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Pó de estrelas com um destino eterno…

outubro 20, 2013

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Sou grato a Carl Sagan por ter despertado em mim o interesse pela ciência e, em especial, pela astronomia. Contudo, não compartilho da visão materialista que, infelizmente, permeia sua obra inteira. Hoje sei que, quando se trata das relações entre religião e ciência, há diversos erros históricos nos seus livros e especialmente na série Cosmos. O tom de libelo anticristão transparece, por exemplo, no modo como ele narra o assassinato de Hipácia, a destruição da biblioteca de Alexandria e a condenação de Galileu Galilei (*), sem atentar para o que é pura propaganda e o que de fato ocorreu. Também discordo da tese de que o tamanho de alguma coisa é a medida de sua relevância. Se assim fosse, a vida humana que ele, um pacifista, propôs fosse sempre respeitada (**) seria tão relevante, em escala cósmica, quanto a existência de um certo átomo de hidrogênio em uma nebulosa. Não haveria mais razão para reconhecer a dignidade de uma pessoa do que para reconhecer a dignidade de uma partícula de matéria inerte. Tal raciocínio justifica qualquer coisa, a depender da escolha do sujeito. Se se decidir tratar um átomo como se nada fosse, então o genocídio e as maiores crueldades serão perfeitamente aceitáveis. Se, por outro lado, se decidir tratar um átomo como a coisa mais preciosa do mundo, então até mesmo o ato de matar uma formiga converter-se-á em um crime hediondo. O uso de uma escala puramente quantitativa acaba por destruir toda escala essencial, e a essência é o que permite estabelecer critérios morais objetivos, não o tamanho, a cor, a massa ou a carga elétrica de um corpo. O relativismo das grandezas físicas, que Sagan procurou transpor para a ordem moral, acaba relativizando o homem, o que de fato constitui a maior ameaça para a sobrevivência de nossa espécie.

(*) Sobre Hipácia e a biblioteca de Alexandria, vejam-se estes links:
http://armariummagnus.blogspot.com.br/2009/05/agora-and-hypatia-hollywood-strikes.html
http://armariummagnus.blogspot.com.br/2010/05/hypatia-and-agora-redux.html
http://armariummagnus.blogspot.com.br/2012/03/geologist-tries-history-or-agora-and.html
http://tofspot.blogspot.com.br/2013/10/the-mean-streets-of-old-alexandria.html

Os três primeiros, é bom saber, foram escritos por um medievalista ateu, Tim O’Neill.

Sobre o caso Galileu, recomendo a excelente série de textos de Michael Flynn:

http://tofspot.blogspot.com.br/2013/10/the-great-ptolemaic-smackdown-table-of.html

Sobre o impacto do cristianismo sobre o desenvolvimento da ciência na Idade Média, outro texto, também de Tim O’Neill:

http://armariummagnus.blogspot.com.br/2009/10/gods-philosophers-how-medieval-world.html

(**) Nem sempre, na verdade. Sagan era a favor do aborto. Ver http://2think.org/abortion.shtml

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