Skip to content

O significado da Paixão

março 25, 2016

Jacopo_Tintoretto_-_Crucifixion_(detail)_-_WGA22517

Texto de Edward Feser

A violência cruenta da morte de Jesus Cristo – a pele dilacerada pelos açoites, os cravos atravessando as mãos e os pés, os espinhos ferindo o couro cabeludo e a testa, a lança transpassando o lado – naturalmente imprime em nossas mentes a visão de sua humanidade encarnada. Mas é na contemplação da Paixão, talvez mais do que em qualquer outro contexto, que devemos fixar nossas mentes especificamente na divindade de Cristo, caso contrário perderemos por completo o sentido desse evento. O homem moderno pensa que o compreende bem – foi um erro judiciário da parte de um sistema político corrupto, uma afronta à liberdade de consciência, uma expressão de hostilidade reacionária a idéias novas comparável à execução de Sócrates. Logo Cristo é transformado, absurdamente, em algo parecido com um protomártir do Liberalismo (por sinal, a morte de Sócrates também é compreendida de um modo completamente errado. O entendimento popular de ambos os eventos reflete um certo narcisismo progressista: ‘Ele era um grande homem; logo ele DEVE ter antecipado a nós modernos de alguma maneira’. Mas isto é assunto para outra ocasião…).

Deveras, o sentido da Paixão nada tem a ver com essas trivialidades comparativas. “Pregamos Cristo crucificado”, escreveu São Paulo; “para os Judeus é uma pedra de tropeço, e para os gregos é loucura”. Os judeus e os gregos de antigamente estavam (aqui como em tantos outros aspectos) mais perto da verdade que nós modernos. Pois qualquer outra coisa que fosse a crucificação de Jesus, ela foi, primeiro e mais importante, a blasfêmia suprema. O Ato Puro, o esse ipsum subsistens, Aquele Acima do Qual Nada Maior Pode Ser Pensado, o “Eu Sou o que Sou” do Êxodo, nossa Causa Primeira e Fim Último, foi esbofeteado, espancado e pregado em uma cruz. Todos os outros significados – políticos, socioeconômicos, legais, morais – dissolvem-se na insignificância à luz do mais incompreensível dos pecados. Diferentemente de nós modernos, sempre tentando ajustar a verdade moral e religiosa aos nossos estreitos horizontes intramundanos, os antigos judeus e gregos sabiam disso, e se rebelaram contra tal pensamento. Como é possível? Como poderia o próprio Ser Subsistente ser condenado à morte? Como poderia o Altíssimo permitir-Se tão grande rebaixamento? Uma impossibilidade metafísica! Um sacrilégio inconcebível!

E, no entanto, aconteceu.

A “morte de Deus” da parábola do homem louco de Nietzsche não era a crucificação. Nem, é claro, um assassinato literal de algum tipo. Mas a magnitude moral (se não metafísica) do deicídio não se lhe escapou:

Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?

Aqui não há nenhuma fala boba sobre “monstros do espaguete voador” e assemelhados; Nietzsche, em contraste com tantos de seus sucessores, ainda tinha uma compreensão do que é nobre, e até mesmo do santo. (Os Novos Ateus não são nada menos que o Último Homem de Nietzsche arrastado pelo racionalismo.) E o que ele disse da “morte de Deus” metafórica, moderna, aplica-se sem retoques ao evento real: cada um de nós é culpado por ela. Somos, sem exceção, os piores dos assassinos. Nós, cada um de nós, matamos nosso Criador e quisemos nos fazer deuses no Seu lugar. Um pecado humanamente inexpiável.

Pois a crucificação, em seu caráter blasfemo horrendo e magno, desnuda a real natureza do pecado. Trata-se de um non serviam, “minha vontade, não a tua, seja feita!” levado até o fim, consistentemente. Para racionalizar o mal, devemos destruir o Bem. Para justificar a anomia, devemos condenar à morte o Legislador. E, ainda assim, não pode existir “racionalização” de qualquer ato na ausência do Bem. Não pode haver qualquer “justificativa” sem a Lei. Na crucificação vemos com toda a clareza a loucura satânica do pecado.

E não podemos expiá-lo.

Apesar disso, não ficamos sem esperança. Pois o Legislador Supremo que ofendemos é também Misericórdia Infinita. O Deus que pode entregar Sua vida pode levantar-se novamente dos mortos. E ele a entrega livremente, por aqueles que chama de Seus “amigos” – por nós, Seus próprios assassinos! Mesmo quando cometemos os maiores crimes contra Ele, Seus pensamentos se dirigem – admiravelmente – a nosso favor: “Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem”. Tendo-O colocado numa cruz, não podemos fazer outra coisa que não nos ajoelharmos humildemente diante dela – arrependidos, agradecidos, e em adoração.

(Original em http://edwardfeser.blogspot.com.br/…/meaning-of-passion.html)

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: