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Purgatório: chama viva de amor

novembro 1, 2013

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Oh! Chama de amor viva que ternamente feres
De minha alma no mais profundo centro!
Pois não és mais esquiva,
Acaba já, se queres,
Ah! Rompe a tela deste doce encontro.
Oh! Cautério suave!
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão! Oh! Toque delicado
Que a vida eterna sabe,
E paga toda dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.
Oh! Lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
que estava escuro e cego,
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto a seu Querido!
Oh! Quão manso e amoroso
Despertas em meu seio
Onde tu só secretamente moras:
Nesse aspirar gostoso,
De bens e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!
(São João da Cruz, 1542-1591)

É triste em nossos dias constatar que pouco nos preocupamos com as almas separadas dos nossos entes queridos que já se foram. Nos ritos fúnebres que celebramos, tornou-se rotineiro presumir que a alma do morto já está no Céu usufruindo da bem-aventurança. Isto é particularmente verdadeiro entre os protestantes, que creem erroneamente na salvação automática dos seus irmãos que “aceitaram Jesus” antes de morrer (*). Mesmo muitos padres católicos parecem negar a doutrina do purgatório, solenemente definida pela Igreja (**). Ora, é costume antiquíssimo e bíblico o rezar pelos mortos, e é incompreensível a coexistência de tal costume com a afirmação de que as almas dos mortos estão sempre plenamente felizes no Céu:

No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais. Ora, sob a túnica de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jânia, proibidos aos judeus pela lei: todos, pois, reconheceram que fora esta a causa de sua morte. Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados. Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas” (2Mc 12,39-46).

Para entender a razão desse costume de rezar pelas almas dos mortos é preciso entender primeiro o que é o Céu. O que significa para a alma “ir para o Céu”? Ora, estar no Céu é ver Deus face a face, coisa que nenhum de nós pode conceber, pois é algo infinitamente acima de nossa capacidade natural de compreensão. “Nenhum olho viu” o que Deus reservou para os eleitos (1Cor 2,9). Mesmo assim, a Escritura, a Tradição e o Magistério da Igreja dão-nos indicações seguras sobre a natureza da santidade de Deus. A carta aos Hebreus mostra que estar diante do Senhor não é para qualquer um:

Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição, enfim, de Jesus, o mediador da Nova Aliança, e do sangue da aspersão, que fala com mais eloqüência que o sangue de Abel. Guardai-vos, pois, de recusar ouvir aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que dele se desviaram, quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós, se o repelirmos, quando nos fala desde o céu. Depois de ter outrora abalado a terra pela sua voz, ele hoje nos faz esta solene declaração: Ainda uma vez por todas moverei, não só a terra, mas também o céu (Ag 2,6). As palavras ainda uma vez indicam o desaparecimento do que é caduco, do que foi criado, para que só subsista o que é imutável. Sim, possuindo nós um reino inabalável, dediquemos a Deus um reconhecimento que lhe torne agradável o nosso culto com temor e respeito. Porque nosso Deus é um fogo devorador (Dt 4,24)” (Hb 12,22-28).

Deus é como o fogo e, para estarmos diante de Deus, precisamos passar pela prova do fogo do amor divino:

Um crisol para a prata, um forno para o ouro; é o Senhor, porém, quem prova os corações” (Pr 17,3).

Ai de mim, gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo (também) de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos! Porém, um dos serafins voou em minha direção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Aplicou-a na minha boca e disse: Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada” (Is 6,5-7).

Em toda a terra – oráculo do Senhor – dois terços dos habitantes serão exterminados e um terço subsistirá. Mas farei passar este terço pelo fogo; purificá-lo-ei como se purifica a prata, prová-lo-ei como se prova o ouro. Então ele invocará o meu nome, eu o ouvirei, e direi: Este é o meu povo; e ele responderá: O Senhor é o meu Deus” (Zc 13,8s).

Quem estará seguro no dia de sua vinda? Quem poderá resistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros. Sentar-se-á para fundir e purificar a prata; purificará os filhos de Levi e os refinará, como se refinam o ouro e a prata; então eles serão para o Senhor aqueles que apresentarão as ofertas como convêm. E a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora” (Ml 3,2-4).

Quando morremos, a alma separada retorna para Deus, que a criou. Se a alma, contudo, não estiver completamente pura, completamente santa, ela não poderá se apresentar imediatamente diante de Deus. Para tornar-se semelhante ao fogo, deve-se remover toda a escória, toda a disposição que a prende às coisas transitórias. Todo o apego desordenado aos bens do mundo, aos parentes, às criaturas, precisa dar lugar ao amor puríssimo de Deus. Todas as penas temporais devidas pelos pecados cometidos devem ser expiadas e resgatadas:

O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lc 12,47s).

Nada de impuro pode entrar na Jerusalém Celeste, nada de imperfeito pode subsistir diante d’Aquele que é o Sumo Bem, a Suprema Perfeição:

Nela [na Jerusalém Celeste] não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras, mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21,27).

Há um perdão póstumo para aqueles que não ofenderam gravemente Nosso Senhor e morreram na amizade de Deus, em estado de graça:

Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro” (Mt 12,32).

Mas é preciso reparar o mal que foi feito, pagar “até o último centavo” o que ficou devido à justiça de Deus:

Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo? Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele te não arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo” (Lc 12,57-59).

Sendo, portanto, Deus como o fogo abrasador, Ele descobrirá nossas faltas diante de nossos olhos quando nos apresentarmos diante de seu tribunal de amor. Nossas obras serão testadas e, mesmo que elas sejam insuficientes, ainda assim alcançaremos misericórdia, completando pelo sofrimento o que falta à caridade. A purificação do amor divino, em verdade, não toca apenas a superfície do ser, mas queima até o núcleo mais profundo da alma, salvando-a:

Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo” (1Cor 3,11-15).

O próprio Apóstolo São Paulo rezou por Onesíforo, já falecido, para que ele pudesse ser recebido pelo Justo Juiz com misericórdia, ao invés de dar como certa a sua entrada no Céu:

O Senhor conceda sua misericórdia à casa de Onesíforo, que muitas vezes me reconfortou e não se envergonhou das minhas cadeias! Pelo contrário, quando veio a Roma, procurou-me com solicitude e me encontrou. O Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia junto do Senhor naquele dia. Sabes melhor que ninguém quantos bons serviços ele prestou em Éfeso” (2Tm 1,16-18).

Nos Santos Padres há inúmeras referências ao purgatório que demonstram não ser o mesmo uma “invenção medieval tardia” (***), mas um legítimo desenvolvimento da doutrina recebida de Cristo e dos Apóstolos. A oração dos primeiros cristãos suplicando refrigério para as almas que partiram já sugere a idéia de “esfriamento”, ou seja, de atenuação do calor que as purifica. Elenco aqui algumas citações, uma pequena amostra da coerência e continuidade da fé da Igreja ao longo dos séculos:

Oferecemos sacrifícios pelos mortos no aniversário de seus nascimentos [para a vida eterna]” (Tertuliano, 155-220 d.C., De Corona 3,3)

Eu, Abércio, ditei este texto
E o fiz gravar na minha presença
Aos setenta e dois anos.
O irmão que o ler por acaso
Ore por Abércio” (Epitáfio de Abércio, bispo de Hierápolis, Século II d.C.).

Naquela mesma noite isto me foi mostrado em uma visão: Eu [Perpétua] vi Dinócrates indo para um lugar escuro, onde também havia vários outros, e ele estava ressecado e muito sedento, com o rosto sujo e pálido, e o ferimento em sua face que ele tinha antes de morrer. Este Dinócrates tinha sido meu irmão segundo a carne, com sete anos de idade, o qual morrera miseravelmente por causa de uma doença… Por ele eu fiz minha oração, e entre ele e eu havia um grande espaço, de modo que um não podia se aproximar do outro… E eu sabia que meu irmão estava sofrendo. Mas eu confiei que minha oração o ajudaria em seu sofrimento; e Eu orei por ele todos os dias até o dia em que fomos para a prisão do campo… Então… eu orei dia e noite por meu irmão, gemendo e chorando… No dia em que ficamos presos com correntes, isto me foi mostrado: Eu vi o lugar que anteriormente estava na escuridão, e ele estava iluminado; e Dinócrates, com um corpo limpo e bem guarnecido… saiu da água brincando alegremente, como fazem as crianças, e eu acordei. E então eu entendi que ele tinha saído do lugar de castigo” (O Martírio de Perpétua e Felicidade 2,3-4, 202 d.C.).

Através de grande disciplina o crente se despoja das suas paixões e passa a mansão melhor que a anterior; passa pelo maior dos tormentos, tomando sobre si o arrependimento das faltas que possa ter cometido após o seu batismo. Então, é torturado mais ao ver que não conseguiu o que os outros já conseguiram. Os maiores tormentos são atribuídos ao crente porque a justiça de Deus é boa e sua bondade é justa; e estes castigos completam o curso da expiação e purificação de cada um” (Clemente de Alexandria, 150-215 d.C., Stromata 4,14).

Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa, receber simultaneamente o valor e o salário da fé. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purificado pelo fogo; outra coisa é ter sido purificado de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser coroado pelo Senhor” (São Cipriano de Cartago, 200-258 d.C., Epístola 51,20).

Porém, quando julgar os justos, Ele também os provará com fogo. Então aqueles cujos pecados excederem em peso ou número, serão chamuscados pelo fogo e queimados; mas aqueles a quem imbuiu a justiça e plena maturidade da virtude não perceberão esse fogo porque eles têm algo de Deus neles mesmos, que repele e rejeita a violência da chama” (Lactâncio, 240-320 d.C., Instituições Divinas 7,21).

Quando se cumprir o trigésimo dia [da minha morte], lembrai-vos de mim, irmãos. Os falecidos, com efeito, recebem ajuda graças a oferenda que fazem os vivos (…) Se como está escrito, os homens de Matatias encarregados do culto em favor do exército expiaram, pelas oferendas, as culpas daqueles que tinham perecido e eram ímpios por seus costumes, quanto mais os sacerdotes de Cristo, com suas santas oferendas e orações, expiarão os pecados dos falecidos” (Santo Efrém o Sírio, 306-373 d.C., Testamento, 72,28).

Recordamos também de todos os que já dormiram; em primeiro lugar, os patriarcas, os profetas, os apóstolos, os mártires, para que, por suas preces e intercessão, Deus acolha a nossa oração. Depois, também pelos santos padres, bispos falecidos e, em geral, por todos cuja vida transcorreu entre nós, crendo que isso será da maior ajuda para aqueles por quem se reza. Quero vos esclarecer isso com um exemplo: visto que muitos ouviram dizer: para que serve a uma alma sair deste mundo com ou sem pecados se depois faz-se menção dela na oração? Suponhamos, por exemplo, que um rei envia ao desterro alguém que o ofendeu; porém, depois, os seus parentes, afligidos pela pena, lhe oferecem uma coroa. Por acaso não ficarão agradecidos pelo relaxamento dos castigos? Do mesmo modo, também nós apresentamos súplicas a Deus pelos falecidos, ainda que sejam pecadores. E não oferecemos uma coroa, mas sim Cristo morto por nossos pecados, pretendendo que o Deus misericordioso se compadeça e seja propício tanto com eles quanto conosco” (São Cirilo de Jerusalém, 313-386 d.C., Catequese 13,9-10)

Vamos ajudá-los e comemorá-los. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (Jó 1,5), por que duvidamos que nossas oferendas pelos mortos lhes trarão algum consolo?” (São João Crisóstomo, 349-307 d.C., Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios 41,5).

Castigos temporais são inflingidos a alguns nesta vida apenas, a outros após a morte, e a outros nesta vida e após a morte, mas todos antes daquele último e rigoroso julgamento. Mas nem todos que sofrem castigos temporais após a morte receberão o castigo eterno, que se seguirá após aquele julgamento” (Santo Agostinho, 354-430 d.C., A Cidade de Deus 21,13).

Não se pode negar que as almas dos falecidos são aliviadas pela piedade dos parentes vivos, quando oferecem por elas o sacrifício do Mediador ou quando praticam esmolas na Igreja. Porém, estas coisas aproveitam aquelas [almas] que, quando viviam, mereceram que se lhes pudessem aproveitar depois. Pois há um certo modo de viver, nem tão bom que aproveite destas coisas depois da morte, nem tão mal que não lhes aproveitem; há tal grau no bem que o que possui não aproveita de menos; ao contrário, há tal [grau] no mal que não pode ser ajudado por elas quando passar desta vida. Portanto, aqui o homem adquire todo o mérito com que pode ser aliviado ou oprimido após a morte. Ninguém espere merecer diante de Deus, quando tiver falecido, o que durante a vida desprezou” (Santo Agostinho, 354-430 d.C., Das Oito Questões de Dulcício 2, 4).

Tal como alguém sai deste mundo, assim se apresenta no Juízo. Porém, deve-se crer que exista um fogo purificador para expiar as culpas leves antes do Juízo. A razão para isso é que a Verdade afirma que se alguém disser uma blasfêmia contra o Espírito Santo, isto não lhe será perdoado nem neste século nem no vindouro. Com esta sentença se dá a entender que algumas culpas podem ser perdoadas neste mundo e algumas no outro, pois o que se nega em relação a alguns deve-se compreender que se afirma em relação a outros (…) No entanto, tal como já disse, deve-se crer que isto se refere a pecados leves e de menor importância” (São Gregório Magno, 540-604 d.C., Diálogos 4,39).

O purgatório é imensamente doloroso para as almas que ali estão, mas é uma dor temperada pela certeza de ir para o Céu, pois elas sabem que verão a Deus após ficarem puras. “Estando, por isso, essas almas em caridade e dela não mais podendo sair com defeito atual, não podem mais querer nem desejar a não ser o puro querer da pura caridade; e estando naquele fogo purgatório estão na ordenação divina. Ela é pura caridade; em por qualquer coisa delas não podem se desviar, porque agora estão privadas tanto da capacidade de pecar como também de atualmente merecer” (Santa Catarina de Gênova, 1447-1510, Tratado do Purgatório, n. 3). A Igreja ensina que podemos ajudar sua dor a diminuir e passar mais rápido através de nossas orações e, especialmente, através do oferecimento do Sacrifício Eucarístico em sua intenção:

E como neste divino sacrifício, que se realiza na Missa, se encerra e é sacrificado incruentamente aquele mesmo Cristo que uma só vez cruentamente no altar da cruz se ofereceu a si mesmo (Heb 9, 27), ensina o santo Concilio que este sacrifício é verdadeiramente propiciatório [cân. 3], e que, se com coração sincero e fé verdadeira, com temor e reverência, contritos e penitentes nos achegarmos a Deus, conseguiremos misericórdia e acharemos graça no auxilio oportuno (Heb 14, 16). Porquanto, aplacado o Senhor com a oblação dele e concedendo o dom da graça e da penitência, perdoa os maiores delitos e pecados. Pois uma e mesma é a vítima: e aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que, outrora, se ofereceu na Cruz, divergindo, apenas, o modo de oferecer. Os frutos da oblação cruenta se recebem abundantemente por meio desta oblação incruenta, nem tão pouco esta derroga aquela [cân. 4]. Por isso, com razão se oferece, consoante a Tradição apostólica, este sacrifício incruento, não só pelos pecados, pelas penas, pelas satisfações e por outras necessidades dos fiéis vivos, mas também pelos que morreram em Cristo, e que não estão plenamente purificados [cân. 3]” (Concílio de Trento, Sessão XXII, n. 940).

Se alguém disser que o sacrifício da Missa é somente de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício consumado na cruz, mas que não é propiciatório, ou que só aproveita ao que comunga, e que não se deve oferecer pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades — seja excomungado [cfr. n° 940]” (Concílio de Trento, Sessão XXII, n. 950 – Cânone 3).

Já que a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, apoiada nas Sagradas Letras e na antiga Tradição dos Padres, ensinou nos sagrados Concílios e recentemente também neste Concílio Ecumênico, que existe purgatório [cfr. n° 840], e que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do altar [cfr. n° 940, 950], prescreve o santo Concílio aos bispos que façam com que os fiéis mantenham e creiam a sã doutrina sobre o purgatório, aliás transmitida pelos santos Padres e pelos Sagrados Concílios, e que a mesma doutrina seja pregada com diligência por toda parte” (Concílio de Trento, Sessão XXV, n. 983).

Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1032).

Neste dia de finados, em que faremos memória dos entes queridos que se foram, meditemos sobre a transitoriedade das coisas deste mundo e sobre como não vale a pena apegar-se a elas. Pensemos em como o mais leve pecado, se não for expiado nesta vida, terá de ser dolorosamente eliminado de nossas almas no purgatório se tivermos a felicidade de morrer em estado de graça. E rezemos com fervor e caridade pelas almas de nossos mortos, para que encontrem o refrigério, para que não tenham mais impurezas a ser queimadas pelo fogo amoroso de Deus e descansem em paz.

(*) Os protestantes via de regra não acreditam que a graça divina opere uma transformação real do pecador. Para eles a santidade é sempre algo extrínseco, um manto de justiça que encobre o homem essencialmente mau sem fazer com que este se converta de fato. O protestantismo nega a necessidade de qualquer processo de purificação da alma após a morte pois o crente está exteriormente revestido da justiça de Cristo e tem certeza de ir para o Céu, mesmo que carregue consigo inúmeras imperfeições.

(**) “Se alguém disser que a todo pecador penitente, que recebeu a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação à pena eterna, que não lhe fica obrigação alguma de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus — seja excomungado” (Concílio de Trento, Seção VI, Cânones sobre a justificação, n. 840 – Cânone 30).

(***) O que os medievais fizeram (conferir o livro “O nascimento do purgatório”, do historiador Jacques Le Goff) e que, talvez, possamos considerar um excesso de imaginação, foi conceber o purgatório também como lugar, no contexto mais amplo de uma cartografia do mundo póstumo (ver, por exemplo, a Divina Comédia de Dante). O essencial na doutrina do purgatório, contudo, é a crença num perdão depois da morte, não sendo absolutamente relevante que tal perdão se dê em um lugar delimitado. Nesse sentido, o purgatório não foi de nenhum modo concebido na Idade Média, mas é uma crença que remonta seguramente ao judaísmo próximo aos tempos de Cristo, como mostra o sacrifício de Judas Macabeu em sufrágio pelos mortos (2Mc 12,39-46) e o ensinamento de Jesus sobre o perdão na vida futura (Mt 12,32).

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