Skip to content

Não cederei minha glória…

junho 14, 2013

arch_of_covenant_glory_of_god1

Existe um verso bíblico que os meus irmãos protestantes usam com frequência para questionar a veneração (que eles, erroneamente, confundem com adoração) de imagens e santos na Igreja. O verso é o seguinte:

“Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra” (Is 42,8).

Tomadas isoladamente do resto da Escritura, as palavras desta perícope parecem ferir de morte a doutrina católica sobre o culto dos santos e das imagens sagradas. Deduzem os protestantes que o fato de Deus não “ceder” sua glória a ninguém implica necessariamente na rejeição do culto aos santos, que usurpariam deste modo a glória divina. Glorificar um santo equivaleria a diminuir a glória devida somente ao Altíssimo.

Deus não “cede” sua honra aos ídolos. Por causa disso, os descendentes espirituais de Lutero e Calvino apontam a artilharia para as imagens sagradas. Sobre o culto de imagens eu já postei algum material no blog explicando porque não se trata de uma forma de idolatria. Há várias passagens bíblicas em que o próprio Deus ordena a fabricação de imagens com cunho religioso (ver, por exemplo, os querubins da arca da Aliança em Ex 37,7-9, a serpente de bronze em Nm 21,8 e os bois sobre os quais se apoiava o mar de bronze no Templo de Salomão, 1Rs 7,23-25). Não acho necessário me alongar neste ponto. Para mim é mais interessante aprofundar a questão de a glória divina não ser compartilhada.

Texto sem contexto é pretexto, escreveu-me uma vez uma gentil senhora protestante (será que ela notou que isto vai justamente contra a doutrina Sola Scriptura?). Vejamos, então, algumas outras passagens bíblicas que contrastam com a interpretação “evangélica” de Is 42,8.

Aproximaram-se de Nosso Senhor São Tiago e São João, filhos de Zebedeu, e disseram:

“Concede-nos que nos sentemos na tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda” (Mc 10,37).

O que o Divino Mestre respondeu?

Se a exegese protestante estivesse correta, a resposta teria sido: “Afastai-vos de mim, pois não cedo minha glória a ninguém, ninguém pode sentar-se na minha glória, pois ela pertence só a mim e a nenhum outro”, ou algo similar.

Eis, porém, a resposta do Senhor:

“Não sabeis o que pedis, retorquiu Jesus. Podeis vós beber o cálice que eu vou beber, ou ser batizados no batismo em que eu vou ser batizado? Podemos, asseguraram eles. Jesus prosseguiu: Vós bebereis o cálice que eu devo beber e sereis batizados no batismo em que eu devo ser batizado. Mas, quanto ao assentardes à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim: o lugar compete àqueles a quem está destinado” (Mc 10,38-40).

Então vejamos… Ao invés de rebater a idolatria dos discípulos segundo a qual seria possível compartilhar a glória divina, Nosso Senhor lhes diz que isto “não depende de mim: o lugar compete àqueles a quem está destinado”. Logo deduzimos que haverá alguém sentado na glória divina com Jesus, que a glória divina será “compartilhada” com alguns eleitos. O próprio Jesus assegura que a glória que Ele recebeu do Pai como Filho, ou seja, a própria glória de ser como Deus, Ele a dá aos discípulos:

“Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17,22).

E São Paulo, em diversas passagens, afirma que POSSUIREMOS um dia A GLÓRIA DE DEUS, que REFLETIMOS SUA GLÓRIA, que APARECEREMOS NA SUA GLÓRIA, que somos CHAMADOS À SUA GLÓRIA e que PARTICIPAREMOS DA GLÓRIA:

“Por ele é que tivemos acesso a essa graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos NA ESPERANÇA DE POSSUIR UM DIA A GLÓRIA DE DEUS” (Rm 5,2).

“Mas todos nós temos o rosto descoberto, REFLETIMOS como num espelho A GLÓRIA DO SENHOR e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor” (2Cor 3,18).

“Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também VÓS APARECEREIS COM ELE NA GLÓRIA” (Cl 3,4).

“…nós vos temos exortado, estimulado, conjurado a vos comportardes de maneira digna de Deus, que VOS CHAMA ao seu Reino e À SUA GLÓRIA” (1Ts 2,12).

“E pelo anúncio do nosso Evangelho vos chamou para TOMARDES PARTE NA GLÓRIA de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 2,14).

E não apenas São Paulo afirma essas coisas. São João ensina:

“Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, SEREMOS SEMELHANTES A DEUS, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3,2).

A visão da essência divina, no Céu, portanto, irá nos tornar “como” Deus, ou seja, seremos inundados pela glória infinita da Trindade.

Se Deus é digno de louvor, honra e glória, de um modo análogo os santos que sofreram pela fé e por Cristo também receberão do próprio Deus louvor, honra e glória. Quem prega isto é São Pedro:

“Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia ele nos fez renascer pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada para vós nos céus; para vós que sois guardados pelo poder de Deus, por causa da vossa fé, para a salvação que está pronta para se manifestar nos últimos tempos. É isto o que constitui a vossa alegria, apesar das aflições passageiras a vos serem causadas ainda por diversas provações, para que a prova a que é submetida a vossa fé (mais preciosa que o ouro perecível, o qual, entretanto, não deixamos de provar ao fogo) REDUNDE PARA VOSSO LOUVOR, PARA VOSSA HONRA E PARA VOSSA GLÓRIA, quando Jesus Cristo se manifestar” (1Pd 1,3-7).

E também o mesmo São Pedro indica que os santos são PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA:

“Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de TORNAR-VOS por este meio PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2Pd 1,4).

Os santos na glória são como Deus. Alguém poderia dizer que os santos são “divindades”… E, curiosamente, no Antigo Testamento encontramos várias passagens proféticas que mostram Deus sentado em uma corte de deuses:

“Levanta-se Deus na assembleia divina, entre os deuses profere o seu julgamento” (Sl 81,1).

“Porque vós, Senhor, sois o soberano de toda a terra, vós sois o Altíssimo entre todos os deuses” (Sl 96,9).

“Louvai o Deus dos deuses, porque sua misericórdia é eterna” (Sl 135,2).

Como, então, conciliar a “deificação” dos santos com o fato de Deus apenas ser Deus? Como afirmar que Deus não compartilha sua glória e, ao mesmo tempo, segundo a mesma Escritura, que Deus nos quer fazer participantes de sua própria divindade?

Para não dizer que a Bíblia está errada é preciso estabelecer uma distinção entre a glória que Deus tem por natureza (chamemo-la de a glória no Criador) e a glória que Deus comunica e manifesta em suas criaturas (glória na criatura). A glória no Criador é a manifestação da majestade infinita de Deus para e no próprio Deus, ou seja, a majestade divina infinita conhecida e compreendida por um poder de compreensão infinito, um poder que só Deus possui. Já a glória na criatura é a manifestação infinita da majestade de Deus para e em um ser finito, ou seja, a majestade divina infinita conhecida – e nunca compreendida – por um poder de compreensão finito, ainda que elevado acima de seu estado natural pela graça divina, como no caso dos anjos bons e dos santos. A glória no Criador não poderia ser compartilhada nem que Deus o quisesse, pois é impossível para o finito abarcar o infinito. Deus não pode criar outro Deus. Como ensina Santo Tomás de Aquino:

“Ora, nenhum intelecto criado pode alcançar aquele perfeito modo de conhecimento pelo qual a essência divina é cognoscível, o que assim se demonstra. Um ser é cognoscível na medida em que é atual. — Ora, Deus, cujo ser é infinito, como já demonstramos, é infinitamente cognoscível; mas, nenhum intelecto criado pode conhecê-lo infinitamente, porque cada qual conhece a divina essência mais ou menos perfeitamente, conforme é inundado de maior ou de menor lume da glória. Ora, como o lume criado da glória, recebido por qualquer intelecto criado, não pode ser infinito, é impossível que qualquer intelecto dessa natureza conheça infinitamente a Deus. Logo, não pode compreendê-lo” (Suma Teológica, Primeira Parte, Questão 12, Artigo 7).

Veremos Deus face a face na glória (se Deus quiser), mas não o compreenderemos intelectualmente:

“A palavra compreensão tem duplo sentido. Um estrito e próprio, segundo o qual um objeto se inclui no sujeito que compreende; e, neste sentido, Deus não pode, de nenhum modo, ser compreendido pelo intelecto, nem por nenhuma outra potência, porque, sendo infinito, não pode ser incluído no finito, de maneira que algum ser finito possa compreendê-lo tal como infinitamente é. Ora, é dessa compreensão que agora se trata. Mas, a compreensão, em sentido, mais amplo, opõe-se à pesquisa; assim, diz-se que compreende aquele que possui a quem procurava. E neste sentido, Deus é compreendido pelos bem-aventurados…” (Suma Teológica, Primeira Parte, Questão 12, Artigo 7)

“…quem vê a Deus em essência vê, nele, que existe infinitamente e é infinitamente cognoscível; mas, esse modo infinito não lhe pertence, de maneira que conheça infinitamente; assim, podemos saber provavelmente que uma proposição é demonstrável, embora não a conheçamos demonstrativamente” (Suma Teológica, Primeira Parte, Questão 12, Artigo 7).

E, para corroborar esta impossibilidade do infinito ser compreendido pelo finito, ou a impossibilidade de a glória divina no Criador ser comunicada à criatura, também lemos em Isaías:

“…ajo unicamente preocupado com minha honra: como tolerar que se profane meu nome? A ninguém POSSO ceder minha glória” (Is 48,11).

Deus não pode ser conhecido como conhece a Si mesmo porque tal coisa é impossível, uma contradictio in terminis, uma antinomia. O pecado dos idólatras, dos que adoram falsos deuses, está em atribuir a uma criatura o que sempre será exclusivo do Criador.

Só Deus é Deus por natureza. Os santos “são Deus”, contemplam e refletem a glória de Deus, por graça.

A manifestação dessa glória divina para e no intelecto criado, a visão da essência de Deus que assemelha a Deus sem remover a finitude, esta é dada por meio de Jesus Cristo a seus santos, àqueles que se unem aos seus sofrimentos e são crucificados para o mundo.

Quanto mais unidos a Cristo, quanto mais semelhantes a Ele (“Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” – Gl 2,20), mais semelhantes ao Pai nos tornamos: “Respondeu Jesus: Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe! Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai…” (Jo 14,9).

No Antigo Testamento, Moisés pediu ao Senhor: “‘Mostrai-me vossa glória’. E Deus respondeu: ‘Vou fazer passar diante de ti todo o meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome de YHWH. Dou a minha graça a quem quero, e uso de misericórdia com quem me apraz. Mas, ajuntou o Senhor, não poderás ver a minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver. Eis um lugar perto de mim, disse o Senhor; tu estarás sobre a rocha. Quando minha glória passar, te porei na fenda da rocha e te cobrirei com a mão, até que eu tenha passado. Retirarei depois a mão, e me verás por detrás. Quanto à minha face, ela não pode ser vista'” (Ex 33,18-23). O que foi negado naquele tempo a Moisés, no entanto, foi dado aos que vivem em Cristo, a verdadeira rocha da salvação: “Verão a sua face e o seu nome estará nas suas frontes” (Ap 22,4). “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido” (1Cor 13,12). “É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

Em resumo:

– Deus não divide nem pode dividir sua glória com ídolos (Is 42,8; Is 48,11).

– Deus glorifica (diviniza) seus santos (Jo 17,22; Rm 5,2; 2Cor 3,18; 1Jo 3,2; 2Pd 1,4).

– O santo glorificado (divinizado) vê a essência divina e participa desta essência, mas nunca será capaz de compreendê-la. Tal compreensão só é possível para o próprio Deus.

Portanto, vamos louvar, honrar e glorificar sem medo aqueles que o próprio Deus louva, honra e glorifica, fazendo-os brilhar como o Sol em seu Reino (Mt 13,43).

Anúncios
6 Comentários leave one →
  1. Anônimo permalink
    janeiro 30, 2015 4:04 pm

    Dá para ter argumentação só um pouquinho mais fraca?

    • ewcaetano permalink*
      janeiro 30, 2015 4:14 pm

      Replicar esse texto com uma palavra de sarcasmo, para mim, revela tão somente a incapacidade do replicante de tecer um contra-argumento razoável.

    • março 2, 2016 8:56 pm

      CADA UM TEM SEU LIVRE ARBÍTRIO. OU OBEDECE A DEUS OU A RELIGIÕES. EU PREFIRO, SEM DÚVIDAS, A DEUSSSSS!!.

      • ewcaetano permalink*
        março 2, 2016 11:31 pm

        E se obedecer a Deus é seguir a religião de Deus, ou seja, a religião que Deus instituiu para nossa salvação?

  2. Henry jones permalink
    junho 20, 2016 12:21 am

    Rapaz vc desrespeitou toda forma exesege e hermenêutico das escrituras….só uma pergunta, o que aconteceu com o povo hebreu quando Moisés desceu do monte e os pegou adorando um bezerro de ouro?
    Quando a arca da aliança caiu nas mãos dos filisteus e eles colocaram no templo de seu idolo o que aconteceu?

    • ewcaetano permalink*
      junho 20, 2016 1:26 am

      O texto começa fazendo distinção entre adoração (latria) e veneração (dulia). O povo hebreu cometeu um ato de idolatria com o bezerro de ouro e foi justamente condenado por isso. Já a glorificação dos santos não implica na transformação da natureza humana em natureza divina, mas numa participação por graça. Leia o texto com cuidado e você notará que a fundamentação bíblica é sólida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: