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A falibilidade da Igreja visível: uma tentação

janeiro 20, 2017

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O verdadeiro princípio do protestantismo, o ponto onde começa o seu erro, não é a Sola Scriptura, como alegam os próprios protestantes. Seguindo a tradição de usar uma expressão em latim, o verdadeiro princípio do protestantismo é a afirmação da Visibilis Ecclesiae Fallibilitas, a falibilidade da Igreja visível. Esta crença é o que nos revela a natureza verdadeira da rebelião de Lutero.

Dizer que a Igreja visível é falha implica necessariamente em se buscar alguma base mais sólida para estabelecer a fé. Onde encontrar tal base? Ora, ela só pode estar lá no início, na época em que a Igreja estava diretamente sob a tutela de Cristo e dos Apóstolos, ou seja, a Igreja das origens, presumidamente imaculada de erros em sua juventude pela proximidade de seu Fundador. Como, no entanto, é impossível construir uma máquina do tempo, o protestantismo tomou como alicerce de sua fé o elo mais seguro e objetivo possível supostamente capaz de conectá-lo ao nascimento da Igreja: as Sagradas Escrituras, conservadas e reverenciadas piedosamente pela Igreja Católica em sua liturgia.

A Sola Scriptura surge, portanto, como corolário da Visibilis Ecclesiae Fallibilitas, a dedução que Lutero e outros como ele fizeram quando julgaram que não podiam mais confiar na Igreja, por outros motivos (no caso de Lutero, escrúpulos e orgulho). De fato, não é um princípio difícil de compreender, já que a Igreja visível é formada por pessoas imperfeitas, pecadoras, contraditórias. Maus bispos e maus papas governavam a casa de Deus no século XVI. A situação do clero, moralmente falando, era realmente deplorável. Achar que a Igreja fracassara ou se desviara das origens era uma tentação sedutora, sustentada facilmente até mesmo pela observação de qualquer outro período histórico.

Disso o protestantismo tira outra conclusão: a reforma da Igreja, o retorno às Escrituras, à pureza original da Igreja primitiva, não é uma tarefa a ser feita exclusivamente neste século. É uma tarefa de todos os séculos. Ecclesia Reformata Semper Reformanda. A Igreja visível está sempre na iminência de trair o Senhor, sempre falível, sempre humana e imperfeita, nunca divina e inerrante. Não existe magistério eclesial seguro, apenas o retorno ao Texto Sagrado pode garantir sua fidelidade. Como Sísifo, ela deve sempre levar de volta para o alto da montanha bíblica a rocha de sua doutrina e começar de novo, e de novo, e de novo. Daí surgem os movimentos restauracionistas, “avivamentos”, novas denominações, novas maneiras de interpretar a Igreja nascente e viver a fé em Cristo como Salvador (*).

É quase desnecessário dizer que esse empreendimento de fracassos sucessivos e tentativas de retorno à fidelidade não pode, de fato, alcançar sucesso permanente. Primeiro porque a Escritura, mesmo inerrante e infalível, é insuficiente para reconstruir de modo adequado a experiência de fé dos primeiros cristãos. Nela lemos fragmentos do ministério de Nosso Senhor, narrativas de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, alguns eventos esparsos das origens da Igreja, cartas apostólicas enviadas a algumas comunidades para resolver problemas locais e profecias apocalípticas. Nada há ali que se compare a uma descrição adequada da doutrina e da vida da Igreja primitiva (junte-se a esta quantidade insuficiente de informação o fato de que todo texto humano é ambíguo). Logo, é IMPOSSÍVEL reconstruir satisfatoriamente o cenário eclesial e doutrinal da era apostólica usando só a Bíblia. Este é um fato objetivo inquestionável.

Se a Bíblia não pode ser a ponte visível segura entre a Igreja de hoje e a de ontem, então só nos resta uma opção compatível com a crença na messianidade de Cristo: reconhecer que a própria Igreja visível é a ponte. Não há outro caminho, a não ser que se presuma que Nosso Senhor abandonou os fiéis a si mesmos e, portanto, não cumpriu suas promessas (conhecidas, aliás, através da própria Igreja, tanto na Tradição recebida como nas Escrituras preservadas por ela ao longo dos tempos). Sim, a Igreja visível demonstra muitas falhas, muitos cristãos fizeram coisas vergonhosas e indignas e muitas heresias e doutrinas falsas tentaram enganar os fiéis. Mas se acreditamos, realmente, em Nosso Senhor, não podemos ceder à tentação da Visibilis Ecclesiae Fallibilitas. Apesar de todas as misérias, excessos, abusos, desvios, pecados, indignidades e traições, a Igreja visível não pode ser destruída ou absolutamente corrompida. Ela deve permanecer até o fim do mundo fiel à sua substância. “Et portae inferi non praevalebunt adversus eam“, “e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18), que é a “ecclesia Dei vivi, columna et firmamentum veritatis“, a “Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15) (**).

A Igreja visível exerce um papel materno, gerando discípulos para Cristo através do batismo, alimentando-os com a Eucaristia, preparando-os para o combate da fé pelo Santo Crisma, perdoando suas faltas no Sacramento da Confissão, abençoando a união de seus filhos no Sagrado Matrimônio (refletindo o mistério de sua união com Cristo), garantindo a continuidade do seu múnus de governar e ensinar todas as gentes através da ordenação sacerdotal e ungindo seus filhos doentes para a cura ou para o encontro final com seu Senhor. Em todas essas ações, ela cuida de nós, ela nos conduz até a Pátria Celeste. Ao rejeitar a Igreja visível, os protestantes, eventualmente, acabaram por deixar de lado também todo o elemento sacramental, os sinais visíveis que Nosso Senhor confiou à sua esposa visível para nos acompanhar do nascimento à morte.

Assim, temos muitos protestantes que rejeitam o batismo de crianças e consideram o próprio batismo apenas um rito de introdução na comunidade eclesial, ineficaz para perdoar os pecados, enquanto TODOS descartam de diversas maneiras a presença substancial eucarística, o sacramento que FAZ A IGREJA. Também o poder eclesiástico de perdoar pecados, a sacralidade do Matrimônio (divórcio e contracepção foram aceitos pelos nossos irmãos separados), a missão sacerdotal e a hierarquia (os pastores são leigos e sua autoridade não é sagrada) e até mesmo o último consolo e proteção espiritual antes da morte (protestantes acham que é desnecessário, pois o crente já está salvo) foram progressivamente excluídos dos credos e práticas protestantes.

Eliminando a maternidade da Igreja também se elimina a importância da maternidade de Nossa Senhora. É certo que Lutero conservava traços de devoção mariana (e, que Deus o ajude, espero que esses traços tenham-lhe servido para trocar o Inferno por um longo tempo no Purgatório), e mesmo os primeiros reformadores ainda tinham alguma reverência especial pela Mãe do Senhor. Mas isto logo se perdeu. Sem amar a Igreja visível, sem se submeter a ela, os protestantes também não possuem motivo para amar a Virgem Mãe que é seu ícone mais perfeito. Maria Santíssima passou a refletir a concepção eclesiológica da Visibilis Ecclesiae Fallibilitas: uma mulher comum, abençoada mas pecadora e útil por sua função de mãe biológica de Cristo, mas logo esquecida, minimizada, tornada insignificante. Parafraseando São Luís Maria Grignion de Montfort, não pode ter Maria por Mãe quem não tem a Igreja por Mãe. O ódio ou indiferença protestante em relação a Nossa Senhora espelham seus sentimentos pela Igreja Católica.

De todo o mal Deus tira um bem. Em oposição ao mal da pseudoreforma, Deus suscitou santos e uma reforma legítima que manifestou claramente a verdade contra o erro. Rezo e peço a Deus, entretanto, que nossos irmãos separados, um a um, e não por um ecumenismo falso, retornem um dia para os braços maternos, descobrindo o amor e a verdade que lançaram fora ao dizer sim para Cristo e não para a sua Igreja.

(*) Não que reformas NA IGREJA sejam desnecessárias, mas o protestantismo se desvia disso pregando a reforma DA IGREJA, ou seja, a própria essência eclesial se corrompe naturalmente com o tempo e precisa ser colocada em contato com a Bíblia para retornar ao seu estado (forma) de pureza primeva.

(**) Os protestantes alteram o sentido dessas passagens apelando para uma eclesiologia desencarnada, em que a Igreja verdadeira é na verdade invisível e formada por aqueles que buscam seguir fielmente as Escrituras, não importando a denominação. Essa perspectiva, contudo, é insustentável pela incapacidade da Bíblia representar adequadamente a Igreja originária.

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