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Divina simplicidade

julho 26, 2013

galaxy-universe

Ateu: As leis da natureza não têm explicação, elas são um fato bruto que devemos aceitar.

Crente: Mas eu estou defendendo uma explicação: Deus é a causa que sustenta no ser todas as coisas. As leis da natureza que conhecemos são reflexo de uma lei divina.

Ateu: Tal explicação não é aceitável. Você está postulando que Deus existe.

Crente: Não estou postulando, estou mostrando que Deus é a única resposta razoável para a existência do Universo. Postulado arbitrário é dizer que as leis da natureza são a realidade última e indiscutível, pois sempre podemos imaginar um outro conjunto de leis ou comportamentos para a matéria sem cair em contradição. Logo, é necessário explicar por que este conjunto de leis é respeitado e não outro. E a resposta é que Deus estabeleceu essas leis.

Ateu: Então deve ser necessário dizer por que Deus existe.

Crente: Não, não é necessário. Deus não precisa de explicação porque Deus é absolutamente simples.

Deus não tem partes e não possui propriedades ou estrutura que possamos analisar. Sua essência não é distinta de sua existência e, consequentemente, não faz sentido inquirir de onde vem sua essência. Deus não pertence a nenhum genus ou categoria. Deus simplesmente É. Não é possível perguntar – como ocorre com as leis da natureza – por que este Deus existe e não outro. Dada a simplicidade divina, só pode haver um Deus pois, se houvesse mais de um, existiria então alguma característica X que distinguiria o deus A do deus B e, portanto, teríamos que explicar a origem desta diferença. Logo, o deus A não pode ser Deus (por ter X) e o deus B não pode ser Deus (por não ter X).

Ateu: Palavras rebuscadas, meu caro, mas que são apenas verborragia metafísica que esconde a conclusão nas premissas.

Crente: As premissas usadas nas várias demonstrações clássicas da existência de Deus são as mais óbvias, e não pressupõem a existência de Deus: existe movimento, existe causalidade eficiente, existe contingência, existem graus de verdade, bondade e beleza, existe finalidade. Negar qualquer uma dessas premissas significa negar a própria razão.

Ateu: Pois bem, a física já mostrou que não existe movimento e nem causalidade. O Universo segue as leis da mecânica quântica, as quais implicam na ocorrência de processos aleatórios no mundo atômico. Um elétron emite um fóton sem que sejamos capazes de identificar a existência de um mecanismo físico subjacente que cause a emissão.

Crente: Bem, o fato de inexistir um mecanismo que explique o decaimento do elétron não significa que não haja uma causa. Nem toda causa é mecânica. A aleatoriedade, por outro lado, demanda mais explicação do que a ordem, pois é necessário um nível infinito de complexidade algorítmica para produzir uma sequência verdadeiramente randômica.

Sobre o ponto de as leis da física não conseguirem capturar o movimento, que é um dado elementar da experiência humana, isto decorre, a meu ver, do próprio método usado nesta ciência, que procura identificar apenas relações matemáticas e, por conseguinte, atemporais, sob as aparências sensíveis da matéria. A física não enxerga movimento real porque é incapaz, em princípio, de detectar esse movimento. Ela apenas lida com “snapshots” quantitativos da realidade.

Ateu: Também não existe finalidade na natureza. Darwin mostrou que a evolução é um processo que não é teleológico.

Crente: Mesmo concedendo que a evolução darwiniana explica o surgimento das várias espécies de seres vivos ao longo do tempo (há controvérsias sobre isto, é o mínimo que posso dizer), ela ainda depende da existência de finalidade na natureza. Se um elétron, por exemplo, sempre é atraído por um próton, é porque este comportamento é selecionado de alguma forma entre os infinitos comportamentos imagináveis. Ora, se um ente se comporta sempre da mesma maneira nas mesmas circunstâncias, e não de outro modo, é porque existe finalidade, ainda que inconsciente, em seu comportamento. Elétrons agem sempre de maneira que, se colocados na presença de uma carga positiva, movem-se na direção desta carga. Uma pedra largada sempre se move para baixo, na direção do centro da Terra. Como o elétron ou a pedra “sabem” o que precisam de fazer? Decerto não possuem consciência para tanto, nem são livres. Logo, devemos concluir que algum tipo de intencionalidade guia sua ação.

Segundo Darwin, a evolução é impulsionada pela seleção natural e por mutações aleatórias. A seleção natural resulta da interação dos seres vivos com seu meio de modo que os indivíduos capazes de sobreviver e deixar mais descendentes aumentam sua participação no pool genético da espécie. As mutações, por outro lado, alteram o código genético e induzem mudanças fenotípicas que podem reduzir ou incrementar as chances de sobrevivência e reprodução. A acumulação gradual dessas mutações que beneficiam seus portadores, ao longo de centenas e milhares de gerações, produzirá novas espécies de seres vivos. A mim parece, portanto, que o mecanismo darwiniano possui como finalidade garantir a sobrevivência e expansão da vida em nosso planeta. Como um ser vivo “sabe” que precisa continuar vivo e que precisa se reproduzir se não existe uma intencionalidade que o guie para estas ações?

Ateu: Não há intencionalidade na natureza. Você está caindo no erro do antropomorfismo. A natureza é indiferente à vida, indiferente ao homem. É presunção achar que somos mais importantes que um mosquito ou uma ameba. Somos, afinal de contas, feitos todos dos mesmos elementos químicos: hidrogênio, carbono, nitrogênio, oxigênio… E cada elemento é formado das mesmas partículas fundamentais: elétrons e quarks.

Crente: Se a natureza é indiferente à vida, é estranhíssimo que esses elementos químicos, entre tantas maneiras de organização possíveis, tenham escolhido se associar de modo a formar água, proteínas, ácidos nucléicos e membranas lipídicas, e que esses elementos básicos tenham se juntado numa ordem espaço-temporal de modo a formar uma unidade capaz de absorver e transformar outros elementos até o ponto de fazer cópias de si mesma e evoluir.

Ateu: A vida é um acidente cósmico.

Crente: Um acidente cósmico, então, que depende do encaixe preciso de muitas peças. Difícil de engolir…

Ateu: Num Cosmo infinito tudo que pode acontecer eventualmente acontece.

Crente: Um Cosmo infinito, que não foi e nem pode ser demonstrado experimentalmente, diga-se de passagem, apenas multiplica o tamanho do problema. Teríamos então de explicar o porquê de todas as possibilidades se realizarem e não apenas algumas. Além disso, o Cosmo infinito torna inviável a prática da ciência, pois se qualquer coisa pode acontecer, não há razão para crer que daqui a um segundo este Universo continuará a existir, ou que a lei da gravidade continuará valendo. Também não poderemos ter certeza nunca de que o Universo é apenas uma ilusão produzida em um cérebro que se forma espontaneamente no espaço vazio a cada zilhão de anos.

Ateu: Sim, os cérebros de Boltzmann…

Crente: Pior do que isso… como saber que temos cérebros se não é possível ter certeza de que o mundo à nossa volta, cérebros incluídos, é real? Se tudo é possível, é tambem possível que a realidade tal como a conhecemos seja apenas uma grande ilusão criada por uma mente invisível. Saímos, então, da crença em Deus para a crença num demiurgo?

Ateu: Por isso não creio na filosofia. Creio na ciência, na evidência, no que pode ser repetido em laboratório, ainda que seja uma forma precária de conhecimento. Isso é melhor do que nada e, veja, é por causa disso que conseguimos atingir um alto grau de prosperidade e conforto material…

Crente: Sim, há muita riqueza e conforto material no mundo moderno. Mas, diferente de você, não consigo me contentar com isso. Acho que há coisas mais profundas que merecem atenção e estudo.

Ateu: Meu caro, você acredita em mitos, em fantasmas, em lendas medievais. A realidade é o que tocamos.

Crente: A realidade é mais do que isso.

Ateu: Tudo bem. Você pode enganar-se o quanto quiser. Eu prefiro aproveitar o que a vida tem de bom para oferecer enquanto há tempo. Depois vem o nada e nada mais importa. Até mais.

O ateu se afasta.

Crente: Pelo menos ele ainda acredita que existem coisas boas… Já é um começo.

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