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Notas breves sobre a Nouvelle Théologie

fevereiro 15, 2014

nouvelle

As diferenças de ênfase e terminologias distintas das teologias orientais não implicam numa oposição ou contradição em relação à teologia latina.

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Do fato de eu não desejar que alguém se condene não se pode deduzir que ninguém será condenado. A minha esperança pela salvação de uma pessoa não implica em que eu possa ou deva esperar que todos se salvem.

Uma analogia: não quero que ninguém morra de câncer, mas isto não significa que eu acredite que esta maldita doença nunca mais irá matar ninguém.

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A recepção de teólogos como de Lubac, Congar e Balthasar pelos últimos Pontífices não empenhou a autoridade magisterial.

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A verdade, venha de onde vier, é a verdade e devemos acatá-la. Ainda que venha de ateus, pagãos, hereges, cismáticos ou até mesmo de (ó, infâmia)… tradicionalistas. Penso que a “Nouvelle Théologie”, o ressourcement, o retorno aos Padres Antigos, desenrolou-se de um modo lamentavelmente hostil ao pensamento tomista tradicional, jogando fora muita coisa preciosa. A clareza de Santo Tomás e seus seguidores ao expor a fé foi trocada por um linguajar nebuloso que afetou profunda e negativamente a vida espiritual da Igreja. Precisamos urgentemente resgatar a tradição escolástica do limbo em que foi jogada, pois ela encerra uma grande riqueza.

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A escolástica foi renegada e substituída por filosofias da moda de caráter pernicioso.

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É preciso acolher com o mesmo amor tanto o primeiro milênio como o segundo milênio da vida Igreja, pois a Igreja é uma só e o desenvolvimento da doutrina é orgânico, não artificial. A Igreja não pode retornar aos seus primórdios históricos e tornar-se novamente um bebê, negando ou escondendo envergonhada tudo o que ocorreu depois do ano 1000.

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Alguns trechos de Balthasar que me deixaram com uma pulga(!) atrás da orelha:

“… a visio immediata Dei [substituto da visão beatífica de Nosso Senhor na teologia balthasariana]… pode oscilar entre o modo manifesto (que convém ao Filho como sua “glória”) e o modo de “ocultamento” que convém ao Servo de Yahweh em sua Paixão… O segundo modo aqui é derivado do primeiro: uma fé viva se contenta em ficar diante da face do Deus que vê, quer Deus seja visto ou não por ele.” (The Glory of the Lord, Vol. 1, p. 329).

“Jesus tem consciência de um elemento do divino sua autoconsciência indivisível mais profunda… mas esta consciência é limitada e definida pela consciência de sua missão. É desta que, e somente desta, que ele possui uma visio immediata” (The Theo-Drama, Vol. 3, pg. 166).

“[A consciência de Sua divindade] somente vem a Ele [Cristo] através de Sua missão, comunicada pelo Espírito, que excluiria a Visão Beatífica de Deus… Jesus não vê o Pai em uma visio beatifica mas recebe do Espírito Santo a comissão do Pai, isto é, a consciência de Sua missão é apenas indireta” (The Theo-Drama, Vol. 3, pg. 195-200).

Nosso Senhor tinha fé?

Nosso Senhor sabia apenas do que era necessário para sua missão?

A ciência infusa de Cristo não ia além de uma convicção profunda de que estava fazendo a vontade do Pai?

As palavras e mandamentos do Pai lhe eram revelados aos poucos?

Nosso Senhor não via o Pai, mas apenas intuía, por meio do Espírito Santo, o que o Pai desejava lhe comunicar?

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Não é preciso jogar Balthasar fora por inteiro mas, como escreveu São Paulo, devemos “examinar tudo e ficar apenas com aquilo que é bom” (1Ts 5,21).

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A síntese, ou melhor, o reconhecimento mútuo da verdade das teologias do Oriente e do Ocidente, é importante, mas mais importante é a clareza e fidelidade ao Depositum Fidei que, infelizmente, parece faltar aqui e ali mesmo em alguns teólogos brilhantes, e digo isso sem ranço “tradicionalista”, já que não sou propriamente desse tipo.

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Os Padres do primeiro milênio são, sem dúvida, testemunhas da Tradição Apostólica, mas não são, é forçoso dizer, a própria Tradição. Por serem mais antigos, devem ser sempre consultados e reverenciados. Contudo, Santo Tomás e seus melhores comentadores são até hoje insuperáveis em coerência, clareza e concisão na sistematização da teologia e da doutrina.

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O retorno às fontes patrísticas promovido pela Nouvelle Théologie é digno do mais alto louvor. Só que tal retorno não deveria ter privado a Igreja das luzes da tradição escolástica que, frise-se, jamais foi hostil aos Padres… Basta ler a Suma Teológica para constatá-lo.

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Os teólogos da Nouvelle Théologie – que pertenceriam no futuro às correntes Communio e Concilium, conservadores e progressistas – irmanaram-se, infelizmente, na rejeição do neotomismo incentivado pelo Papa Leão XIII, colaborando intensamente nos bastidores do Concílio Vaticano II para remover sua influência. Os esquemas de preparação dos documentos conciliares, de caráter fortemente escolástico, foram rejeitados, e os textos finais dos documentos conciliares ficaram repletos de ambiguidades, permitindo interpretações espúrias. Foi uma reação precipitada, até brutal, na qual muita coisa boa se perdeu. Lamentável.

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O ostracismo da neoescolástica não foi também uma rejeição do tomismo? Creio que o tipo de formação dominante nos seminários católicos durante as décadas que se seguiram ao fim do Concílio é evidência suficiente para dar uma resposta afirmativa.

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Por mais que a neoescolástica (estimulada fortemente pelo Papa Leão XIII na Aeterni Patris, não podemos esquecer!) não tenha aprofundado o estudo das fontes patrísticas, ela permaneceu sempre segura e fiel à sã doutrina (e, por conseguinte, fiel aos Padres). Isto é o mais importante. Limitação no quesito “ressourcement” não justifica rejeição e esquecimento.

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A aridez dos manuais de filosofia e teologia neoescolásticos também não vale como crítica. Livros de física e química, por exemplo, são herméticos para a maioria dos leitores por conta da alta densidade de informação apresentada em linguagem matemática. Substituí-los por uma literatura mais leve, como a dos livros de divulgação científica, atrairia mais leitores, mas os conhecimentos assimilados desta forma seriam superficiais e a propensão ao erro seria maior. Um corpus teórico profundo não pode ser assimilado apenas olhando para figuras, analogias e exemplos. É necessário árduo esforço intelectual.

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Creio que precisamos de bons “divulgadores” da teologia, e bons teólogos que articulem insights novos, que inaugurem novos caminhos, mas se estes caminhos precisam ser percorridos com seriedade e rigor, não se pode prescindir da linguagem e dos princípios da “matemática” teológica, ou seja, da “escolástica”, que evitam erros os quais, mesmo se pequenos (e especialmente quando são pequenos), podem levar para bem longe da verdade contida no Depositum Fidei.

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Resumindo, a Escritura e a Tradição constituem o conteúdo revelado que o Magistério interpreta e atualiza, enquanto a escolástica tomista provê uma estrutura formal e postulados que asseguram a fidelidade na sua transmissão.

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Não se exclui aqui, de nenhum modo, que outras estruturas formais válidas possam ser desenvolvidas com sucesso no futuro, e consigam até ser mais ricas que o tomismo. Entretanto, não há qualquer indício de seu aparecimento no estado atual da teologia.

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Não existe na neoescolástica uma intransigência injustificada para com novas formas ou terminologias, mas tão somente uma incompatibilidade fundamental com a ambiguidade e falta de rigor características na teologia católica após a superação(?) da crise modernista.

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Os teólogos do ressourcement me parecem, em diversos momentos, admirar e citar Santo Tomás apenas para jogá-lo contra os neoescolásticos, tirando proveito de que sua autoridade foi e é reconhecida como doutrinalmente segura pelo Magistério eclesiástico.

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Repito o que escreveu São Paulo: deve-se testar tudo e ficar com o que é bom. Gosto do modo como Balthasar escreve, do seu estilo, e ele dá, sem dúvida, valiosas contribuições, mas sua Cristologia e, especialmente, sua tese sobre o que aconteceu no Sábado Santo, na medida em que são centrais na sua obra, provocam em mim sérias reservas. Sempre lerei seus escritos com cuidado para não tropeçar.

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Ao comentar que precisamos acolher com o mesmo amor tanto o primeiro milênio quanto o segundo milênio da história da Igreja, não tinha em mente contradizer a hierarquia natural, metaforicamente falando, entre os alicerces, as paredes e a cobertura de um edifício.

Devemos acolher e reconhecer a contribuição de cada século na unidade e organicidade do desenvolvimento da doutrina. A semente, o broto, a plantinha, a árvore, são o mesmo ser em diferentes estágios de crescimento. Seria estranho que disséssemos que a semente vale mais do que a plantinha ou a árvore mais do que o broto, ou ainda negar a árvore em favor da semente. Noutra perspectiva, sim, devemos fazer uma distinção de valor entre o testemunho da Tradição e seu comentário, mas essa não era nem nunca foi a intenção por trás de minha assertiva original.

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