa três entes, mas tri-unidade.

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Deus é uno na medida em que é trino, e é trino na medida em que é uno.

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O que distingue as pessoas da Trindade não é a falta de alguma perfeição. Cada pessoa é perfeita por ser plenamente divina. O que distingue as pessoas da Trindade são as relações entre elas.

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Uma relação não pode ser a perfeição de uma pessoa, pois exige duas pessoas para poder existir.

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A melhor síntese da Trindade nos é proporcionada, na Bíblia, pelo Apóstolo São João: “Deus é amor” (1 Jo 4,8).

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Não existe amor se não existe alteridade. O amor é um impulso para fora, para ir ao encontro do outro, comunicar a si mesmo ao outro, produzir o bem no outro, unir-se ao outro sem destruí-lo. Se Deus é amor, então Deus deve conter em si mesmo a alteridade.

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Nenhuma das Pessoas da Santíssima Trindade é maior do que as demais. O Pai, o Filho e o Espírito Santo possuem a mesma natureza e dignidade.

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A ordem que usamos ao enunciar os nomes das Pessoas divinas reflete apenas uma precedência lógica na dinâmica relacional trinitária: o Filho procede do Pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Filioque).

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O Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai eternamente. Mas este amor não se fecha nos dois, pois de outro modo seria um amor egoísta. Ao contrário. Este amor é abertura para um terceiro, para o Espírito Santo, sopro do amor e da vida que é expirado no ósculo eterno do Pai e do Filho.

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Enfim, muitas analogias e imagens podem ser formuladas para tentar capturar aspectos da Trindade, algumas engenhosas, outras nem tanto, mas nenhum raciocínio pode contê-la, pois é a própria essência de Deus, aquilo que nenhum discurso filosófico ou científico pode abarcar em princípio.

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Sempre há novidade no mistério da Trindade, o Céu é perpétua novidade, perpétua felicidade, perpétuo encontro com o bem que jamais enfastia.

(*) Este pensamento é para adeptos do cientismo como Albert Einstein e Stephen Hawking.

(**) A palavra grega trias, vertida para o latim por Tertuliano como trinitas, é usada pela primeira vez por Teófilo de Antioquia, em cerca de 180 d.C., para designar “a Trindade de Deus [Pai], Sua Palavra [o Filho] e Sua Sabedoria [o Espírito]” (Segundo Livro de Teófilo de Antioquia a Autólico, n. 15).

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