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Uma resposta breve para Neil Degrasse Tyson

julho 5, 2015

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Transcrevo as respostas de Tyson em entrevista concedida à revista Veja de 8 de julho de 2015 e faço alguns comentários.

Neil Degrasse Tyson: “A religião de cada um tira conclusões precipitadas sobre o funcionamento do universo. A ciência, no entanto, realiza medições capazes de mostrar que essas impressões são falsas. Até hoje as pessoas dizem “God bless you” (Deus te abençoe, em inglês) quando alguém espirra. Por quê? No passado, acreditava-se, para valer, que, quando isso ocorria, a alma saía do corpo e deixava a pessoa vulnerável a demônios. Um religioso pode ver o mundo dessa maneira. A ciência verifica que há bactérias que causaram o espirro, e ponto. Um religioso pode aceitar as descobertas e passar a usar passagens de suas escrituras, a exemplo da Bíblia, como metáfora, fonte de inspiração. Ou entrar em conflito conosco. Há muitos, contudo, que souberam separar os tópicos, ver a religião como motivação moral, e a ciência como a forma de realmente explicar a natureza. Exemplo contemporâneo é o geneticista Francis Collins, cristão e um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Ele tira sua base moral da Bíblia, mas jamais responderá a uma pergunta sobre a origem do universo dizendo: “Bem, vamos verificar no Gênesis”.”

1. A religião não tem como objetivo descrever o funcionamento físico do universo. Ela não é um substituto para a ciência. Do mesmo modo, a ciência não tem como objetivo descobrir o sentido da vida ou a causa primeira de todas as coisas. Ela não é um substituto para a religião. Bem entendidas, ciência e religião devem ajudar-se e não entrar em conflito. A ciência ajuda a religião a evitar formas supersticiosas (como a aludida por Tyson) e a religião ajuda a ciência a reconhecer e respeitar suas limitações.

2. Não pode haver evidência empírico-matemática da existência de Deus por ser Deus imaterial e, portanto, sem acidentes quantitativos, ou seja, é impossível medir Deus com uma régua ou pesá-lo numa balança. Disto não decorre que não existam outros tipos de evidência, fundadas na experiência mas não de caráter empírico-matemático, que permitam a formulação de provas racionais da existência de Deus.

3. Evidência não é apenas o que é mensurável, pois o mensurável se fundamenta em coisas que não podemos medir (cores, sons, sabores e texturas, o fluxo subjetivo do tempo…), enquanto a ciência do mensurável depende de entes não mensuráveis (pensamento, lógica, inferências, deduções, induções, abstrações, imaginação…).

Neil Degrasse Tyson: “Sim, a natureza se repete, e por isso definimos regras, como a lei da gravidade. Mas é preciso tomar cuidado com essa abordagem. O.k., Deus então fez as leis da física, como já definia o filósofo Baruch Espinosa no século XVII. Só que isso quer dizer que Ele ouve suas preces? Ou que ajuda religiosos a vencer guerras contra outros religiosos? Ou que Ele tem barba? Foi esse Deus que falou com Moisés? Se tudo isso for tomado como verdade, então podemos dizer que Deus deixa pessoas inocentes ser atropeladas na rua. Ele permite, portanto, que uma criança morra de leucemia. Ou ainda faz vista grossa diante de furacões e vulcões que matam milhões, incluindo jovens e humanitários. Para acreditar em Deus, é preciso levar tudo em conta. Se Ele está por trás de tudo, é muito bom em matanças. Afinal, mais de 99,9% das espécies de seres vivos que passaram pela Terra foram extintas. Isso é o acaso da natureza? Ou é Deus? Seja qual for a resposta escolhida, é preciso assumi-la tanto para o lado belo como para o terrível.”

1. A oração não muda Deus, mas muda quem ora. A experiência registra seus efeitos benéficos: grandes santos, grandes obras de caridade, grandes sacrifícios, grandes milagres. Então, sim, Deus ouve nossas preces, embora isto não signifique que a resposta seja sempre aquilo que desejamos. Isto também faz parte da pedagogia divina para nos amadurecer interiormente.

2. A Providência não pode ser controlada. Devemos colocar tudo nas mãos de Deus e fazer tudo o que está ao alcance de nossos esforços naturais para alcançar o bem (aliás, o que é o bem para quem não acredita em nada além de átomos se movendo de acordo com leis matemáticas?). Numa guerra, como em qualquer conflito ou divergência entre duas partes, cada lado julga estar agindo corretamente e não é de estranhar que se peça, em cada lado, a ajuda de Deus que, no entanto, não é obrigado a atender essas orações de um modo que favoreça necessariamente a parte que está certa (ou menos errada). Os caminhos do Senhor não são os nossos.

3. Deus não é composto por partes. Logo, não faz sentido dizer que “tem barba”. Iconografia é uma coisa, símbolos são apenas metáforas. Não se deve interpretar uma imagem literalmente.

4. O mal é a ausência do bem, do ser. Logo, o mal depende do bem para poder se manifestar e não existe em si mesmo. Deus é a fonte de todo o ser e todo o bem. Se Deus permite o mal, é para dele tirar um bem maior. A existência de seres finitos envolve necessariamente aumentos às custas de diminuições. Numa leucemia, num furacão, num terremoto, num vulcão, o que ocorre é a manifestação de tendências naturais de certos seres que, para alcançarem seus fins, seu próprio bem, frustram as tendências naturais de outros seres gerando sofrimento e levando à extinção.

Além disso, todo sofrimento corpóreo natural é finito, enquanto Deus é o bem infinito. Certamente, Deus pode compensar infinitamente os sofrimentos passageiros desta vida. Uma única existência de felicidade sem fim é mais que o bastante para equilibrar milhões de existências infelizes e transitórias.

Deus não quer a morte do homem, mas quer que ele viva para sempre ao seu lado. Deus não se compraz com a morte, que não terá a última palavra sobre a história.

Neil Degrasse Tyson: “Dediquei tempo para pesquisar listas de deuses na internet. Demora muitos minutos só para passar com o mouse, sem ler, por um compilado de divindades nas quais a humanidade acredita. São milhares! Quer dizer que a escolha de um desses deuses pressupõe, sem escapatória, a ilegitimidade de todos os outros? Esse conflito de ideias não é tranquilo, levou a muitas guerras. Indo além, debrucei-­me sobre o Deus mais popular do Ocidente, o judaico-cristão. Quais são suas propriedades celebradas? A bondade, o poder absoluto e a onisciência. Visto quanto a natureza mata, quer dizer que Ele é assassino? Se sim, não é bondoso. Se não, Ele não é onisciente, ou todo-­poderoso. Para mim, essas escolhas parecem randômicas. Não vejo evidências que corroborem a existência de Deus. Se há um terremoto, não é fúria divina. Geólogos avisaram que a área era vulnerável. Não adiantava rezar pelo Haiti. O terremoto que abalou o país recentemente ocorreria de qualquer jeito. Não me importo se acreditam em deuses. Só acho que quem segue essa linha cega não pode distribuir culpas por aí.”

1. Não há inúmeros deuses. Deus é um só, porque só pode haver um “Ipsum Esse Subsistens”, um único ser cuja essência seja a própria existência. A razão refuta o politeísmo. Não é necessário escolher entre Thor, Shiva ou Zeus, pois é fácil demonstrar que tais seres, mesmo que existissem, não seriam divinos. O Deus judaico-cristão, por outro lado, apresenta-se como um Deus único, o criador de todas as coisas e que se revelou historicamente. Há fatos que indicam sua ação, especialmente a vida, morte e ressurreição de Cristo, e os milagres realizados ao longo dos séculos que justificam racionalmente a adesão à fé católica (e tão somente à fé católica, sorry).

2. A bondade, o poder e a ciência divinas não entram em contradição com a existência do mal, como explicado anteriormente. Mais: não faz sentido querer formular um julgamento moral contra Deus sendo o próprio Deus a fonte da moralidade. Se julgamos que Deus é mau, é porque usamos um critério de bondade, de dever ser, e tal critério não pode ter como fundamento último outra realidade que não a do próprio ser divino. Qualquer outro fundamento é insuficiente para fazer tal julgamento, porque seria relativo, uma convenção particular de seres particulares, incapaz de determinar qualquer coisa contra o absoluto.

3. O fato de um terremoto ter explicação científica ou uma doença, ou um efeito nefasto, é mais uma prova a favor da existência divina, pois indica que mesmo em coisas ruins existe uma ordem causal, uma ordem de movimento e natureza, e onde há ordem, causalidade, movimento, natureza, é necessário evocar uma causa última para a causalidade, um motor último para o movimento, uma origem última para aquilo que é natural, ou seja, Deus.

4. Se não existisse explicação científica para cada um dos fenômenos mencionados por Tyson, então teríamos um bom motivo para duvidar que Deus existe.

5. Só diz que não adianta rezar quem não reza. O Sr. Tyson deveria sair de sua armadura antirreligiosa e experimentar, como preza a boa ciência, conversar com Deus.

Neil Degrasse Tyson: “A ciência é inimiga da ‘polícia do pensamento'”.

Que o diga quem ousar discordar do neodarwinismo, do aquecimento global antropogênico ou de qualquer outro ‘dogma’ pseudocientífico que os cientistas em posição de autoridade abraçaram.

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