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Sola Scriptura, Nulla Scriptura

outubro 31, 2013

95-Thesessola-scriptura

Neste dia em que se recorda o fatídico episódio da apresentação pública das teses de Lutero, que marca o início da lamentável revolta protestante, proponho-me a analisar aquela que é a doutrina mais essencial do protestantismo, ou seja, a doutrina que define de modo mais nítido os seus confusos contornos. Trata-se da Sola Scriptura (que em latim significa “Somente a Escritura”), a qual pode-se formular nos termos seguintes:

“A Santa Bíblia, por ser a Palavra de Deus, é a ÚNICA REGRA infalível DA FÉ E DA PRÁTICA para os cristãos após a era pós-apostólica”.

Como definir o conceito de regra infalível da fé e da prática cristãs? Basicamente, os ensinamentos que devemos professar e o modo como devemos viver para alcançar a salvação estão na Escritura, que não possui nenhum erro, é absolutamente verdadeira e não pode enganar, por ser a Palavra de Deus.

Qual a reação católica diante de tal doutrina? Primeiramente, concordamos absolutamente com nossos irmãos separados que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita. “Inspirados pelo Espírito Divino, escreveram os sagrados autores aqueles livros que Deus, no seu paterno amor para com o gênero humano, se dignou dar-nos ‘para ensinar, para convencer, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e bem apetrechado para toda a obra boa’ (2Tm 3,16)” (Carta Encíclica Divino Afflante Spiritu – DAS, n.1, Papa Pio XII, 1943). Também afirmamos a inerrância da Sagrada Escritura: “…a divina inspiração ‘de sua natureza não só exclui todo erro, mas exclui-o e repele-o com a mesma necessidade com que Deus, suma verdade, não pode ser autor de nenhum erro. Esta é a fé antiga e constante da Igreja'” (DAS n.3). “E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras” (Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina – DV, n. 11, Concílio Vaticano II, 1965). Por fim, também defendemos que não se pode crer em nada que seja contrário ao sentido verdadeiro das Sagradas Escrituras, subsistindo uma diferença fundamental na compreensão de QUEM possui autoridade do Alto para alcançar tal sentido, dado que existem muitas interpretações humanamente possíveis para um conjunto tão vasto, complexo e interconectado de textos como é a Bíblia Sagrada.

Esclarecidos os pontos em comum, passemos para o erro na doutrina da Sola Scriptura, que está destacado com palavras em caixa-alta: a Bíblia ser reconhecida como ÚNICA REGRA DA FÉ E DA PRÁTICA para os cristãos após a morte de todos os Apóstolos (*). Onde achamos tal doutrina na própria Sagrada Escritura? Os protestantes apontam para uma série de versículos bíblicos como prova. Vejamos alguns deles para avaliar se são ou não cogentes:

Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (2Tm 3,16s).

Aqui São Paulo afirma a inspiração da Escritura, sua utilidade, seu papel na santificação do fiel e também como guia de conduta. O texto afirma a “Scriptura” com clareza. Não existe contudo, a menor sombra do termo qualificador que é o núcleo da tese protestante. Não existem nas palavras de São Paulo quaisquer traços de que somente, apenas, unicamente, nada além das Sagradas Letras merece ser acolhido como norma dogmática ou norma de práxis para a Igreja. Pelo contrário. Na mesma epístola a São Timóteo lemos:

Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste DE MIM sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o precioso depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1,13-14).

O que DE MIM OUVISTE em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros” (2Tm 2,2).

Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes DE QUEM aprendeste” (2Tm 3,14).

São Paulo, portanto, não ordenou a São Timóteo que tomasse por modelo APENAS os ensinamentos salutares da Bíblia, mas TAMBÉM os ensinamentos salutares que ele, São Paulo, transmitira ORALMENTE (Magistério, Tradição Apostólica (**)), e que São Timóteo por sua vez transmitisse a doutrina recebida para outros, em um processo contínuo e permanente. São Timóteo deve perseverar nas coisas que aprendeu diretamente de São Paulo (e não somente de leituras individuais da Bíblia Sagrada).

Como, portanto, conciliar essas declarações paulinas com a tese protestante da Sola Scriptura? Não deveria São Paulo, ao invés, ter ordenado a São Timóteo que guardasse apenas as palavras da Bíblia resistindo aos seus contraditores?

Além do mais, a que Escrituras São Paulo se refere em 2Tm 3,16s? Na época em que escrevia, não haviam sido definidos os livros inspirados do Novo Testamento. O que os primeiros cristãos entendiam, a princípio, como Escrituras Sagradas, eram apenas os livros do Antigo Testamento, os livros aceitos como sagrados pelos judeus. Estes, entretanto, não possuíam ainda uma lista definitiva de livros divinamente inspirados. Os saduceus, por exemplo, aceitavam apenas os cinco livros de Moisés (o Pentateuco), enquanto os fariseus incluíam livros históricos, salmos e profecias. Os manuscritos do Mar Morto contém livros que seriam posteriormente rejeitados pelos judeus da Palestina (descendentes espirituais dos fariseus da época de Nosso Senhor), incluindo o Eclesiástico e Tobias. Já os judeus dispersos no mundo grego adotavam a tradução conhecida como Septuaginta, que é também bastante empregada pelos hagiógrafos do Novo Testamento e usada até hoje na liturgia das Igrejas orientais. Em resumo, na época em que São Paulo escreveu a segunda epístola a São Timóteo (cerca de 67 d.C.), não existia ainda a Bíblia Sagrada como a conhecemos hoje: o cânone do Antigo Testamento não estava determinado entre os próprios judeus (que tinham rejeitado Nosso Senhor) e o Novo Testamento ainda não estava pronto. Logo, interpretar as palavras do Apóstolo como uma afirmação da doutrina protestante da Sola Scriptura é, além de contrário ao sentido do texto bíblico, um crasso anacronismo.

Outro texto invocado pelos defensores da Sola Scriptura é Ap 22,18s:

Eu declaro a todos aqueles que ouvirem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhes ajuntar alguma coisa, Deus ajuntará sobre ele as pragas descritas neste livro; e se alguém dele tirar qualquer coisa, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa, descritas neste livro“.

Este livro, de acordo com os protestantes, seria a Bíblia Sagrada em sua totalidade. No entanto, quando São João escreveu estes versículos (final do século I d.C.), ele se referia apenas ao Apocalipse: “pragas descritas neste livro” = pragas do Apocalipse (Ap 18), “árvore da vida e da Cidade Santa, descritas neste livro” = árvore da vida e Cidade Santa descritas no Apocalipse (Ap 21-22). Não haveria nem como São João ter em mente a Bíblia completa, dado que o cânone não tinha sido ainda fechado, mesmo entre os judeus.

Voltando a São Paulo, os protestantes insistem: 1Cor 4,6:

Se apliquei tudo isso a mim e a Apolo foi por vossa causa, para que, por meio de nós, APRENDAIS A NÃO ULTRAPASSAR O QUE ESTÁ ESCRITO e para que vos não ensoberbeçais tomando partido a favor de um e com prejuízo de outrem“.

Qual a interpretação correta deste versículo? Se São Paulo estivesse se referindo aqui à Escritura, ou seja, se ele estivesse dizendo que não se deve ir além do que está escrito na Bíblia, cairíamos novamente no problema do anacronismo, pois o fato é que a Primeira Epístola aos Coríntios, onde lemos tal passagem, não foi o último livro do Novo Testamento a ser redigido. Por exemplo, o Apocalipse é certamente posterior. Logo, se São Paulo estivesse afirmando a Sola Scriptura em 1Cor 4,6, estaria rejeitando automaticamente todos os livros do Novo Testamento que AINDA NÃO TINHAM SIDO ESCRITOS naquela ocasião. De resto, talvez os saduceus usassem uma passagem parecida (Dt 4,1s) para rejeitar todos os livros fora do Pentateuco: “E agora, ó Israel, ouve as leis e os preceitos que hoje vou ensinar-vos. Ponde-os em prática para que vivais e entreis na posse da terra que o Senhor, Deus de vossos pais, vos dá. Não ajuntareis nada a tudo o que vos prescrevo, nem tirareis nada daí, mas guardareis os mandamentos do Senhor, vosso Deus, exatamente como vos prescrevi”. Será que, por causa dessa passagem, vamos deixar de lado a maior parte do Antigo Testamento e todo o Novo? Se a lógica protestante é consistente, sim, pois devemos interpretar Dt 4,1s do mesmo modo que 1Cor 4,6.

Nos Atos dos Apóstolos, os protestantes julgam encontrar uma prova da Sola Scriptura na atitude dos judeus de Beréia:

Logo que se fez noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia. Quando ali chegaram, entraram na sinagoga dos judeus. Estes eram mais nobres do que os de Tessalônica e receberam a palavra com ansioso desejo, indagando todos os dias, nas Escrituras, se essas coisas eram de fato assim” (At 17,10s).

De fato, muitas “denominações” protestantes adotam o termo “bereano” a seus “ministérios” por causa desses versos. Supostamente os judeus bereanos seriam melhores que judeus de Tessalônica porque “checavam” em suas Bíblias (na verdade, apenas o Antigo Testamento, provavelmente na versão Septuaginta, por serem judeus helenizados) os ensinamentos de São Paulo. Mas qual era, realmente, o problema com os judeus de Tessalônica? Será que eles eram crédulos demais e não comparavam o que o Apóstolo dizia com as Escrituras? De modo algum. Voltemos um pouco, para o início do capítulo 17, versículos de 1 a 9:

Passaram por Anfípolis e Apolônia e chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo dirigiu-se a eles, segundo o seu costume, e por três sábados disputou com eles. Explicava e demonstrava, à base das Escrituras, que era necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dos mortos. E este Cristo é Jesus que eu vos anuncio. Alguns deles creram e associaram-se a Paulo e Silas, como também uma grande multidão de prosélitos gentios, e não poucas mulheres de destaque. Os judeus, tomados de inveja, ajuntaram alguns homens da plebe e com esta gente amotinaram a cidade. Assaltaram a casa de Jasão, procurando-os para os entregar ao povo. Mas como não os achassem, arrastaram Jasão e alguns irmãos à presença dos magistrados, clamando: Estes homens amotinam todo o mundo. Estão agora aqui! E Jasão os acolheu! Todos eles contrariam os decretos de César, proclamando outro rei: Jesus. Assim excitavam o povo e os magistrados. E só depois de receberem uma caução de Jasão e dos outros é que os deixaram ir“.

Logo o contraste entre os judeus de Tessalônica e Beréia não reside no uso, por parte desses últimos, de um crivo bíblico rígido para averiguar a validade da pregação de São Paulo, mas na abertura dos bereanos ao Evangelho, que estavam dispostos a ouvir o Apóstolo e sua pregação e a examinar as antigas profecias escriturísticas para ver se Nosso Senhor Jesus Cristo, de fato, as cumpria. Essa postura era bastante diferente do fechamento de mente dos judeus tessalonicenses, que rejeitaram a Boa-Nova. Note-se também que, se os bereanos praticavam a Sola Scriptura, então eles não podiam jamais aceitar a fé cristã, pois esta agrega diversas doutrinas ausentes do texto veterotestamentário.

A iniciativa de Nosso Senhor ou dos Apóstolos de citar as Sagradas Escrituras para demonstrar alguma proposição teológica tampouco implica na consideração da Bíblia como única regra de fé. Se percorrermos os escritos dos Padres da Igreja e todos os documentos dos Concílios e dos Papas acharemos inúmeras citações bíblicas sem que isto, obviamente, implique no reconhecimento, por parte da Igreja Católica, da doutrina da Sola Scriptura. Os protestantes, no entanto, muitas vezes confundem a utilidade da Bíblia e seu emprego como fonte da Revelação em debates religiosos com o reconhecimento de sua normatividade exclusiva e absoluta. Isto é um non sequitur, um erro lógico básico. O fato de um professor usar um certo livro de matemática não significa que este seja a única fonte segura e confiável, ou mesmo suficiente, de conhecimento sobre tão vasta ciência. Se isso fosse verdade, bastaria entregá-lo ao estudante para que este se convertesse em um grande matemático.

Ora, a Bíblia é muito mais profunda, muito mais rica e muito mais sutil do que qualquer livro meramente humano. Nela existem passagens difíceis que os exegetas mais experientes e sábios até hoje não conseguiram compreender. De fato, o próprio Senhor precisou interpretar as profecias do Antigo Testamento para que os que o escutam alcancem seu significado: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)?” (Mt 21,42). “Respondeu-lhes Jesus: Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22,29). “E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lc 24,27). “Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras…” (Lc 24,45). “Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a vida eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de mim” (Jo 5,39). Os próprios discípulos muitas vezes não entendiam o que havia nas Escrituras: “Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos” (Jo 20,9). São Filipe o Diácono teve de explicar o sentido de uma passagem bíblica para o ministro da rainha da Etiópia:

O Espírito disse a Filipe: Aproxima-te para bem perto deste carro. Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías, e perguntou-lhe: Porventura entendes o que estás lendo? Respondeu-lhe: Como é que posso, se não há alguém que mo explique? E rogou a Filipe que subisse e se sentasse junto dele. A passagem da Escritura, que ia lendo, era esta: Como ovelha, foi levado ao matadouro; e como cordeiro mudo diante do que o tosquia, ele não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi consumado o seu julgamento. Quem poderá contar a sua descendência? Pois a sua vida foi tirada da terra (Is 53,7s.). O eunuco disse a Filipe: Rogo-te que me digas de quem disse isto o profeta: de si mesmo ou de outrem? Começou então Filipe a falar, e, principiando por essa passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus” (At 8,29-35).

Somente quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, em Pentecostes, a Igreja tornou-se capaz de exercer, através do Magistério dos Apóstolos e de seus sucessores, em comunhão com São Pedro e os bispos que o sucederam em Roma, o poder de interpretar a Bíblia de modo infalível: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão” (Jo 16,13). São Pedro pregou aos judeus após a descida do Espírito, mostrando para eles o sentido de várias passagens das Escrituras judaicas que apontavam para a vinda e a missão de Cristo (ver At 2,14-39). Com autoridade apostólica, São Paulo “explicava e demonstrava [aos judeus], à base das Escrituras [o Antigo Testamento apenas], que era necessário que Cristo padecesse e ressurgisse dos mortos” (At 17,3). O mesmo São Pedro advertiu que a Escritura não deve ser interpretada por qualquer um, mas por aqueles que receberam do Espírito a autoridade para pregar em nome de Deus: “Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2Pd 1,20). E também condenou os que deturpavam o sentido dos escritos paulinos, já reconhecidos como parte de um Corpus inspirado de textos além do Antigo Testamento:

Reconhecei que a longa paciência de nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes homens ímpios” (2Pd 3,16).

De fato, a Escritura deve sempre ser entendida com a Igreja. Se podemos e devemos conhecer a Escritura desde a infância (2Tm 3,15), devemos conhecê-la dentro do contexto eclesial, reconhecendo que apenas a Igreja, no seu Magistério, possui autoridade para definir o significado verdadeiro do Texto Sagrado. A compreensão correta da Bíblia passa pelo filtro do ensinamento autêntico e constante da autoridade eclesiástica que recebeu de Cristo a missão e a graça de guardar fielmente o Depósito da Fé. “O encargo de interpretar autênticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado” (DV n. 10). No protestantismo não há Magistério, mas “livre” exame da Bíblia por parte de cada crente que se acredita diretamente iluminado pelo Paráclito e capaz de assimilar perfeitamente o que a Escritura quer comunicar. Não é preciso refletir muito para concluir que tal linha de pensamento é o que conduz inevitavelmente à divisão do protestantismo em milhares de seitas, cada um se julgando portadora da autêntica doutrina bíblica. Sem intérpretes autorizados, a Bíblia torna-se um instrumento de discórdia e afirmação do orgulho humano.

Como leigos, podemos estudar a Bíblia e tirar enorme proveito de sua leitura se nos mantivermos sempre obedientes à Igreja que, segundo a própria Bíblia, é a “coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15). Quem ouve a Igreja, ouve a voz do Salvador: “Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10,16). O mesmo vale para os exegetas e comentaristas do texto Bíblico que procuram aprofundar, usando as mais diferentes ferramentas de interpretação e contextualização histórica, a nossa compreensão do sentido das palavras inspiradas. O católico, portanto, ao contrário do que pensam os protestantes, não está “proibido” de ler e conhecer a Bíblia Sagrada, mas a penas de instrumentalizá-la para instituir seu magistério particular. Como ensina o Papa Pio XII:

Considerando as imensas fadigas abraçadas pela exegese católica durante quase dois mil anos, para que a palavra de Deus, comunicada aos homens nas Sagradas Letras, se compreenda cada dia mais perfeitamente e mais ardentemente se ame, surge espontânea a convicção de que os fiéis e particularmente os sacerdotes têm o grave dever de aproveitar larga e santamente aquele tesouro acumulado durante tantos séculos pelos maiores talentos. Deus não deu aos homens os Livros Santos para satisfazer a sua curiosidade, ou para lhes fornecer matéria de estudo e investigação, mas, como adverte o Apóstolo, para que estes divinos oráculos nos pudessem ‘instruir para a salvação pela fé em Jesus Cristo’ e para que ‘seja perfeito o homem de Deus, bem armado para toda a obra boa’. Portanto os sacerdotes que por oficio devem procurar a eterna salvação dos fiéis, depois de terem estudado diligentemente as sagradas páginas, e de as terem assimilado com a oração e meditação, distribuam com o devido zelo nos sermões, homilias e práticas as celestes riquezas da divina palavra; confirmem a doutrina cristã com sentenças dos Livros Santos, ilustrem-na com os preclaros exemplos da história sagrada, nomeadamente do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; e tudo isto, evitando diligente e escrupulosamente as acomodações arbitrárias e estiradas, verdadeiro abuso e não uso da divina Palavra, – exponham-no com tal facúndia e clareza, que os fiéis não só se movam e afervorem a melhorar a própria vida, mas concebam suma veneração para com a Sagrada Escritura. A mesma veneração procurem os sagrados pastores instilar e aperfeiçoar cada vez mais nos fiéis comados ao seu zelo pastoral, fomentando todas as empresas de homens apostólicos que louvavelmente se esforçam por excitar e fomentar entre os católicos o conhecimento e amor dos Livros Santos. Favoreçam pois e auxiliem as associações que têm por fim difundir entre os fiéis exemplares da Sagrada Escritura, particularmente dos Evangelhos, e procurar que nas famílias cristãs se leiam regularmente todos os dias com piedade e devoção; recomendem eficazmente com palavra e exemplo, onde o consente a Liturgia, a Sagrada Escritura traduzida nas línguas modernas com a aprovação da autoridade eclesiástica; façam eles próprios conferências ou lições públicas de assuntos bíblicos, ou encarreguem de as fazer a outros oradores bem versados na matéria. As revistas que com tanto louvor e fruto se publicam nas várias partes do mundo para versar cientificamente as questões bíblicas, para adaptar os resultados daquelas investigações ao sagrado ministério e ao espiritual aproveitamento dos fiéis, procurem todos os ordinários, quanto lhes for possível, ampará-las e difundi-las nas diversas classes dos seus rebanhos. E persuadam-se que tudo isto e o mais que um zelo apostólico e um sincero amor da divina Palavra saberá encontrar para obter tão sublime fim, será para eles um auxílio eficaz na cura das almas” (DAS n. 26).

E, ainda, o Concílio Vaticano II:

…o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam ‘a sublime ciência de Jesus Cristo’ (Fl 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque ‘a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo’. Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque ‘a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos’” (DV n. 25).

Por fim, neste dia triste em que Lutero iniciou um processo que culminou na destruição da Cristandade e no nascimento do mundo moderno, cada vez mais distante de Deus, cada vez mais imerso em formas terríveis de idolatria e corrupção espiritual, resta-nos lamentar que tantos católicos tíbios se deixem seduzir pela heresia da Sola Scriptura, esquecendo que a Bíblia não estaria disponível se a Igreja Católica não a tivesse preservado e não tivesse discernido, em sua liturgia, quais livros deviam formar o Antigo e o Novo Testamento. Os protestantes receberam a Bíblia da Igreja Católica e, simultaneamente, rejeitaram esta em favor daquela. Tal contradição, para um observador sereno e imparcial, não deixa de ser espantosa, ao mesmo tempo em que aponta para a impossibilidade de qualquer consistência lógica dos irmãos separados.

(*) A crença de que a revelação pública se encerrou com a morte do último Apóstolo, embora seja razoável, não é afirmada explicitamente em nenhum ponto da Bíblia.

(**) A propósito do trinômio Bíblia, Tradição e Magistério eclesiástico, encontrei uma interessante reflexão fazendo um paralelo com o mistério da Santíssima Trindade. Ei-la:

Tradição, Escritura, Magistério refletem a Santíssima Trindade. A Tradição é maior do que a Escritura, do mesmo modo que o Pai é maior do que o Filho. A Escritura procede da Tradição, como o Filho procede do Pai. A Escritura é uma obra escrita, que surge da Tradição. O Filho é a Palavra de Deus, que surge do Pai. Se não houvesse o Pai, não haveria o Filho. Se não houvesse a Tradição, não haveria a Escritura. O Magistério procede da Tradição e da Escritura, assim como o Espírito procede do Pai e do Filho. O Magistério é vivificado pelo Espírito. O Magistério procede em primeiro lugar da Tradição e em segundo lugar da Escritura, assim como o Espírito procede em primeiro lugar do Pai e em segundo lugar do Filho. O Magistério ensina primeiramente a partir da Tradição e secundariamente a partir da Escritura, assim como o Espírito ensina primeiramente a partir do Pai e e secundariamente a partir do Filho. O Espírito ensina secundariamente a partir do Filho, porque o Filho conhece apenas aquilo que o Pai lhe ensinou e somente aquilo que recebeu do Pai. O Filho é segundo em relação ao Pai e, portanto, o Espírito procede primeiramente do Pai e secundariamente do Filho. A Escritura é secundária em relação à Tradição e, portanto, o Magistério ensina primariamente a partir da Tradição e secundariamente a partir da Escritura. Tradição-Escritura-Magistério é um dom santo com três aspectos, assim como o Pai-Filho-Espírito Santo é um único Deus santo em Três Pessoas. Não poderia ser de outro modo. ‘Aquele que tem ouvido, ouça o que o Espírito diz para as igrejas’ (Ap 2,7)” (Ronald L. Conte Jr.).

One Comment leave one →
  1. Antonio permalink
    agosto 30, 2014 12:21 am

    Muito interessante, parabéns!!!! Seria também interessante alguns exemplos de ensinamentos ou doutrinas por este ou aquele apóstolo que não se encontram no texto veterotestamentário, como exemplo, cito o arrebatamento.

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