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Santo Tomás negava os méritos dos sofrimentos dos santos em favor da Igreja?

janeiro 20, 2017

martyrdom-of-polycarpMas eu respondo que o sofrimento de Cristo nos foi salvífico não só como exemplo: ‘Também Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, para que sigamos os seus passos” (1Pd 2,21), mas também como mérito e como eficácia, visto que por seu sangue nós fomos redimidos e santificados: ‘Assim Jesus sofreu fora do portão para santificar o povo pelo seu próprio sangue’ (Hb 13,12). Mas o sofrimento de outras pessoas é salvífico para nós somente como exemplo: ‘Se somos afligidos, é para o vosso conforto e salvação’ (2Cor 1,6).”

Sed dicendum quod passio Christi fuit nobis salutifera non solum per modum exempli, secundum illud I Petr. II, 21: Christus passus est pro nobis, vobis relinquens exemplum, ut sequamini vestigia eius, sed etiam per modum meriti, et per modum efficaciae, inquantum eius sanguine redempti et iustificati sumus, secundum illud Hebr. ultimo: ut sanctificaret per suum sanguinem populum, extra portam passus est. Sed passio aliorum nobis est salutifera solum per modum exempli, secundum illud II Cor. I, 6: sive tribulamur, pro vestra exhortatione et salute.
— Santo Tomás de Aquino comentando sobre 1Coríntios 10,17a, tendo em vista Colossenses 1,24

Alega um protestante que o sofrimento dos santos, segundo Santo Tomás na passagem acima, não pode ser salvífico para outras pessoas de modo meritório, mas apenas como inspiração e exemplo a imitar, contradizendo a leitura católica tradicional de que os méritos dos santos poderem contribuir efetivamente para a salvação de terceiros. Ele está correto?

Vejamos o que indicou Santo Tomás em outros escritos:

Como do sobredito resulta, as nossas obras podem ser meritórias, por duas razões. Primeiro, em virtude da moção divina, e então, merecemos condignamente. Depois, por procederem do livre arbítrio, pelo qual agimos voluntariamente. E por este lado, o mérito é côngruo; pois é congruente, que o homem, usando bem das suas capacidades, Deus obre mais excelentemente, de conformidade com a sobreexcelência do seu poder.

Por onde é claro que, por mérito condigno, ninguém, salvo Cristo, pode merecer para outrem a primeira graça. Porque todos nós somos movidos por Deus, pelo dom da graça, para chegarmos à vida eterna; e portanto, o mérito condigno não pode ir além dessa moção. A alma de Cristo, porém, recebeu, pela graça, essa moção divina, não só para alcançar a glória da vida eterna, mas também para levar os outros para ela, como cabeça da Igreja e autor da salvação humana, conforme a Escritura: levou muitos filhos à glória, ele o autor da salvação etc.

Por mérito côngruo, porém, podemos merecer para outrem a primeira graça. pois, o homem, constituído em graça, cumprindo a vontade de deus, é congruente que Deus, por uma amizade proporcional, cumpra a vontade de um relativa à salvação de outro. Embora, às vezes, possa advir impedimento por parte daquele a quem esse justo desejava a justificação.” (ST Ia-IIae, Q. 114, A. 6)

A cabeça e os membros constituem uma como pessoa mística. Por isso a satisfação de Cristo pertence a todos os fiéis, como aos seus membros. Assim, também quando dois homens estão unidos pela caridade, um pode satisfazer por outro, como a seguir se dirá. Mas o mesmo não se dá com a confissão e o arrependimento; porque a satisfação consiste num ato exterior, para o qual se podem empregar instrumentos, entre os quais se contam também os amigos.” (ST IIIa, Q. 48, A. 2)

Para entender corretamente, é preciso notar que Santo Tomás distingue claramente o mérito salvífico de Cristo (de condigno), colocando-o em outra ordem acima da do mérito dos sofrimentos dos santos em favor de outros (de congruo). A preocupação do Aquinate no texto aduzido pelo protestante é afirmar que os sofrimentos do Redentor nos dão a salvação de modo absoluto, eficaz e universal, coisa que nossos sofrimentos, por mais meritórios que sejam realizados em estado de graça, não podem fazer sozinhos, mesmo porque seu poder sobrenatural deriva necessária e unicamente da eficácia salvífica do sacrifício da Cruz. Os sofrimentos dos santos aproveitam à Igreja de modo intrínseco, portanto, não no mesmo sentido que os sofrimentos de Cristo, como se a estes faltasse algo em perfeição. Por sua própria natureza, os sofrimentos dos santos são tão somente sinais, exemplos, que nos apontam o caminho que devemos seguir, ou seja, remetem-nos ao sacrifício de Cristo, este sim, o único ABSOLUTAMENTE eficaz para a nossa salvação. Entretanto, isto não exclui a possibilidade destes sofrimentos contribuírem de modo secundário, em união – sempre – aos sofrimentos de Cristo, para a salvação destas ou daquelas almas. De outro modo, é apenas Cristo que nos livra da culpa e da pena eterna, enquanto os méritos dos santos nos liberam mormente das penas temporais e nos ajudam a tirar proveito da Redenção que Ele realizou. A nossa redenção foi realizada APENAS por Cristo, na medida em que Ele é a Cabeça da Igreja e o Autor da Salvação. Os santos, por outro lado, podem merecer a graça para outras pessoas com seu sofrimento somente por causa de sua amizade com Deus e, em todas as vezes em que isto ocorrer, será mediante o contato direto com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e seus infinitos merecimentos. Apenas Nosso Senhor Jesus Cristo é ABSOLUTAMENTE o Redentor da humanidade.

Ora, como dissemos antes, um pode satisfazer por outro. Os santos porém, cujas obras encerram uma superabundância de satisfação, não nas praticaram por ninguém que em particular precisasse de perdão, pois do contrário, conseguiria esse o perdão sem necessidade de nenhuma indulgência; mas as praticaram, em geral para toda a Igreja, como o Apóstolo diz de si, que cumpre o que resta a padecer a Jesus Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja, à qual escreve. E assim, os referidos méritos são comuns a toda a Igreja.” (ST Suppl. Q. 25, A. 1. O suplemento da Suma não foi escrito por Santo Tomás, mas usa outros de seus escritos como fonte)

Para resolver esta questão, deve-se notar, como dito antes, que a obra de uma pessoa pode trazer satisfação para outra designada em sua intenção.

Mas Cristo derramou seu Sangue pela Igreja, e fez e sofreu muitas outras coisas que são consideradas de valor infinito em razão da dignidade de sua pessoa. Assim lemos no livro da Sabedoria (Sb 7,14) que nela “há um tesouro infinito para os homens”. DO MESMO MODO TODOS OS OUTROS SANTOS TINHAM A INTENÇÃO, NAS COISAS QUE SOFRERAM E FIZERAM POR DEUS, de produzir o bem não apenas para si mesmos, mas para TODA A IGREJA.” (De quolibet 2 8.2 corp.)

Uma explicação adicional do pensamento do Doutor Angélico sobre o mérito dos sofrimentos dos santos encontramo-la em uma obra do Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, de onde retirei alguns argumentos apresentados acima:

Como observa Cajetano, surge uma dúvida em relação a esta resposta [os sofrimentos dos santos são apenas exemplo e exortação para os fiéis, e não meritórios], porque diz o santo Doutor em outro lugar (Com. in IV Sent. d. 20, a. I, quaestiuncula prima) que o tesouro da Igreja, do qual as indulgências derivam sua eficácia, contém os sofrimentos dos santos. O Papa Clemente VI (N. do T.: 1342-1352, defensor e promotor da obra de Santo Tomás) expressamente afirma o mesmo (Denz. ns. 552, 757, 1471, 3051). Mas é um fato evidente que os sofrimentos aplicados a nós através das indulgências por via de satisfação e, deste modo, por via de redenção, são benéficos para a Igreja [assim o justo pode merecer de congruo (por conveniência) a conversão de um pecador, como Santa Mônica mereceu a conversão de Santo Agostinho. Ver-se também Ia IIae, q. 114, a. 6].

Cajetano acertadamente responde esta dificuldade dizendo: ‘O autor tem em mente, no entanto, os sofrimentos dos santos absolutamente considerados. Logo entre os sofrimentos de Cristo e os sofrimentos dos santos existem muitos pontos de diferença. O primeiro está na palavra ‘sofrimentos’. Pois os sofrimentos de Cristo absolutamente redimem a Igreja, enquanto os sofrimentos dos santos não o fazem absolutamente, mas satisfazem em nosso favor apenas por modo de superabundância, como dito por Santo Tomás aqui e como é ensinado na bula de Clemente VI. A segunda diferença está na palavra ‘redenção’, pois a Paixão de Cristo nos redime absolutamente, uma vez que ela nos liberta da culpa e da punição. Mas os sofrimentos dos santos nos redimem apenas em um sentido relativo, a saber, de um certo tipo de castigo, a pena temporal devida pelo pecado atual. O terceiro está na palavra ‘benéfico’. É porque a Paixão de Cristo beneficia a Igreja de modo redentor, mesmo que não exista ação da chave da Igreja para nos abrir a sua porta; mas os sofrimentos dos santos são satisfatórios em meu favor apenas quando a autoridade do poder das chaves é aplicada a mim.’

‘Portanto são muitas as condições necessárias para assegurar o fato de que os sofrimentos dos santos beneficiam a Igreja de modo redentor, e por esta razão a resposta afirmativa é apenas relativamente verdadeira; poderíamos simplesmente e incondicionalmente negar a asserção sem qualquer prejuízo para a verdade, e dizer que os sofrimentos dos santos não beneficiam a Igreja deste modo. E, junto com a verdade desta conclusão negativa, fica evidente que o mesmo deva ser dito da doutrina a respeito da eficácia das indulgências dos méritos dos santos’ (Com. in IV Sent., d. 20, a. I, quaestiuncula Ia. Ver também Cajetano, Com. in Ep. ad Gal., 120, e seu tratado De fide et moribus contra Lutherum, cap. 9, traduzido por Em. Mersch, S. J., in seu ‘Le corps mystique’, Etude de théol. historique, II, 275). Tal é a conclusão de Cajetano. Mais sucintamente, é apenas Cristo que nos liberta da culpa e do castigo eterno, enquanto os méritos dos santos nos libertam da pena temporal, e isto apenas com base na compreensão prévia de que ‘nossa redenção foi realizada somente por Cristo… na medida em que Ele é a Cabeça da Igreja e o Autor da salvação humana, como ensina a Escritura, e os santos podem merecer a primeira graça para outros apenas de modo côngruo’ (cf. Ia IIae, q. 114, a. 6, c.; Hb 2,10).

Além disso, Santo Tomás torna seu pensamento mais explícito neste assunto ao comentar as palavras do Apóstolo: ‘Completo aquilo que falta ao sofrimento de Cristo’ (Cl 1,24). Diz ele: ‘Estas palavras, tomadas literalmente, poderiam ser interpretadas em um sentido errado, como indicando que a Paixão de Cristo foi insuficiente para nossa redenção, e que os sofrimentos dos santos lhe foram acrescentados para complementá-la. Mas tal modo de ver é herético, porque o Sangue de Cristo é suficiente para redimir até mesmo muitos mundos… Estas palavras, no entando, devem ser entendidas como significando que Cristo e a Igreja constituem uma pessoa mística, cuja Cabeça é Cristo e o Corpo são todos os justos. Qualquer justo é, por assim dizer, um membro desta Cabeça… Contudo, Deus ordenou e predestinou quanto mérito deveria existir em toda a Igreja, na Cabeça e em seus membros, do mesmo modo que predestinou o número dos eleitos. Entre esses méritos os sofrimentos dos santos mártires são especialmente incluídos. Os méritos de Cristo, a Cabeça, são infinitos; mas cada santo contribui proporcionalmente com sua fração de méritos… Logo também todos os santos sofrem pela Igreja, que é fortificada pelo seu exemplo’ (Com. in Ep. ad Col.).

Destarte, Cristo somente é o Redentor. (…) Finalmente, uma vez que os méritos de Cristo são infinitos e os dos santos são finitos, pode-se dizer que os sofrimentos dos santos acrescentam algo que não é intensivamente, mas apenas extensivamente finito, como quando dizemos que Deus e a criatura não formam mais ser que Deus sozinho, pois depois da criação existem mais seres, mas somente extensivamente mais do ser. Logo, somente Cristo é absolutamente o Redentor do gênero humano.” (Rev. Reginald Garrigou-Lagrange, Christ the Saviour – A Commentary on the Third Part of St. Thomas’ Theological Summa, Ex Fontibus Company, 2012, pp. 597-599, minha tradução).

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