Skip to content

Unus et mediator Dei et hominum

outubro 30, 2013

The Forerunners of Christ with Saints and Martyrs

 

É claro que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, e que não temos outro Mediador igual ou paralelo a Cristo. Nenhum católico de bom senso nega esta verdade. De fato, é uma dedução lógica, dadas as premissas: o pecado abriu um abismo infinito entre a santidade de Deus e a humanidade. Nenhuma criatura humana, por conseguinte, pode cruzar tal abismo usando apenas sua própria virtude: somente Deus pode vencer o pecado. E Ele, deveras, fez isto do modo mais maravilhoso e espantoso possível: assumindo a nossa natureza, fazendo-se Carne, habitando neste mundo e morrendo por nós. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou” (Jo 13,1). “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6,51). Em Jesus, e em Jesus somente, “manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). Isto é ensinamento perspícuo da Igreja Católica, como lemos no Catecismo: “Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na unidade da sua Pessoa divina; por essa razão, Ele É O ÚNICO MEDIADOR entre Deus e os homens” (Catecismo da Igreja Católica, n. 480). Logo, não há fundamento para a acusação de que os católicos rejeitam a unicidade da mediação de Cristo.

O problema, no entanto, é que os protestantes enxergam os santos católicos e, especialmente, a Virgem Maria, como usurpadores da mediação de Cristo. No entendimento protestante, ou Jesus apenas é o mediador, ou os santos também são mediadores no mesmo nível de Jesus. É uma alternativa de extremos que destoa do que a própria Escritura afirma. O que a Igreja defende é uma mediação participada dos santos na mediação do Senhor. A mediação dos santos e a mediação de Maria não existem, portanto, em concorrência com a mediação de Cristo, em paralelo ao múnus de Sumo Pontífice do Salvador. Muito pelo contrário, a ação dos santos em favor da salvação dos homens depende intrinsecamente da mediação de Cristo. “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). É por estarem firmemente enxertados em Cristo que os santos podem fazer coisas grandiosas, até maiores do que as coisas que Nosso Senhor fez na Terra: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para junto do Pai” (Jo 14,12). Se Nosso Senhor, na glória, conhece as nossas necessidades e intercede por nós junto ao Pai, Ele o faz não só, digamos assim, em sua pessoa física, mas também por meio de sua pessoa mística, ou seja, a Igreja, mormente nos seus santos e, em particular, a sua Mãe Santíssima que foi escolhida como intercessora por excelência em favor dos homens. Quando Nosso Senhor fez o seu primeiro milagre público, em Caná da Galiléia (e isto apesar da resistência inicial de Nosso Senhor!), foi graças à intervenção de Maria:

“Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2,4-11).

Christianus alter Christus, “o cristão é outro Cristo”, ensinava São Cipriano de Cartago. “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). A alma do santo na glória ou a Virgem Santíssima já não vivem em si e por si mesmas, mas é o próprio Senhor quem nelas vive e reina. Suas vontades são a mesmíssima vontade de Cristo, seus desejos são exclusivamente os desejos de Cristo, sua caridade é idêntica à caridade de Cristo, e seu zelo pela salvação dos homens na Terra é o mesmo zelo de Cristo. Tornaram-se, portanto, perfeitos instrumentos de santificação e salvação nas mãos do único Mediador. A Igreja é o Corpo de Cristo, e todos os seus membros, especialmente os que estão na glória, contribuem para a reconciliação do mundo com Deus e a manifestação da santidade divina sobre a Terra. “Com efeito, a vida daqueles que fielmente seguiram a Cristo, é um novo motivo que nos entusiasma a buscar a cidade futura (cf. Hb 14,14; 11,10) e, ao mesmo tempo, nos ensina um caminho seguro, pelo qual, por entre as efêmeras realidades deste mundo e segundo o estado e condição próprios de cada um, podemos chegar à união perfeita com Cristo, na qual consiste a santidade. É sobretudo na vida daqueles que, participando conosco da natureza humana, se transformam, porém, mais perfeitamente à imagem de Cristo (cf. 2Cor 3,18) que Deus revela aos homens, de maneira mais viva, a Sua presença e a Sua face. Neles nos fala, e nos dá um sinal do Seu reino, para o qual, rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12,1) e tendo uma tal afirmação da verdade do Evangelho, somos fortemente atraídos” (Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 50, Concílio Vaticano II).

Ainda a Igreja, em seu ensino oficial, afirma: “É, portanto, muito justo que amemos estes amigos e co-herdeiros de Jesus Cristo, nossos irmãos e grandes benfeitores, que demos a Deus, por eles, as devidas graças, ‘lhes dirijamos as nossas súplicas e recorramos às suas orações, ajuda e patrocínio, para obter de Deus os benefícios, por Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor e Redentor e Salvador único’. Porque todo o genuíno testemunho de veneração que prestamos aos santos, tende e leva, por sua mesma natureza, a Cristo, que é a ‘coroa de todos os santos’ e, por Ele, a Deus, que é admirável nos seus santos e neles é glorificado. “Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe, recebe aquele que me enviou” (Mt 10,40).” (Lumen Gentium, n. 50).

Mas, dirão os protestantes, os santos católicos e Maria estão mortos! Os saduceus assim pensavam também, mas estavam redondamente enganados… “Não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Ex 3, 6)? Ele não é Deus de mortos, senão de vivos. Portanto, estais muito errados” (Mc 12,26b-27). “E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (Jo 11,26). “De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis” (Rm 8,13). “Eis uma verdade absolutamente certa: Se morrermos com ele, com ele viveremos” (2Tm 2,11). “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver no corpo é útil para o meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo – o que seria imensamente melhor; mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós…” (Fl 1,21-24)

Pela santificação de nossas almas, pela vida da graça recebida no batismo, tornamo-nos participantes da natureza divina. O que Deus é por natureza, tornamo-nos por graça. “O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo” (2Pd 1,3-4). Os santos julgarão os homens no dia do Juízo! “Não sabeis que os santos julgarão o mundo? E, se o mundo há de ser julgado por vós, seríeis indignos de julgar os processos de mínima importância?” (1Cor 6,2). Usurpação do papel de Cristo como Juiz? De jeito nenhum. Apenas a consequência do fato de que, em Cristo, realmente nos tornamos filhos de Deus, e não escravos: “…pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14). “E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8,17). “A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4,6).

Tendo, portanto, alcançado a perfeição na glória, os santos podem sim, em Deus, pela Mediação de Cristo, ter conhecimento de nossas súplicas e atender nossas orações. Não é pelo poder humano natural que eles fazem isto, frise-se. Mas por uma ação divina que os capacita a ser muito mais do que o que são por suas próprias forças. Se hoje o homem, com a ajuda da ciência e da tecnologia, já fala em expandir o poder de processamento do cérebro humano, quanto mais não pode Deus iluminar as almas de seus santos no Céu para que sejam capazes de compreender e apreender muito mais coisas do que seus corpos podiam assimilar enquanto vivos? “É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2,9). “Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3,2). Seremos semelhantes a Deus, senhores protestantes. Absorvam bem o que a Escritura diz: seremos semelhantes a Deus. Deus é onipotente, é onisciente, é onipresente. Os santos, que vêem Deus face a face, participam da onipotência, da onisciência e da onipresença divinas. Participam porque Deus, que é onipotente, QUER que participem. Dizer que Deus não pode fazer isso é limitar arbitrariamente a onipotência divina, é querer dizer a Deus que Ele não pode fazer o que Ele pode fazer.

Se os santos receberão tal prêmio, quanto mais a Virgem Maria Mãe de Deus! Foi a ela que Nosso Senhor crucificado confiou, na figura do discípulo amado, toda a Igreja: “Eis aí tua mãe” (Jo 19,27). Mais uma vez a Igreja ensina, prestem atenção: “O NOSSO MEDIADOR É SÓ UM, segundo a palavra do Apóstolo: ‘não há senão um Deus e um mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que Se entregou a Si mesmo para redenção de todos (1 Tm 2,5s). Mas a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece” (Lumen Gentium, n. 60). “Efetivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde vàriamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte. Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu mediador e salvador” (Lumen Gentium, 62).

Portanto, amados protestantes, não existe qualquer fundamento na acusação que vocês fazem contra os católicos, de que nós adoramos os santos ou de que nós colocamos outros mediadores no lugar do Único Mediador Cristo Jesus. Antes, o que a Igreja Católica prega é que a Mediação de Cristo é muito mais poderosa e ampla do que pode alcançar a teologia que vocês defendem. Nosso Senhor é o Mediador não só em seu corpo físico, mas através de todo o seu Corpo Místico, através de todos aqueles que n´Ele são enxertados pela fé. A mediação de Maria diminui a mediação de Cristo? Não. Ela manifesta a mediação de Cristo! Deus é tão poderoso que se serve de instrumentos humanos livres para comunicar sua graça, e isto só é possível porque a natureza humana está irreversivelmente unida à natureza divina no Verbo Encarnado. A nossa humanidade, em união com a humanidade de Cristo, jamais separada d’Ele, pode alcançar a vida divina e comunicá-la aos homens. O Espírito que nos foi dado não nos santifica apenas por fora, mas por dentro também, de modo que realmente nos tornamos filhos de Deus, e não apenas “encobertos” com o manto da justiça enquanto nossos corações continuam essencialmente corrompidos. A graça de Deus é real, o amor de Deus é real, e Ele realmente nos transforma, nos assimila, nos torna semelhantes ao que Ele é. “E, quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28). “Aí [no Céu] não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos” (Cl 3,11). “O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho” (Ap 21,7).

No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: