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Física não é metafísica

novembro 18, 2013

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Se as histórias do universo no tempo imaginário forem realmente superfícies fechadas, como Hartle e eu propusemos, isso teria consequências fundamentais para a filosofia e para nossas concepções sobre de onde viemos. O universo seria inteiramente autocontido e não necessitaria de nada fora dele para dar corda na máquina e colocá-lo em movimento.” (Stephen Hawking, O Universo em uma Casca de Noz)

O primeiro problema com a afirmação do célebre físico inglês está na ideia de que um princípio da física pode ter repercussões “fundamentais” sobre a filosofia. Ora, este é um erro clássico do cientificismo, a saber, que as ciências experimentais são superiores à filosofia ou podem determinar como a filosofia deve ser. A verdade é que a física e todas as ciências experimentais partem da aceitação de certas premissas metodológicas que não podem ser justificadas cientificamente (*), mas que são aceitas, antes, a partir de uma análise eminentemente filosófica. Precedendo a ciência temos a filosofia da ciência, que visa justamente embasar o método científico com uma justificativa racional que não é nem pode ser a da própria ciência experimental (isto seria equivalente a acreditar na lorota do barão de Münchhausen, que dizia ter saído de um pântano puxando a si mesmo pelos cabelos). A própria física moderna nasceu da chamada “filosofia natural” (basta lembrar o título da obra-prima de Newton). Mesmo a crença segundo a qual a ciência experimental é a única forma válida de se obter conhecimento – o cientificismo – é uma crença filosófica, já que nenhum laboratório do mundo consegue “medir” tal unicidade (**). Na verdade, a história demonstra que os pressupostos filosóficos, juntamente com as medidas empíricas, são essenciais para o avanço da ciência. Por exemplo, Newton construiu sua mecânica alicerçada nas noções filosóficas de espaço e tempo absolutos, enquanto Einstein partiu de um princípio estético para chegar na teoria da relatividade, qual seja o da invariância de todas as leis da física quando se mudam as coordenadas de observação. Já a mecânica quântica só pôde florescer quando se rejeitou o princípio filosófico do determinismo, de acordo com o qual o estado físico de um sistema físico em um dado instante determina completamente sua evolução temporal. Em outras palavras, a física mais atual mostra que a matéria contém algo além do que se pode medir, e que este algo imensurável governa o mundo subatômico e, por conseguinte, os constituintes fundamentais de tudo o que existe.

Daí brota outro erro de Hawking, que consiste na crença de que a matemática (“tempo imaginário”) esgota tudo o que se pode dizer do Universo. Se é verdade que Deus criou o mundo com ordem e proporção, também é verdade que existem aspectos fundamentais da realidade que não podem ser quantificados. De fato, a ciência experimental (vejam como a filosofia é importante) é uma abstração do real em que todos os acidentes fora da quantidade SÃO DELIBERADAMENTE IGNORADOS. Um físico não tem como medir, em princípio, a cor, odor, sabor e textura de um objeto. O que ele mede são comprimentos de onda, pesos moleculares, cargas elétricas transferidas, constantes de elasticidade e cisalhamento, etc. Ou seja, tudo o que percebemos pelos sentidos é filtrado pela física e despojado de suas qualidades acidentais, restando apenas números que se relacionam entre si de acordo com algum padrão que é justamente uma nova lei física a descobrir, e esta lei é óbvia e necessariamente matemática ou geométrica. A física, além disso, não responde e nem pode responder questões metafísicas como a natureza da matemática, a natureza do movimento, o que é a causalidade, o que é o conhecimento, o que é o certo e o errado, o que é o bom, o que é o belo, ou qual o propósito da existência.

Santo Tomás: um universo infinito não é problema para a existência de Deus.

Santo Tomás: um universo infinito não é problema para a existência de Deus.

Ainda outro equívoco de Hawking é sua concepção deísta da criação, que não é a concepção do teísmo clássico (o qual abrange tradições filosóficas tanto do Ocidente cristão como do pensamento judaico e islâmico). Segundo Santo Tomás de Aquino, por exemplo (cuja filosofia é reconhecida como referência segura pela Igreja), Deus não criou o Universo em algum momento do passado e este, a partir de então, continuou a existir por conta própria. Antes, diz o Aquinate, o Universo é sempre criatura, ou seja, o Universo é criado agora, neste instante. A criação não é um evento do passado, mas algo sempre atual (ainda segundo Santo Tomás, é impossível demonstrar filosoficamente que o Universo teve um princípio. Sabemos que ele começou a existir apenas por causa da Revelação divina). Se Deus deixasse de criar o Universo AGORA, o Universo deixaria de existir AGORA. Criar não é só dar a existência ao ser contingente de uma vez por todas, mas sustentar continuamente o ser contingente na existência. Mesmo que o tempo fosse cíclico, Deus sustentaria na existência o Universo a cada instante desse ciclo. O Universo não pode ser fechado ou autocontido, no sentido de ser totalmente independente para existir, pois o fato de ser contingente, quer dizer, de não ser necessário em si mesmo, de poder ser deste modo ou de outro (não é o mesmo Hawking quem fala de “multiversos”, universos com leis físicas diferentes das nossas?), de ter em si partes heterogêneas e seres que são gerados e se corrompem, torna-o necessariamente dependente de uma realidade que é necessária em si mesma, que não pode ser de outro modo e que não tem em si nem geração ou corrupção: o Ipsum Esse Subsistens que conhecemos melhor pelo nome de “Deus”. A outra alternativa é admitir que o Universo é um fato bruto irracional o que é, para um cientista, para um físico particularmente, equivaleria a confessar que sua ciência é ilusória e que o Universo não é Cosmos, mas puro Caos, sem unidade, sem integridade, sem ordem real.

(*) Para esta exposição empregarei o termo “científico” no sentido estreito proposto pelos “cientificista”. Na verdade, ciência é qualquer tipo de conhecimento sistemático e não apenas a inferência de relações matemáticas entre acidentes quantitativos de entes naturais.

(**) O que prova que o cientificismo refuta a si mesmo.

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